Carlos Alexandre do Santos, antropólogo da Funai, diz que a hierarquia tribal segue modelos da sociedade branca
De acordo com o antropólogo da Funai-Brasília, Carlos Alexandre dos Santos, a hierarquia indígena atual segue os modelos da sociedade branca. Originalmente, existia nas tribos uma pessoa que exercia somente a liderança religiosa, o pajé ou Xamã. Ele era o mais respeitado na tribo. Até que houve o contato com o homem branco. O colonizador não queria falar com o líder espiritual. Ele queria negociar com um líder político, que seria o cacique. Acostumou-se a chamar o cacique de líder, ou seja, o homem branco foi modificando a estrutura dos grupos com os quais ele tinha contato, explicou.
Segundo Santos, na época de Marechal Rondon (nomeado presidente do Conselho Nacional de Proteção ao Índio em 1939), foi criado o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que era comandado por militares. Eles criaram uma hierarquia militar também dentro das tribos. Até hoje há grupos que têm o capitão indígena, o soldado, o cabo.
Com o contato do homem branco, a liderança forte do pajé foi, pouco a pouco, sendo reduzida. Hoje, pajé e cacique dividem a liderança política e espiritual, tendo a mesma força dentro da tribo e trabalhando em conjunto. Não existia essa divisão hierárquica de hoje, com Liderança, Conselho, Suplentes. Isso tudo surgiu após o contato, concluiu Santos.
Organizações indígenas
Nos anos 70, lideranças indígenas de várias regiões do País, com o apoio do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), começaram a promover a realização de Assembléias Indígenas Intertribais para a discussão de seus problemas. Enquanto ano a ano aumentava o número de assembléias realizadas, crescia, no cenário nacional, a presença de alguns líderes como Mário Juruna (Xavante), Kretan e Xangrí (Kaingang) e Raoni (Txukarramãe).
As assembléias procuravam levantar os problemas específicos de cada grupo e aldeia indígena. Entretanto, uma proposta governamental de emancipação dos índios, divulgada em 1978 e rejeitada por Universidades, Igrejas, Ordem dos Advogados e Organizações não governamentais, motivou os índios a superarem a esfera local, para debater e agir sobre seus problemas em âmbito nacional. Em 1979 foi criada a União das Nações Indígenas (UNI), que pretendia unificar as reivindicações indígenas, mediante uma política de alianças com os movimentos de apoio aos índios espalhados pelo Brasil.
Apesar dos problemas enfrentados, a UNI atuou na Constituinte, influenciando a elaboração do capítulo sobre os direitos indígenas da Constituição de 1988. Nos anos 90, a UNI se enfraqueceu e deixou de operar enquanto havia um fortalecimento das organizações de âmbito local e regional. A própria Constituição de 1988 valorizou o poder político das aldeias, pois há necessidade de consulta às comunidades para o desenvolvimento de projetos de exploração mineral.
Assim, nos anos 90, surgiram organizações regionais como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Em sua maior parte, essas organizações já estão registradas em cartório, pois procuram captar recursos externos à comunidade. Um levantamento realizado em 1995 pelo Instituto Socioambiental revelou a existência de 109 organizações indígenas no Brasil.
Fonte: Museu do Índio
População indígena no País
Distribuídos em 562 terras indígenas, vivem hoje no Brasil cerca de 345 mil índios (215 sociedades), que perfazem cerca de 0,2% da população brasileira. Aproximadamente 70% deles estão concentrados numa parcela da Amazônia Legal, que engloba seis Estados: Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso e Pará. Além desses, devemos considerar ainda a existência de 40 povos isolados na Amazônia Ocidental.
Em densidade populacional, os seis maiores povos são:
1.Guarani: 30 mil;
2.Ticuna: 23 mil;
3.Kaingang: 20 mil;
4.Macuxi: 15 mil;
5.Guajajara: 10 mil;
6.Yanomami: 9.975.
Vale ressaltar que este dado populacional considera tão somente aqueles indígenas que vivem em aldeias, havendo estimativas de que, além destes, há entre 100 e 190 mil vivendo fora das terras indígenas, inclusive em áreas urbanas.
Há também indícios da existência de mais ou menos 53 grupos ainda não contatados, além de existirem grupos que estão requerendo o reconhecimento de sua condição indígena junto ao órgão federal indigenista.
Pelo menos 180 línguas são faladas pelos membros destas sociedades. Isso faz do Brasil um dos países com maior diversidade lingüística do mundo.
Fontes: Funai e Museu do Índio