A mentira não surge na vida das pessoas apenas na fase adulta. Pelo contrário. Segundo o médico americano Stanley Turecki, diretor do Centro de Crianças Difíceis de Nova York, os pais não devem se assustar com as mentiras dos filhos porque a mentira da criança é natural. Isso não quer dizer que elas podem sair por aí inventando histórias sem que ninguém as repreenda. Em muitos casos, o excesso de mentiras ditas por uma criança pode evidenciar problemas maiores, como a maneira com a qual ela é tratada pelos pais, ou ainda como anda a sua auto-estima.
Segundo o psiquiatra infantil Alfredo Castro Neto, a mentira é uma habilidade que toda criança adquire. Crianças de 4 a 7 anos podem, com certa freqüência, mentir. Na realidade, talvez mentir não seja a palavra a ser usada, porque raramente elas têm a intenção de enganar nessa idade. Os fatos se confundem em sua mente; ela ainda não pode diferenciar completamente fato de ficção; a história pode apenas soar melhor desta forma; ou se uma criança relata uma experiência, outras afirmarão que fizeram o mesmo.
Dos 7 aos 11 anos de idade, a criança já tem um conceito cada vez mais significativo de honestidade. Ela torna-se capaz de dissociar a verdade de situações temporárias e específicas (isto é, vê a verdade como uma idéia e não meramente como parte de uma situação específica). Ela pode, quando as condições favorecem, fazer tentativas conscientes de enganar através da mentira. Ela tem um conceito de moralidade. Percebe que quanto mais a mentira tem intenção de enganar, pior ela é. Em resumo, ela desenvolve uma consciência - baseada, pelo menos em parte, no respeito pelos outros e na consciência da obediência coletiva de regras e expectativas. A partir dos 11 anos de idade, a mentira deve ser vista como algo intencionalmente falso e, normalmente está relacionada com a maneira como a criança é tratada pelos pais - quanto mais invasores eles forem, mais mentirosas elas serão.
Mentiras crônicas
Para a criança, a mentira pode ser uma arma para evitar acusação ou punição e para sustentar uma auto-imagem pobre. Apesar de toda criança mentir, algumas o fazem mais que outras. Na verdade, os psiquiatras infantis já estão conseguindo distinguir padrões que os possibilitem apontar as crianças que mentem mais. A diferença, geralmente, é o seu bem-estar emocional. As mentirosas crônicas não se sentem bem consigo mesmas.
Às vezes, a mentira constante pode refletir problemas mais profundos, como no caso da que parece arbritrária, sem motivação aparente e desacompanhada de ansiedade. Este tipo de comportamento pode refletir sérios distúrbios no desenvolvimento da consciência ou da capacidade de distinguir entre realidade e fantasia. Neste caso, a criança necessita de atendimento especializado.
De acordo com Castro Neto, os pesquisadores concordam, que a razão mais comum para a mentira, sobretudo entre crianças pequenas, é o medo de punição. Isto acontece quando a punição é severa ou quando os pais têm expectativas muito altas em relação aos filhos. O que acontece? As crianças acabam mentindo para dar aos pais a versão que eles gostariam de ouvir. Por exemplo: o pai pergunta como foi o jogo de futebol na escola e o filho diz que se time ganhou e que ele fez dois gols quando na realidade seu time perdeu e ele ficou no banco de reservas. Ele sabe que o pai ficaria orgulhoso se sua primeira versão fosse verdadeira, por isso a diz. O que acontece nesse caso é que, possivelmente, os pais estão impondo exageradamente seus desejos aos filhos e cobrando demais.
Em alguns casos, porém, a mentira já é um hábito da casa que a criança capta e aprende como usar. Ela vê o pai mentir, por exemplo, e percebe que a mentira pode trazer algumas vantagens e, assim, inventam dores de cabeça para faltar à aula, criam problemas que não existem...
