Geral

Uma ópera real

(*) B. Requena
| Tempo de leitura: 3 min

No domingo, eu ainda os vi, chegando à feira livre do centro da cidade, cada qual puxando seu carrinho que usam para catar trecos, principalmente latinhas vazias de cerveja. Parecia o casal mais normal e feliz do mundo, que jamais tenha tido uma única briga. Digo melhor, ambos pareciam que jamais, sequer, divergiram de opinião.

Para quem chegou agora, é melhor explicar direito. Acordei no sábado com um barulho, um burburinho, um corre-corre que vinha das ruas. Algo que chamou a atenção de maneira anormal, porque o caminhão do gás, que executa (executa, mesmo!) música clássica, a perua que o quase surdo aqui houve vender ovos de galo e a outra que chama os bauruenses de pamonhas, já não me despertam a atenção. A rotina caleja. O sussurro denunciava que algo inédito, exótico, vinha das ruas. A intuição estava correta.

Dois atores de uma ópera espetacular, surrealista, estavam em plena ação na rua. Um casal de mendigos brigava, brigava, brigava. Não, esta não é a realidade do fato. A mulher, uma pigméia que pouco ia acima do umbigo do ator, ela e só ela, batia. Os passantes, que se dirigiam ao mercado, paravam para ver a performance, que ora tinha lances de cinema mudo, opereta bufa, comédia pastelão. A crua realidade de Nelson Rodrigues também ali, por vezes, estava presente.

Os mesmos passantes, retornando das compras, paravam novamente para ver a continuação do espetáculo. Os atores, sujos e embrigados, não paravam e não dividiam sua apresentação em atos. Quando enjoava de esbofetear o marido, com a mão ou com um chinelo, a baixinha o arrastava pelos cabelos até o muro, para socá-lo ali, até que seus braços cansassem. Se o via por alguns instantes em pé, dava um jeitinho de fazê-lo esboroar-se no chão. O moço lembrava um judas ou boneco de borracha.

Num determinado momento, alguém da grande platéia que ali se formara, imiscuiu-se no espetáculo, efetivamente ou como o falso espectador que faz parte da peça, e gritou: Gente, vamos acabar com isso antes que essa mulher crie calos nas mãos! Qual nada. Proposta foi ignorada como se nem houvesse sido pronunciada.

Por que ninguém se dispôs a ajudar o desditoso ator? Por motivo simples. Quando sua partner parava para descansar, exausta de tanto bater, ele a pegava de surpresa, a abraçava por trás ou a levantava nos braços. Mais cascudos e pescoções. Lembravam certos animais que, invariavelmente, se amam entre tapas e beijos. Quando a platéia pedia em coro que a beijasse, o ator tentava em vão. É certo que numa das tentativas foi bem-sucedido.

Alguém sugeriu que se sonorizasse pelo menos o último ato daquela nova versão da Ópera do Malandro. Ninguém se atreveu. Sem conseguir acertar sequer um tapa na atriz, o ator levou uma vantagem que surgiu do acaso: ela tropeçou no carrinho de latinhas e foi ao chão, abrindo um rombo no joelho. Um momento de Sangue e Areia no espetáculo. A partir de então, surgiu de maneira muito clara uma realidade anacrônica do nosso Brasil e nosso povo menos favorecido. Pois ela batia e chorava; ele apanhava e ria. No final de tudo, apoteótico, tudo parecia preparado para que o público caísse na gargalhada. Porque a polícia chegou para prender o valentão que está surrando a mulher no meio da rua.

Pelo menos para mim, os atores não têm nome. Melhor assim, porque, como milhões de brasileiros, também não têm palco, não têm luz, não têm casa, não têm amigos, não têm calçados, não têm pão, não têm partido, não têm direito de ter desejo, não têm dor. Se querem um nome para a peça? Brasil.

(*) Da Academia Bauruense de Letras

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