Geral

Que é mais amargo que a solidão?

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

Aquele homem, profissionalmente filósofo desde os tempos de universidade, foi perdendo aos poucos, mansamente, como as águas que correm, sem nenhuma pressa, diante de sua velha casinha, praticamente todos os seus mais afetivos vínculos familiares. A bela esposa fora levada à sepultura fria, bem cedinho, por um malvado câncer que, um dia, não a perdoou. Colheu-a com a violência que caracteriza as ruas e avenidas e a arrastou tristemente até quando ela conseguiu resistir. Muitos anos transcorreram até que isso viesse a ocorrer... Os filhos (três) tomaram um a um o destino que escolheram. Foram todos para a cidade grande à busca de qualquer atividade profissional não existente no seu doce recanto, tão belo, de árvores frondosas e cenário romântico... Ultimamente, já não correspondem com ele. Tê-lo iam esquecido para sempre, como esqueceram as belezas naturais de seu sítio? Tudo aconteceu. As coisas mudaram. Mas a vida do velho filósofo não se modificou. Continuou inalterada. Então, é hoje um homem que tem como companheira somente uma filosófica tristeza. Tristeza das horas e dos espaços silenciosos de sua existência, melancólica como noite sem luar, pois não tem com quem conversar, eis que o contornam unicamente os pássaros bulhentos das árvores amigas e o marulhar das águas inquietas de seu querido remanso. Não, não tem mesmo com quem conversar, com quem passar as horas, ele que outrora possuía esposa, filhos e alunos de sua Faculdade para puxar um dedinho de prosa. Então, palavreia, agora, com sua única amiga, aquela que não o abandonou um só instante. Só que ela não lhe responde. Está sempre muda, observadora do cenário. Qual o seu nome? Chama-se solidão. Quantos anos possui? Os mesmos do homem do lugar, que ela alimenta ainda que só inserindo em seu velho coração a tristeza, só a tristeza, que vem de suas próprias emissões. Sorvendo-a, vem-lhe de sua filosofia a clássica pergunta: será que há algo mais amargo que a minha solidão, embora ela esteja cercada de estrelas ou envolta por raios de sol? Haveria alguma coisa que possa fazê-la alegre ou menos triste ou ainda falar com ele? Uma grande interrogação. Mas, afinal, de quem é esta história. Ora, é de todos os que vivem solitários como muitos que constantemente cruzam os caminhos da gente, como tantos que o destino marginalizou da sociedade e não conseguem relampejar em melhores atalhos. Há por aí tantos assim ocultos nos albergues da vida, como o que o jornalista encontrou, numa beira de estrada, perdido em seus pensamentos e procurando resposta para eles. É a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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