A atual forma de organização do trabalho tem trazido conseqüências muito grandes para os indivíduos dentro das empresas, que cada vez mais têm sofrido com problemas de saúde diretamente causados por suas atividades diárias. A questão foi levantada pela Comissão de Psicologia e Trabalho do Conselho Regional de Psicologia - Bauru, que analisa o papel do profissional dessa categoria não só nas áreas de recursos humanos e organizações mas em todos os campos do mundo do trabalho na sociedade atual. Segundo a Comissão, a postura do profissional de Psicologia que atua na área de saúde do trabalho, deve mudar para que esse sofrimento possa diminuir ou ser evitado.
A área de psicologia relacionada ao trabalho está cada vez se aproximando mais das discussões e dos estudos relacionados à saúde do trabalhador, numa direção diferente a do tradicional recursos humanos, que atua com ênfase primordialmente na seleção e avaliação de pessoal. Quem explica essa mudança é a psicóloga Sandra Elena Sposito, coordenadora da Comissão de Psicologia e Trabalho do Conselho Regional de Psicologia - Bauru. Segundo ela, a forma atual e mais comum do profissional de psicologia atuar nas organizações não tem trazido os resultados efetivos na diminuição do sofrimento do trabalhador vítima de sua própria atividade. Por isso, o que se busca é mudar a maneira desse profissional agir dentro das empresas, fazendo com que ele atue diretamente de forma a diminuir ou evitar esse sofrimento que causa transtornos mentais e de comportamento (leia no boxe a relação desses transtornos).
Na opinião da coordenadora, isso seria possível se o psicólogo iniciasse, dentro da empresa, um trabalho de característica multidisciplinar, congregando profissionais da área de higiene e segurança do trabalho e profissionais de outras áreas que possam contribuir com referenciais para a análise da situação. Com esse grupo formado, o objetivo então seria identificar o que provoca problemas para a saúde do trabalhador, como doenças, acidentes, estresse, depressão, etc.
Atualmente, existe uma pressão muito grande sobre os trabalhadores; um aumento cada vez maior do número de horas trabalhadas; polivalência, ou seja, cada vez mais se exige que um trabalhador desempenhe várias funções; além da instabilidade no emprego ser muito grande a ponto da pessoa nunca saber se vai estar empregada no dia seguinte ou não, afirma Sandra Sposito. Esses fatores, na sua opinião, diretamente ou indiretamente podem trazer conseqüências negativas para a saúde do trabalhador. Eles podem trazer a sensação de insatisfação, desvalorização impotência, ou medo. Emocionalmente, o indivíduo, então, vai tendo que se proteger dessas situação e essa proteção pode surgir em forma de uma doença mental, de um transtorno de comportamento ou de um acidente de trabalho, explica.
O profissional de Psicologia dentro da empresa, então, deve estar preparado para conseguir identificar nas relações do trabalho, as condições que estão proporcionando o surgimento de um sofrimento psíquico no trabalhador.
Mudança
De acordo com a coordenadora da Comissão, são poucos os profissionais de psicologia que atualmente já se preocupam com essas questões da saúde do trabalhador. Uma das razões é que essa abordagem da atuação do profissional não está na sua formação, conseqüentemente ele acaba chegando dentro da organização para fazer o trabalho tradicional, ou seja, avaliação, treinamento e seleção de pessoal.
Existe, também, uma relutância, em alguns casos, da direção da empresa, em aceitar essa nova postura do psicólogo. A empresa espera do profissional uma atuação que não seja essa. Por isso, colocar em prática essa nova visão vai depender muito dos diálogos e da negociação do projeto de trabalho entre o psicólogo com a direção, diz Sandra Sposito. Segundo a coordenadora, é até óbvio que projetos assim seriam bons para a empresa, na medida em que se preocupam com a saúde do trabalhador, mas nem sempre as organizações os coloca em prática porque, em muitos casos, eles requerem não só uma mudança na organização na forma de trabalho, mas também uma mudança nas relações de poder e hierarquias. Hoje em dia, se diz muito que a empresa deve mudar para sobreviver. Mas antes, é preciso pensar que ela deve mudar para sobreviver levando em consideração que as pessoas ali dentro têm que estabelecer uma relação com o trabalho e umas com as outras. Uma relação que seja saudável, que permita a expressão das emoções, a resolução dos conflitos, eliminação dos preconceitos e esterótipos; e que o indivíduo seja visto não como um instrumento para que a empresa produza mais, mas como uma pessoa que tem uma vida - da qual o trabalho faz parte - cuja a relação do tempo de trabalho permita a sua realização, criatividade. O trabalhador deve ter o mínimo de conforto na empresa para que ele não precise padecer pelo medo, insegurança ou angústia. Que ele possa realizar aquele trabalho com prazer, que ele possa ver na sua função um significado além do significado da sobrevivência, define Sandra Sposito, que acredita que para a empresa é possível fazer essa reorganização do trabalho, garantindo estabilidade e melhores condições para o funcionário, sem que se comprometa o lucro, a produtividade e o crescimento da organização.
Perigo no trabalho
Lista de Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados com o Trabalho, segundo a Portaria do Ministério da Saúde n.º 1339/GM, de 18 de novembro de 1999.
1 - Demência em outras doenças específicas classificadas em outros locais2 - Delirium, não sobreposto a demência3 - Transtorno cognitivo leve4 - Transtorno orgânico de personalidade5 - Transtorno mental orgânico ou sintomático não especificado6 - Alcoolismo crônico relacionado com o trabalho 7 - Episódios depressivos 8 - Transtorno de estresse pós-traumático9 - Síndrome de Fadiga 10 - Neurose profissional 11 - Transtorno do ciclo sono-vigília12 - Síndrome do esgotamento profissional ou sensação de estar acabado (síndrome de Burn-Out)
Melhoria contínua
Pare e pense
Uma pesquisa recente norte-americana mostrou que 40% da população mundial dormem menos de que o organismo necessita. Motivo principal: correria da vida diária. Com certeza, mal sabem que ficar sem dormir provoca irritabilidade, estresse, distração e raciocínio lento.
Considerando que a tendência é de mudanças cada vez mais rápidas com cenários de alta competitividade e furacões de informações, torna-se mais do que necessário parar e refletir: será que vale a pena tudo isto? Sabemos que não levamos nada daqui quando morremos. Ou melhor, levamos apenas as experiências, desenvolvimentos intelectuais e morais, entre outras coisas não materiais. O restante, podemos afirmar, é uma espécie de ilusão. Viver com qualidade de vida nada mais é do que buscar um equilíbrio (não desequilíbrio) entre trabalho, descanso, lazer, família, sociedade... etc. Não adianta querer ir contra a natureza. Portanto, para resolução desse problema, basta administrar com disciplina os hábitos, de tal forma ter horas normais de sono e sonhos.