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Lixo: responsabilidade do poder público e da população

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Problema evidenciado cada vez mais em todas as partes do planeta, o lixo produzido nos ambientes doméstico, hospitalar e industrial vem exigindo alternativas modernas e eficientes dos poderes públicos para não se tornar o caos do novo milênio. O crescimento populacional e o estímulo consumista provocado pela globalização têm aumentado a produção de lixo em proporções nunca vistas. A Agenda 21, documento extraído da ECO 92, recomenda mudanças nos hábitos de consumo para minimizar o despejo de milhões de toneladas de embalagens - denominadas lixo inútil.

E a questão é realmente séria. Em Bauru, a quantidade de lixo produzido atualmente é 40% maior do que há seis anos. Nesses últimos anos de economia estável, a população - em todos seus estratos - passou a comprar mais e a enriquecer os seus sacos de lixo. Paralelamente, o mercado foi invadido por embalagens plásticas - especialmente as pets de refrigerantes -, garrafas de vidro não retornáveis e toneladas de papéis destinadas aos microcomputadores. Tudo isso, é claro, foi inutilizado e despejado no aterro sanitário, nas ainda tímidas centrais de reciclagem ou, lamentavelmente, nos lixões irregulares e terrenos públicos abandonados.

O poder público - e aqui falamos da Prefeitura de Bauru - tem a responsabilidade de tratar a questão de forma séria, aprimorando os serviços de coleta, ampliando os programas de reciclagem, buscando recursos governamentais para implementar a compostagem e reciclagem e, sobretudo, cobrando a colaboração da sociedade. Esta, por sua vez, tem que abrir definitivamente os olhos e abandonar o pensamento de que o problema lixo acaba no instante em que os resíduos são colocados nas lixeiras.

É muito cômodo continuar acondicionando nas sacolinhas de supermercado aquilo que já não tem mais utilidade, assim como é igualmente fácil colocá-las do lado de fora para evitar o fedor dentro de casa. Difícil e necessário, entretanto, é ter o cuidado de pensar o lixo como algo retornável em 60% e conscientizar-se na separação dos materiais recicláveis.

Atualmente, a coleta seletiva em Bauru atinge 50% dos bairros, mas a reciclagem oficial realizada pela Prefeitura recebe apenas três das aproximadas 300 toneladas de lixo produzidas diariamente na cidade. Se comparado a outros municípios da região, Bauru não faz tão feio, embora esteja muito longe de atingir o patamar ideal.

O aterro sanitário, em funcionamento desde 1993, atende bem, segundo avaliação da Cetesb, mas a proximidade de seu esgotamento já preocupa. A Central de Produtos Recicláveis, instalada no Jardim Redentor, também trabalha bem, mas está com a capacidade praticamente saturada. Já se faz urgente a necessidade de a administração pública estudar a instalação de outros pontos de reciclagem pela cidade. Essa iniciativa, porém, terá de vir acompanhada de um amplo e efetivo programa de conscientização popular.

As crianças têm recebido orientação nas escolas sobre a importância da seleção dos materiais recicláveis e seu reaproveitamento, mas a cidade não pode esperar elas crescerem para que essa consciência seja multiplicada e efetivamente praticada. O grande desafio no momento é fazer com que a população adulta mude seus hábitos e entenda que separar o lixo orgânico (cascas e bagaços de frutas, folhas secas, cascas de ovos, restos de alimentos, papéis molhados ou engordurados) dos produtos que podem ser reciclados (papéis, embalagens plásticas, vidros, latas) não é apenas uma causa ideológica dos grupos ecológicos. Quem quer qualidade de vida tem a responsabilidade direta e incontestável de participar. Está na hora de abandonar a idéia de que o poder público - e só ele - tem a obrigação de deixar tudo limpo nas áreas onde nossos olhos alcançam.

Bons exemplos que devem ser seguidos pela sociedade bauruense vêm, por sinal, de zonas periféricas onde muitos julgam ser a raiz do problema. Comunidades pobres como a do Parque Jaraguá revelam ter mais consciência do que os escolados que, em tese, deveriam servir de modelo. Moradores desse bairro se uniram em cooperativa e realizam um trabalho de conscientização ambiental, casa a casa, por toda a redondeza.

Moradores carentes de outras localidades também se empenham em cobrar a separação do lixo. Talvez não porque estejam preocupados com a causa ambiental, mas porque encontraram na coleta um meio de subsistência. Estima-se que pelo menos três mil pessoas em Bauru trabalhem na coleta informal do lixo doméstico, posteriormente vendido às empresas de reciclagem que se instalam cada vez mais na cidade. Cerca de um terço do lixo produzido pela população local não tem chegado ao aterro sanitário, o que leva a crer que essa parte é recolhida antes por esses coletores desconhecidos. Esse fator é o que explica também a queda nos números oficiais da coleta seletiva do ano de 1999 para 2000 (confira no quadro).

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