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Trekking no Everest - Um bauruense no topo do mundo

(*) Luciano Dias Pires Filho
| Tempo de leitura: 7 min

Meu nome é Luciano Dias Pires Filho. Nasci em Bauru, em 1956, formando-me em Comunicação em 1977 pela Universidade Mackenzie, em São Paulo. Iniciei carreira profissional na área de jornalismo, publicando uma coluna chamada Vírgula aqui no Jornal da Cidade entre 1977 e 1980.

Em 1975 me mudei para São Paulo, onde resido até hoje e trabalho como diretor de Marketing em uma grande indústria de autopeças multinacional.

Em 1997, eu passeava de férias pelos EUA quando fiquei sabendo da exibição do documentário Everest no formato Imax. Sem saber do que se tratava, mas interessando-me pelo tema, fui assistir.

Saí do cinema completamente fascinado pelas imagens, pela música, pelo show que é o documentário.

Na época, eu não sabia da tragédia de 10 de maio de 1996, quando vários alpinistas morreram durante uma tempestade no Everest. O documentário falava do assunto, mas não trazia a dramaticidade da história.

Em 1998/99, tive a oportunidade de ler No ar rarefeito, o livro do jornalista Jon Krakauer que foi um dos sobreviventes daquela tragédia.

O livro passa a agonia e tormento daqueles dias e impressiona pela seqüência de histórias de vida e morte que sucederam-se em algumas horas.

Pouco depois, me vi em Nova York, diante de outro cinema que passava Everest. Dessa vez, sabendo de toda história, o filme tomou outra dimensão. E me apaixonei de vez pelo tema.

Passei então a pesquisar a Internet, disposto a descobrir se existiam pacotes turísticos que levassem a gente até o Campo Base do Everest, de onde saiam os alpinistas que tentavam chegar ao topo do mundo. Afinal, se existiam empresas que levavam clientes ao topo do Everest, deveria haver aquelas que chegassem até o Campo Base.Achei um monte. Inclusive brasileiras.

Acabei optando pela Mountain Madness (www. mountain madness. com), empresa americana cujo dono morreu naquela tragédia de 1996 no Everest. Era abril de 2000 e minha viagem foi marcada para abril de 2001.

Com frio no estômago, era começar a tratar do corpo e dos equipamentos... tinha um ano pra isso.

Meu treinamento consistiu em três idas a Itatiaia. Três trekkings curtos de um dia, um dia e meio subindo até o cume do Agulhas Negras, a 2.700 metros. Foi tudo que eu consegui fazer para me preparar para o Himalaia, onde chegaria a 5.700 metros de altitude.

Na academia, caprichei nos músculos do braço e antebraço, que me dariam empuxe com o bastão de trekking. Caprichei com as pernas.Não me tornei um atleta, mas perdi aquele formato executivo arredondado. Nunca estive tão bem e, só por isso, a viagem já teria sido um sucesso mesmo se eu não tivesse passado de Kathamandu.

E como é gostoso ver a expressão no rosto da turma quando eu dizia que estava indo para o Everest. Para o Nepal. Para Kathmandu. Nomes mágicos, com uma sonoridade diferente, imediatamente remetendo a gente para: AVENTURA...

Andei pensando a respeito desta viagem e de minha decisão de fazer esta loucura sozinho.

Acho que é igual a quando decidi, em 1974, aos 18 anos de idade, que sairia de Bauru para estudar em São Paulo. Saí sozinho e fui fazer minha vida. Até hoje não encontro explicação para aquela atitude (não me arrependo nada). E agora vou outra vez no impulso. Engraçado, né?

Foram 9 horas até Johannesburgo, e outras 11 até Bangkok. Dali, mais três horas até Kathmandu.

Kathmandu

Cheguei em Kathmandu no dia 3 de abril de 2001, lá pelas 4 da tarde. Aproximadamente 9 horas de diferença para o Brasil (tem uma quebra de fuso de 15 minutos, aí que não dá prá entender). Aliás, em Kathmandu eles têm a contagem de ano deles. Estão no ano 2058...

No jantar, fui conhecer a turma toda, que era dos Estados Unidos. E eu ali, diretamente da Azarias Leite 11-60...

Éramos em quatro trekkers, um guia e cinco ou seis sherpas, naturais do Nepal, que nos davam o suporte.

Kathmandu é uma imensa bagunça. Cores, ruídos, aromas... o trânsito é algo absolutamente caótico, que acaba funcionando porquê todo mundo é caótico.

