As pessoas que têm o hábito da leitura (no meu caso é mais que hábito, é vício) encontram sempre a companhia agradável que podem acompanhá-las ao dentista, ao médico, às filas de banco, ir para a cama, para o sofá da sala e até mesmo para o banheiro. E sempre encontram assuntos os mais variados que muitas vezes se enquadram em acontecimentos que estão à sua volta.
No livro A Viagem, de Charles Morgan, autor inglês falecido no carnaval de 1958, um dos meus autores de cabeceira, encontramos um sistema carcerário funcionando a contento, nos fins do século XIX, na França, sob o governo de Jules Grevy, depois do colapso do Segundo Império, quando a França buscava novo rumos. O romance que é muito bonito, muito bem escrito fala de Barbet Hazard, um conspícuo cidadão da província francesa que herda de seu pai a incumbência de cuidar de uma prisão, que é o prolongamento de sua própria casa. O sistema penitenciário que Charles Morgan descreve pode ter sido ou não verdadeiro na França da época, acredito que deva ter base na realidade pois eu própria quando escrevo, sempre me escudo em fatos reais.
Barbet era o segundo filho do proprietário da Maison Hazard, uma vasta propriedade rural dedicada à produção de vinho, com imensos vinhedos ao redor.
Quando o irmão mais velho se casou, criou família e se tornou prefeito da cidadezinha próxima, coube a Barbet cuidar dos presos que viviam na maison, por contrato estabelecido havia muito tempo, entre o antigo proprietário e o governo que pagava uma quantia mensal para que os presos fossem cuidados, vigiados e alimentados. Em caso de necessidade ele poderia chamar a guarda nacional para ajudá-lo a manter a paz e o bem-estar para ele e a mãe que eram os que viviam na mansão-prisão. O livro é bem grande, mais de quatrocentas páginas, mas o que eu queria mencionar era apenas o sistema carcerário. Será que não seria viável o governo terceirizar o sistema, dividindo em pequenas prisões, sob o comando de cidadãos de comprovada honorabilidade e capacidade de conduzir os homens para um trabalho interessante? Os presos de Barbet aprendiam a fazer barris para conter o vinho, tinham pássaros ao seu redor, dando-lhes comida nas ogivas das celas e até cultivavam lazeres: um tocava violino, outro compunha canções, outro fazia miniaturas dentro de garrafas e todos pareciam esquecidos de que eram cumpridores de penalidades por crimes cometidos, os quais jamais eram mencionados por Barbet.
Penso que acharão ingênuo e até infantil esse sistema e pode até nem ter sido verdadeiro, mas apenas imaginação do autor. Mas será que se pudermos tratar os condenados como seres humanos que erraram mas que podem ter outra oportunidade de vida, eles não se comportarão como seres humanos recuperáveis?
(*) Isolina Bresolin Vianna ocupa a cadeira n.º 12 da Academia Bauruense de Letras.