Geral

O global e o local

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Os dois fenômenos sócio-econômicos mais importantes hoje são o global e o local. A televisão via satélite e a Internet abrem janelas que colocam ao nosso alcance qualquer porção do planeta e das idéias. Parece que as fronteiras se dissolvem pela diversificação cultural. A espetacular expansão do comércio de bens e serviços possibilitada pela revolução tecnológica a partir do final do século, indicam que o longe é tão perto que deixou de existir. O mundo é um só, mas as vozes são muitas. Nada substitui nossas heranças ancestrais, valores cultivados ao longo do tempo, gostos, hábitos e comportamentos. O global começa no local, a partir do homem e do seu microcosmo. Os megaconglomerados da informação e do entretenimento jamais poderão suplantar a imprensa local, a única capaz de falar do nosso próprio quintal, da vida comunitária, dos feitos malfeitos e bem-feitos dos seus membros. A partir da cidade contemplamos o mundo - escreveu o geógrafo Milton Santos.

É extraordinário como empresas transnacionais mais arejadas já entenderam perfeitamente que é preciso levar ao pé da letra o ditado: pensa globalmente; aja localmente. O princípio de adaptar um produto a mercados locais é antigo. As fábricas da Ford na Inglaterra sempre fabricaram carros com volante no lado direito. No restante da Europa, os carros da marca têm o volante do lado esquerdo. Óbvio. Nessa mesma linha de raciocínio o McDonalds da Índia usa hambúrguer de carne de cordeiro onde a vaca é animal sagrado. Os cadernos que a Tilibra exporta para os Estados Unidos são diferentes daqueles fabricados para venda no Brasil. O mercado norte-americano tem outros tipos de exigências. Tudo bem, mas essa poderosa solução pragmática de mercado causa espanto quando colide com uma força ainda maior: a História. Exemplifico: comprei nos Estados Unidos em 1998 uma enciclopédia multimídia Microsoft Encarta. Agora tive acesso a uma versão atualizada em português e resolvi compará-las. No soft brasileiro o nome de Santos Dumont aparece como o inventor do avião e, na versão americana o crédito do invento vai para os irmãos Wright, que teriam se antecipado em três anos a esse pioneirismo atribuído ao brasileiro, num vôo na praia de Kitty Hawk, na Carolina do Norte. A biografia do aviador brasileiro na versão americana nada traz sobre o 14 Bis. Em vez disso, fala de um acidente sofrido por Santos Dumont em 1902 o tentar cruzar o Mediterrâneo com um dirigível projetado por ele. A edição brasileira ignora o acidente de 1902 e conta em detalhes o vôo histórico de Santos Dumont em 1906. Conclui que também a história depende de onde você mora.

A veneranda Enciclopédia Britânica tem uma postura mais ética diante de dificuldades desse tipo. Investiga as contradições políticas e diferentes interpretações da História. Os italianos asseguram que quem inventou o telefone foi o compatriota Antonio Meucci que antecipou-se ao feito de Graham Bell em cinco anos. Neste caso a Britânica decidiu dar seu veredicto a favor de Bell, mas menciona toda a polêmica. Na Encarta, Thomas Alva Edison é tido como criador da lâmpada. Sequer menciona Joseph Swan que, para os ingleses, é o verdadeiro autor dessa fonte luminosa que hoje, no Brasil, temos que manter apagada. A Índia sequer admite publicações que não incluem em seu território a região da Caxemira, que o país ainda disputa com o Paquistão. No problem para a Microsoft. A geografia e a história são mostradas à vontade do freguês. Se a Turquia não reconhece o Curdistão, apaga-se a região do mapa. E estamos conversados. O importante é faturar. Desde que foi lançada em 1992, a Encarta vendeu mais de 5,5 milhões de cópias no mundo. A versão brasileira já é um dos softwares mais vendidos no país. O duro é que eles não tiveram contemplação com o futebol brasileiro depois do chocolate de 3 a 0 que levamos da França. A enciclopédia renega o título de reis do futebol para os nossos craques. Registra as glórias no passado sem mencionar o presente. Fomos. Bill Gates cruel. Deixou de fazer história a nosso gosto. E a gente nem pode reclamar.

(*) Zarcillo Barbosa é jornalista

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