Pra complicar, a direção é do lado esquerdo. Carros, caminhões, bicicletas, motos, riquixás, tuk-tuks (aquela espécie de lambreta com capota), pedestres, bois e vacas. Tudo misturado, em movimento. Todo mundo buzinando o tempo todo. Um caos. Inimaginável e absolutamente maluco. Imagino que, se para mim foi um choque, o que não terá sido para os americanos...

Havia uma expectativa grande sobre o vôo para Lukla, onde começava nossa caminhada. O aeroporto de Lukla é uma loucura. A pista é inclinada e termina num barranco. Dizem os iniciados que o pouso em Lukla é uma queda controlada....

Descobrimos que o aeroporto de Lukla estava fechado para reformas. Voaríamos (40 minutos) para Phaklu onde pegaríamos helicóptero para Lukla.

Depois de voar sobre povoados em montanhas e no meio de grandes picos nevados, o avião pousou em Phaklu. Descemos, botamos nossas coisas no chão e ficamos esperando nossa vez para entrar no helicóptero que faz a ponte até Lukla.

Entramos no helicóptero e os caras começam a colocar coisas dentro. Ovos. Combustível. Cerveja. Roupas. Todo mundo espremido e com caixas e latas no colo. Aí o piloto ficou puto, desligou o motor e desceu do helicóptero brigando em nepali com todo mundo. E a gente assistindo.Os caras abrem o compartimento de bagagem e tiram fora alguns sacos. O piloto entra no helicóptero resmungando. O guia pergunta o que foi e ele diz que os caras estão querendo derrubar o helicóptero por excesso de peso.

Eu ali espremido, mal respiro. Fico imaginando que não vou ter nem a oportunidade de saltar fora se aquela coisa cair. Estou embaixo da carga....Bom, o bicho decola. Todo mundo em silêncio. E vai embora, voando baixinho sobre as montanhas.Em menos de 20 minutos estamos em Lukla.

Pé na trilha. O primeiro trecho de caminhada levou 2 horas e meia. E já deu para sentir o gostinho do Himalaia. As pequenas vilas... os carregadores... os yaks... a paisagem deslumbrante.O primeiro dia me deu uma surpresa arrasadora.

Quando eu era garoto, lá pelos meus 10 anos, em Bauru, tive um sonho. A única coisa que guardei desse sonho foi a visão de uma vila, na encosta de uma montanha, com gramados verdes na frente e casinhas. E gravei que aquilo era no Tibet, e que um dia eu iria ao Tibet e veria aquela cena. Nunca mais me esqueci. Não lembro de mais nada do sonho, só a visão da vila.

Pois a caminho de Pahkding, faço uma curva e o que vejo? A exata visão daquele sonho de 30 anos atrás... Desconfio que seja a vila de Chourikharka, onde moram dois dos sherpas que nos acompanharam e com os quais mais me identifiquei. Só vim a saber disso no final da viagem... Muito louco.

Pela primeira vez tomamos contato com os carregadores, marca registrada do Himalaia.

Carregam em cestas de vime cargas que superam em muito seu próprio peso. Esses cestos são presos por uma cinta que passa pela base do cesto e sobe até a testa do carregador. São pesos muito grandes. Carregam a bagagem de dois ou até três trekkers.

Assistindo o andar deles, concluí que devem morrer com 20 anos de idade e com a coluna e o pescoço esmagados... Pois pude saber de pesquisas que foram feitas com esse pessoal. Eles não têm qualquer problema de coluna ou pescoço. E passam pela gente na trilha como se estivessem andando sem qualquer carga. Impressionante. Caminham pela chuva, pela água, pela neve, sem as proteções de botinas especiais, de agasalhos de primeira linha... com chinelinhos de dedo e um ou outro agasalho que mais parece uma piada. Impressionante.

Também o primeiro contato com os yaks. Na verdade, com os zokpios, que são uma mistura de yaks com vacas normais. Os verdadeiros yaks, adaptados à altitude, a gente só encontraria mais tarde, mais acima.

Caminhando na trilha apertada, de repente a gente escutava os sinos anunciando que vinham os yaks. Saltamos de lado e esperamos os bichos passar. São meio imprevisíveis e um dos Sherpas nos contou que no ano passado um parente seu foi morto ao ser atingido por uma chifrada de um yak no abdome. Eu, heim??

(*) Luciano Dias Pires Filho é diretor de Marketing

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