Para muitos jovens e não tão jovens esta data não tem nada de especial. Mas para nós da terceira idade e especialmente para estes que numa forma ou outra serviram no Exército, este 8 de maio de 1945 representa muita coisa. É o fim da Segunda Guerra Mundial.
Eu me lembro como se fosse ontem. Meu regimento de carros blindados do 2.º Corpo Polonês, do Oitavo Exército Inglês depois de participar na batalha para conquista da Bolonha estava descansando num pequeno lugarejo com nome de Macerata. Alguns soldados estavam fazendo limpeza de carros e armamentos quando, de repente, do caminhão onde estava instalado o rádio do comando, ouviu-se o barulho de uma sirena. Uma vez, outra, terceira... Todos já sabiam do que se tratava. Foi o sinal do fim da guerra. Outras sirenas se seguiram. Um barulho de ensurdecer. Mas nada de disparos. Esta foi a ordem. Ouvimos disparos de fuzis e metralhadoras mas de um acampamento por perto de um batalhão de soldados indianos da tribo gurhis que também participaram na batalha pela Bolonha. Alegria de nós poloneses foi parcial. De um lado satisfação pelo fim da guerra mas de outro pensamentos pessimistas quanto ao nosso futuro. Todos nós sabíamos que na conferência de Yalta entre três potências, Roosevelt, Churchill e Stalin resolveram entregar o domínio da Polônia para comunistas. Este fato, para a maioria de nós, representava a impossibilidade de voltar. Para nós, soldados do gen. Anders, o comunismo de Stalin era inaceitável. Por isso éramos chamados de fascistas. Voltar para ser preso? Parecia que nosso esforço de seis anos de guerra era inútil... Neste confronto com o nazismo, a Polônia não foi sozinha. Começou primeiro, mas depois a nós se juntaram franceses, ingleses, americanos e brasileiros. Estes últimos merecem especialmente uma menção honrosa. Vocês não foram ameaçados diretamente pelo nazismo mas, mesmo assim, percorreram milhares de quilômetros para combatê-lo. Parabéns.
Mas nestes últimos mil anos da existência da Polônia como país organizado, nós sozinhos salvamos a Europa três vezes. A primeira foi no ano 1240, quando tribos mongóis de tártaros invadiram a Europa matando, roubando e estuprando as mulheres. Já passaram pela parte da Ucrânia, Moldávia e Hungria quando entraram na Polônia. Na famosa batalha no sul, que depois foi chamada de psie pole (campo dos cachorros) não houve vencidos nem derrotados, mas os tártaros ficaram tão cansados que desistiram da conquista da Europa e voltaram para suas estepes na Ásia. Segunda vez foi em 1683, quando exércitos turcos comandados pelo grande vizir Mustafa tentaram conquistar a Europa em nome de Allah. Passaram vitoriosos pela Hungria e cercaram a capital da Áustria - Viena. A situação ficou dramática quando o imperador Leopoldo chamou nosso rei Jan Sobieski para ajudar. Este não pensou duas vezes. Juntou regimentos de seus famosos huzares (cavalaria de elite), foi pedir a bênção a N. S. de Czestochova, padroeira da Polônia, e em poucos dias chegouàs colinas que cercavam a capital da Áustria. Exércitos turcos não esperavam este ataque e foram derrotados deixando no campo de batalha muitos mortos, prisioneiros e tesouros. Foi uma grande vitória. Viena e Europa foram livres. Terceira vez foi em 1920, quando as tropas bolchevistas, depois da vitoriosa revolução de 1917, invadiram a Polônia pensando conquistar a Europa - desta vez em nome do comunismo. Neste ano, no mês de agosto, numa grande batalha nas redondezas da capital, Varsóvia, as forças comunistas foram derrotadas e forçadas a voltar para a Rússia. Depois esta batalha foi chamada Milagre do Vistula (rio que passa pela capital) devido ao fato que em números as tropas bolchevistas foram superiores às nossas - 8 ou 10 vezes.
Para terminar, sabem por que um grande prato de entrada nos bons restaurantes é chamado bife tártaro? Vou explicar. Tártaros, que só viviam conquistando países vizinhos, não tinham tempo para cozinhar. Então, colocavam pedaços de carne crua por baixo das selas e esta curtida, depois de dois ou três dias de marchas ficava como prato predileto para eles. Para beber tinham leite das éguas que chamavam kumys. Naturalmente hoje, em restaurantes, não precisam usar cavalos para fazer este prato! Mas sempre é feito com carne crua... Bem, para terminar, desejo um bom bife tártaro para todos amigos de Bauru. (Aleksander Gniewcsz - ten. coronel do Exército polonês)