As crianças em idade escolar também usam a mentira para aumentar a auto-estima e o status social. Por exemplo, podem espalhar ter encontrado um ator ou cantor famoso, ou contar sobre uma viagem que não fizeram. Podem também exagerar o status dos pais. Mentiras ocasionais como essas raramente são dignas de atenção, uma vez que são esperadas durante as conversas das crianças, afirma o psiquiatra. Mas mentiras repetidas sobre o status social denotam algum problema. Essas mentiras indicam, que a criança tem uma atitude negativa sobre si mesma e provavelmente se sentiu humilhado ou carente, ou foi ignorado ou diminuído. Rebelião
Para outras crianças, mentiras crônicas são quase sempre uma rebelião contra as restrições, uma maneira de desafiar a autoridade dos pais. Os adolescentes já não acham que têm de dizer aos pais tudo o que fazem. Na verdade, quanto mais invasores e superenvolvidos são os pais, mais propensos são os pré-adolescentes e adolescentes a omitir informações. Geralmente, isto é feito ruidosamente, como para enfatizar a necessidade que têm de privacidade. O pai ou a mãe pergunta onde o filho foi e ele responde: a lugar nenhum, como quem quer deixar bem claro que não interessa para o pai saber essa informação. E assim por diante: O que você fez? Nada. Quem estava lá? Ninguém que você conhece...
Para Castro Neto o maior controle que se pode ter com os filhos é o controle da informação, por isso ele acredita que as crianças mentirão se os pais não lhes permitirem ter privacidade, pois elas precisam de privacidade e autonomia para crescer.
Um súbito aumento da mentira também pode ser um sinal de que algo vai mal na família e vem acompanhado de outras formas de ação, como roubar ou destruir coisas, sobretudo se as vítimas são outras pessoas da família, alerta o psiquiatra. Segundo ele isso pode ser um grito de socorro.
A mentira em vídeo
Centenas de filmes já foram produzidos sobre o tema. Alguns de mais destaque podem ser facilmente encontrados nas locadoras. Quem prefere comédias vai gostar de O Mentiroso, com Jim Carrey, que conta a história de um pai que vive mentindo para o filho e um dia, por causa de um pedido feito pela criança no seu aniversário, se vê incapaz de mentir. Isso provoca um caos na vida do pai, um advogado que mente muito no trabalho. Em outra comédia, Os Picaretas, Steve Martin é um diretor de cinema fracassado que engana o maior astro de Hollywood, vivido por Eddie Murphy para produzir um filme com ele.
O maior mentiroso do cinema (e da literatura infantil) talvez seja o boneco Pinóquio, criado pelo italiano Carlo Collodi. Existem pelo menos duas versões boas que todas as crianças vão gostar de assistir, a clássica da Disney e uma nova versão feita com animação e atores de verdade. A história é conhecida: o boneco de madeira Pinóquio vive entrando em encrencas mas mente para o seu criador e cada vez que isso acontece o seu nariz cresce um pouco.
A literatura também deu ao cinema dois grandes mentirosos que geraram aventuras divertidíssimas: João Grilo, em O Auto da Compadecida e o Barão de Munchausen, em As Aventuras do Barão de Munchausen. O primeiro, vivido por Matheus Nachtergaele é um sertanejo nordestino que sempre usa uma mentira para resolver seus problemas e com isso acaba enganando a morte e até o próprio diabo. O Barão, vivido por John Neville, é um grande herói que, segundo ele, claro, combate monstros, viaja em bolas de canhão e até viaja para a lua. Tudo isso na Europa do século XVIII.
Para os filhos não mentirem
Segurança. Ao perceberem mentiras seguidas, os pais devem avaliar se criam um ambiente seguro para que os filhos falem a verdade
Privacidade. A criança tem direito à privacidade. Pais invasores, que desejam saber de tudo, levam os filhos a mentir.
Exigências demais. Pais que esperam demais dos seus filhos podem levá-los a mentir para satisfazer suas expectativas e garantir um amor que eles supõem ameaçado em caso de fracasso.
Acusações. Perguntas incriminadoras induzem à mentira. Para a criança, ser acusado é um castigo que a mentira pode evitar
Exemplo em casa. As crianças que mentem, geralmente ouvem os pais mentirem de vez em quando. Por isso é preciso ter muito cuidado com o que se fala perto da uma criança.