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Mentira

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Dia 1 de abril, Dia da Mentira. Não existe data mais própria para tocar no assunto. Existem algumas novidades sobre a mentira que podem revolucionar as teorias dos especialistas sobre esse ato tão preconceituosamente (é isso mesmo!) tido como uma falha na personalidade da pessoa. Só para citar um exemplo, pesquisadores da Universidade de Glasgow, na Escócia, chegaram à conclusão, depois de entrevistas com mais de 3 mil pessoas, que a mentira é fundamental para o relacionamento humano. Sem ela, afirmam os especialistas, não haveria namoro, casamento e nem procriação. A base do estudo escocês compara a mentira humana com as técnicas de dissimulação das quais algumas espécies se utilizam durante a caça e o acasalamento. Mas não é só isso, médicos da renomada Clinica Mayo, nos Estados Unidos, concluíram que a história de Pinóquio, o menino cujo nariz aumentava a cada mentira, na fábula de Carlo Collodi, tem um fundo científico. Os pesquisadores descobriram que quando mente, o estado de nervosismo da pessoa, que precisa convencer, faz com que ela libere um hormônio, que eles chamam de C-145, que, simplificadamente, altera a longo prazo o formato de certas partes do corpo, entre elas, o nariz. Por mais surpreendente que essas informações possam parecer, elas não respondem uma pergunta mais simples: por que as pessoas mentem tanto? As explicações podem ser encontradas na origem da pessoa, no seu sexo e na maneira como ela se relaciona com os professores na escola. Um detalhe importante: tudo o que você acabou de ler é mentira. 1.º de abril.

A maior mentira do século XX - De todas as mentiras que circularam pelo século XX nenhuma foi maior do que a pregada pelo então radialista Orson Welles, que em 1938 fez um grande número de americanos acreditarem que a Terra estava sendo invadida por marcianos. Até que a notícia se revelasse uma brincadeira, muita gente entrou em desespero e até se suicidou.

A única coisa que se pode afirmar com certeza sobre a mentira é que ela faz parte da vida de todas as pessoas. Mesmo aquelas que se esforçam para não fazer uso desse ato, mais cedo ou mais tarde, mesmo que seja para não magoar alguém, acabam não resistindo. E ela esta presente desde cedo na vida das pessoas (leia na página 3 sobre a origem da mentira ainda na infância) e as acompanha até o fim da vida. O psicanalista Alberto Goldin, em entrevista ao jornal carioca O Globo, afirmou que o adulto quando mente, está a procura de lucro ou prazer e divide a mentira em duas: a que prejudica e a mentira social. A psicóloga Luciana Biem Neuber explica que, normalmente, as pessoas dividem a mentira em duas categorias para justificarem melhor sua atitude ao mentir, Se não prejudicar ela acha que é permitido, diz. Na prática, a maioria das pessoas aceita a mentira socialmente se ela não causar nenhum mal. Se não for prejudicial para a pessoa eu não acho que tenha problema, diz a advogada Hosana Karla Moya Gonçalves, que afirma contar uma mentirinha de vez em quando se for necessário.

Para Luciana Biem, porém, não existe muita diferença entre uma mentira e outra na prática. Mentir significa não dizer a verdade, então se a pessoa não diz a verdade, está mentindo, não importa se essa mentira é nociva ou não, afirma. A psicóloga acredita que quando mente, a pessoa está tentando se eximir de uma responsabilidade mesmo que seja a mais simples como afirmar que uma pessoa não está bonita quando esta pergunta sobre sua aparência ou mentir a idade. É claro que piores são as mentiras pesadas, que acabam encobrindo outras coisas, como a traição o furto ou um crime, explica.

A questão é mais delicada e envolve uma postura da sociedade que permite que mentiras leves sejam proclamadas sem problemas. A pessoa se acostuma a mentir de uma tal maneira que passa acreditar que a mentira é verdade, que é normal.

Compulsão

O problema se torna algo muito grave quando a mentira para de ser uma coisa que se aplica apenas de vez em quando para se tornar um hábito. Uma compulsão. Para Alberto Goldin, o mentiroso compulsivo é um doente, da mesma maneira que a pessoa que só diz a verdade também tem uma doença. Na verdade é impossível dizer a verdade a todo momento. Por isto é difícil julgar mentirosos quando se trata da relação amorosa, por exemplo, diz. Mas Goldin enfatiza que mentir nunca é a melhor maneira de se relacionar mas, de repente, é, às vezes, a única opção.

Na opinião do psicanalista Wilson Chebabi, o mentiroso compulsivo só vai parar de mentir quando aceitar a sua própria precaridade. A mentira social é um problema grave porque a sociedade mantém convenções que são incompatíveis com a condição humana, diz. Segundo Chebabi, o sujeito mente porque não suporta o conflito penoso e irremediável entre seus desejos e a frustração que a realidade lhe impõe. Numa sociedade menos hipócrita, este conflito entre o desejo e a realidade continuaria existindo, mas talvez fosse melhor administrado, explica.

Pode ser que esteja ai a resposta sobre por que as pessoas mentem, talvez seja apenas para tornar a realidade menos frustrante para elas ou para os outros.

Mas o resultado é satisfatório? Momentaneamente até pode ser mas não a longo prazo. A pessoa que mente está enganando a si mesma enquanto tem a impressão de que está enganando todo mundo, acredita Luciana Biem, É sempre melhor dizer a verdade, ser verdadeiro, completa. Para a psicóloga o velho ditado que diz que a mentira tem pernas curtas tem um fundo de verdade: Pode demorar, mas mais cedo ou mais tarde a verdade aparece, decreta.

Origem do Dia da Mentira

Existem várias versões para a origem do Dia da Mentira. A mais famosa diz que a brincadeira surgiu na França. Desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado em 25 de março, data que marcava a chegada da primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1 de abril. Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX determinou que o ano Ano Novo seria comemorado no dia 1 de janeiro. Alguns franceses resistiram às mudanças e quiseram manter a tradição. Só que os gozadores passaram a ridicularizar os conservadores, que queriam manter o costume antigo, enviando presentes esquisitos e convites para festas que não existiam.

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