O governo decidiu suspender a venda dos estoques oficiais, podendo subir preço ao produtor e, também, ao consumidor
A decisão do governo de suspender os leilões dos estoques oficiais de café, por tempo indeterminado, pode ser um fator para que o produto tenha uma pequena recuperação de preço ao produtor, que caiu para R$ 120,00 a saca de 60 quilos. Porém, pode ser uma desculpa para que os torrefadores elevem os preços no varejo. A análise é de Maurício Lima Verde Guimarães, presidente do Sindicato Rural de Bauru, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e membro do Conselho Deliberativo da Política Cafeeira (CDPC), para quem isso seria especulação, porque os valores do produto final já estariam com gorduras, pois a matéria-prima teve, nos últimos seis meses, uma redução de 40% no preço, que não foi repassada ao consumidor.
Lima Verde destaca que os leilões tinham o objetivo de favorecer os torrefadores, fazendo com que o preço final do produto fosse mais baixo para o consumidor, o que não ocorreu. Os torrefadores compravam com prazo longo para pagar e com preço mais baixo, apesar de ser um café de qualidade inferior, afirmou.
A questão é que, agora, os industrializadores terão que ir ao mercado para comprar o café em grãos que precisam. Porém, isso não deve provocar grandes alterações, porque a saca de café está com seu preço em cerca de R$ 120,00, que é um dos valores mais baixos dos últimos anos.
No último leilão, apenas 32% das 300 mil sacas ofertadas foram adquiridas. Lima Verde disse que os leilões de estoques reguladores oficiais eram um contra-senso, se levar em consideração que o País está participando do programa de retenção organizada pela Associação dos Países Produtores de Café (APPC). Se retém de um lado para elevar preços e do outro lado joga café no mercado, não vai adiantar muito, afirmou.
O vice-presidente da Faesp lembra que o café teve uma redução de preços ao produtor de 40%, em seis meses, em razão do excesso de oferta no mercado internacional. Porém, isso não refletiu nos supermercados. Muito pelo contrário, em alguns casos, houve até acréscimo no valor. Se a matéria-prima teve seu preço diminuído, seria natural que houvesse um retrocesso no valor final. É claro que não seria no mesmo percentual, pois tem embalagem e outros fatores que oneram os custos.
Lima Verde acredita que a suspensão dos leilões foi uma medida essencialmente política. A saída do secretário de Produtos de Base do Ministério da Agricultura, Paulo César Samico, que era o maior defensor do programa de retenção, influenciou. Para a vaga foi nomeado Pedro Camargo Neto, que dirigiu o Fundo de Desenvolvimento da Agropecuária (Fundepec), que tem uma postura diferente, mais liberal, distante do sistema intervencionista adotado pelo governo em relação ao setor cefeeiro.
O Brasil consome, hoje em dia, 15 milhões de sacas de café, sendo o segundo maior consumidor do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos que utilizam 20 milhões de sacas.
Na análise de Lima Verde, a suspensão dos leilões deve significar uma pequena reação no preço do café no mercado nacional. Porém, esse reflexo só deve vir em cerca de dois meses. Antes, a indústria comprava cerca de 700 mil sacas dos produtores e mais 300 mil nos leilões. Agora terá que comprar tudo no mercado.
O líder ruralista disse que os torrefadores podem, até, aproveitar a ocasião e aumentar os preços, para manter o alto lucro. Porém, acredita que se fizerem vão estar especulando, pois não há motivo para isso. Mas, ele acredita que a concorrência possa segurar esses aumentos. Há um certo cartel porque não deixa abaixar o preço. Se os caras (torrefadores) estavam comprando café 40% mais barato, pelo menos, algum número deveria ter para poder baixar o valor. Se dava para vender por esse preço com a matéria-prima 40% mais cara e era um bom negócio, não entendo por que não se faz a redução de valores, afirmou.