Não há dúvida de que vivemos, aqui e no mundo, dias estranhos e preocupantes. Entre nós, muitos dos que passaram grande parte de suas vidas como personagens atuantes do cenário político, e fizeram-no a serviço de ideologia totalitária prevalecente em países de partido único, como a União Soviética, a China continental, Cuba e Albânia, hoje pontificam como arautos do neoliberalismo e, com surpreendente desfaçatez, proclamam-se ex-combatentes em favor da democracia. Não será necessário, nem conveniente, explicitar exemplos, pois o leitor sabe bem a quais personagens nos estamos referindo, e que posições alguns deles ocupam atualmente. O fato é que o poder que detêm e usam sem cerimônia alguma, é tamanho, que se estende a colaboradores surgidos, alguns, de situação anônima, do ponto de vista do conhecimento popular a seu respeito, e passam a ser intocáveis. O leitor há de lembrar-se do episódio muito recente no qual, um tumulto surgido na arquibancada de um estádio de futebol, acarretou a precipitação de uma massa de torcedores sobre grade de proteção do referido estádio a qual, não resistindo à pressão, cedeu, acarretando um certo número de vítimas, felizmente nenhuma delas fatal, e que foram prontamente socorridas. Episódio lamentável, sem dúvida. E foi o bastante para que se desencadeasse sobre um dos dirigentes do clube esportivo a que pertencia o estádio, campanha demolidora, até hoje em curso, e que passou a envolver outras circunstâncias que nada têm a ver com o episódio que as desencadeou. Circunstâncias, de resto, que devem ser devidamente apuradas, sem dúvida alguma.
O estranho, porém, estranhíssimo, é que, não no âmbito de um clube de futebol, mas no da maior empresa do país, orgulho do nosso povo, que a criou e operou de modo a torná-la grande também no cenário internacional, de algum tempo a esta parte, estejam ocorrendo, com freqüência inusitada, episódios lamentáveis e significativos de falhas técnicas prejudiciais ao meio ambiente, cada um deles coberto por enorme e duradouro noticiário de imprensa, culminando tudo com o naufrágio e a perda trágica de várias vidas humanas, da maior plataforma de produção de petróleo do mundo. Isso para não falar do ridículo e mais do que suspeito episódio da tentativa de mudar a marca da empresa, de maneira a que, de Petrobrás, passasse a ser, no âmbito internacional, Petrobrax - não fosse a terminação bras, sugerir o nome da nossa pátria. O episódio, pela inconsistência do pretexto alegado pelos que o provocaram, e pela reação de alguns setores da opinião pública e da mídia, foi superado. Entretanto, apesar do sindicato de trabalhadores do setor afirmarem que, de 1998 para cá, já morreram em acidentes 91 trabalhadores, em sua grande maioria integrantes de equipes terceirizadas em substituição aos milhares de trabalhadores da empresa despedidos pela administração, ninguém cogita de argüir a sua competência e a sua adequação às funções dirigentes da maior empresa nacional, orgulho do povo brasileiro, no que tange à sua capacidade de realizar criativamente atividade industrial e comercial de tamanha importância.
Serão intocáveis, por definição, aqueles dirigentes? E se são, por que o são? Não parecem ao leitor, boas as perguntas em causa?
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