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Tempo e... boa sorte

(*) Antonio Delfim Netto
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Depois de muita hesitação e de informações contraditórias, o governo argentino finalmente mexeu no câmbio esta semana. Como a palavra desvalorização produz um grande mal estar nos argentinos, escolheu-se um caminho tortuoso para desvalorizar o peso, com a introdução de um sistema múltiplo de câmbio. O dólar, quando negociado nas exportações, passou a valer 1 peso argentino mais um feitiço, batizado de empalme, correspondente à diferença entre o valor do dólar americano e a moeda européia, o euro. Como o euro está cotado a 0,92 dólares, o exportador receberá 1 peso mais 8 centavos por cada dólar, ou seja, a taxa de câmbio na exportação será de 1,08 peso por dólar. A mesma taxa se aplica aos negócios de importação. Já nas transações financeiras e nas exportações de petróleo, o peso continua a ser cotado a 1 por 1 em relação ao dólar.

Num renovado esforço para acalmar os mercados que reagiram de modo intranqüilo às mudanças, o ministro Cavallo voltou a afirmar que não se pretende avançar para uma desvalorização total da moeda. Mas isso é dito no momento em que essas mudanças apenas confirmam o fato que o câmbio está fora do lugar, de modo que não diminuem as incertezas. Ele defendeu o prêmio às exportações como a forma de corrigir a perda de competitividade dos produtos argentinos, reconhecendo enfim a seriedade do problema causado exatamente pelo sistema de câmbio introduzido há dez anos.

O que tem dificultado a compreensão dos observadores externos diante das dificuldades da economia argentina é a freqüência com que o ministro Cavallo varia de posição. Ele já reprovou e apoiou o Mercosul meia dúzia de vezes. Já renegou a Tarifa Externa Comum e a defendeu inúmeras vezes. Usando dos plenos poderes que lhe foram concedidos pelo Legislativo anunciou novos tributos que depois não foram criados, subiu e desceu alíquotas de impostos e já mudou as metas de cortes de despesas três ou quatro vezes. Criou um factóide, com a introdução do bi-metalismo e, sempre renegando a correção cambial, acaba de estabelecer um sistema de taxas múltiplas de câmbio como sucedâneo, sem aparentemente avaliar as ineficiências que ele produz e os inconvenientes que cercam a sua administração.

Há um certo ar de improvisação em todas essas medidas, aumentando o sentimento de impotência diante do problema crucial da economia argentina, que é a sua baixa produtividade. A Argentina está presa a uma taxa de câmbio sobrevalorizada cuja correção pelo mercado precisa de tempo, o que é hoje mercadoria escassa diante da maré montante dos problemas sociais. Precisa de tempo enquanto mantém ou diminui o salário nominal; precisa aumentar a produtividade do trabalho para recuperar as condições de competitividade de sua economia; e os argentinos precisam rezar para que melhorem as relações de troca que são determinadas pelo mercado e estão fora do alcance dos plenos poderes do ministro Cavallo.

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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