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Pobreza exige estratégias de sobrevivência

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

Quando o teto e a comida faltam, recorrer à família, ainda que esta tenha pouco, é a alternativa mais freqüente entre as pessoas que vivem na linha da miséria ou abaixo dela

Buscar apoio no seio familiar é a alternativa que cinco entre dez famílias pobres buscam para garantir a sobrevivência quando se vêem à beira do completo desespero. Sem condições de pagar aluguel ou vivendo em precários barracos e desprovidos de qualquer gênero alimentício, pessoas já casadas e com filhos tendem a voltar para a casa dos pais, ainda que a situação destes seja tão difícil ou mais. O retorno ao núcleo familiar foi documentado pela professora e assistente social Giselli de Almeida Tamarozzi Lima, 36 anos, no trabalho de mestrado Estratégias de sobrevivência das famílias pobres de Bauru. Durante os meses de julho, agosto e setembro do ano passado, ela vivenciou de perto o drama de 94 famílias residentes na periferia mais pobre de Bauru. Atestou como essas pessoas fazem para enfrentar o cotidiano sem nenhuma renda fixa ou com ganhos ínfimos que não chegam ao valor do salário mínimo.

Do universo pesquisado, Giselli apurou que 46% vivem sem renda e que 25% percebem até R$ 180,00. Outros 17% esbaldam-se com até dois salários, 7% têm a sorte de ganhar de dois salários e 5% passam com apenas meio salário. Seguindo o mapa oficial de divisão de renda, significa dizer que as famílias sem renda vivem na indigência (ganho até R$ 73,00). No cômputo per capita, a situação piora, pois a pesquisa levantou que 25% das famílias dividem o pouco que ganham entre cinco pessoas. Isso faz com que o rendimento por pessoa se arraste na casa dos R$ 10,00 em alguns casos.

A casa da mãe ou da sogra acaba sendo o endereço mais comum quando a situação dos filhos, já casados e com herdeiros, chega às raias da insustentabilidade. As pessoas pobres têm uma característica muito peculiar de solidariedade. Se um tem apenas 200 gramas de comida para pôr na mesa, certamente ele vai dividir esse pouco com o filho, o irmão, o sobrinho ou o vizinho que não têm nada, afirma Giselli, com conhecimento de causa.

A junção familiar é tão comum entre os pobres e miseráveis que as famílias ampliadas nesse nicho correspondem a 34% do total, quase equiparando-se aos 37% das famílias nucleares (pai, mãe e filhos). O contigente de famílias monoparentais também é expressivo, detendo 25% do global. Nestes casos, a grande maioria é de mães que cuidam sozinhas dos filhos. A própria separação do casal, aliás, é fato gerador de pobreza, uma vez que o pai, principal figura mantenedora do lar, se afasta do convívio. Entre os pobres, os casos de casais sem filhos ou de pessoas sozinhas, por sua vez, são raros, somando, juntos, 4% do universo total.

Nas composições familiares ampliadas, o papel dos avós tem um destaque fora do comum. Em todos os casos pesquisados, a figura deles está presente, independentemente de os agregados serem filhos, sobrinhos, enteados ou netos. O trabalho de Giselli verificou que 53,3% das famílias ampliadas incluem a figura dos avós, pais, netos, sobrinhos, tios, enteados e cunhados. Os avós são as pessoas que assumem prontamente a responsabilidade sobre os netos em caso de separação, morte ou abandono dos pais. Isso acontece porque, geralmente, os avós têm um maior equilíbrio emocional e financeiro, ainda que este esteja sustentado nos frágeis benefícios de pensão ou aposentadoria, observou a professora.

Ranking lamentável

Pior que os números só mesmo o dia-a-dia dessa população que os compõem. São pessoas que, resignadas ou revoltadas, lutam para se acomodar nas péssimas condições de moradia e para ao menos garantir uma refeição diária. Em sua grande maioria, são trabalhadores braçais e domésticos que, por não terem uma mínima qualificação, não conseguem mais vagas no mercado.

Sem perspectivas de mudanças, a parcela pobre da população apela do jeito que pode para sobreviver: sai às ruas para pedir, cata restos de comida, recolhe papel e recicláveis para vender ou recorre ao núcleo familiar, opção esta considerada o grande meio de subsistência dos miseráveis.

Além da união familiar, os projetos sócio-institucional, governamental e religioso são também fortes instrumentos ao alcance dos mais pobres. A cidade possui 63 organizações não governamentais e oferece 44 programas e serviços municipais direcionados ao atendimento de crianças, adolescentes, famílias, idosos, mulheres, desempregados e portadores de deficiência, bem como ações específicas na área de requalificação profissional. Mesmo com a aparente amplitude da oferta, o próprio poder público municipal reconhece a insuficiência de recursos para atender as famílias em condições de miserabilidade.

A Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), responsável pela execução da política assistencial, alega desconhecer os números da demanda reprimida, embora admita sua ocorrência em todas as faixas de assistidos - da criança de colo ao idoso. Extra-oficialmente, calcula-se que dois terços da população merecedora de atenção sócio-inclusiva estejam fora dos programas.

A falta de lugar para todos acaba criando uma situação ainda mais indesejável: a exclusão dos já excluídos. O pobre tem que provar sua condição de miserável para poder usufruir de algum benefício e, não raro, acaba ficando de fora dos programas em razão do número reduzido de vagas. O programa do leite, por exemplo, é destinado a crianças desnutridas e subnutridas, deixando de atender aquelas em condições normais, mas que não têm alimentação adequada. O resultado é que estas também vão acabar desnutridas, agravando ainda mais o quadro. A iniciativa, portanto, por melhor que seja, minimiza os efeitos e não a causa do problema.

A política assistencial desenvolvida em Bauru, graças a parcerias com a iniciativa privada - notadamente instituições de ensino -, está começando a trilhar na direção certa, obedecendo à tendência da rede de serviços integrada. A nova concepção da assistência social derruba de vez as ações assistencialistas, embora as aceite como instrumentos de meio. Na prática, significa dizer que dar remédios e cestas básicas pura e simplesmente está fora de cogitação. Ambos são necessários, sim, mas quando acompanhados de trabalhos sócio-educativos capazes de fazer a diferença.

Os plantões sociais da Prefeitura que atendiam à população com gêneros, por exemplo, foram desativados. O serviço continua disponível nos Núcleos de Apoio Sócio-Familiar (NAFs), já presentes nas zonas Noroeste e Sudeste da cidade, mas com um respaldo muito mais ampliado. As doações vêm, agora, acompanhadas de um trabalho com os membros da pessoa atendida, numa forma de as assistentes sociais entenderem o que se passa na vida delas. Trabalhar com o contexto familiar é o que existe de melhor nos setor de assistência em termos de resolutividade.

Descobriu-se, por exemplo, que de nada adianta assistir uma criança vítima de maus-tratos se a causa da violência não for resolvida; que de nada vale proporcionar cuidados ao deficiente se ele não for aceito no ambiente familiar; que é infrutífero oferecer vagas escolares às crianças se mães e pais pouco se interessam pelos estudos dos filhos.

Por atingir apenas duas regiões e um público ainda muito limitado frente à demanda, o NAF precisa ser expandido, mas isso depende da boa vontade da iniciativa privada, uma vez que, sozinha, a Prefeitura não tem condições de manter a estrutura do órgão. Enquanto o trabalho social de inclusão não alcança a cidade toda, as famílias pobres continuam buscando alternativas para garantir o sustento e alimentar o sonho de um futuro mais digno.

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