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Cúpula de Gênova

(*)Mario Soares
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No momento em que este texto for lido, estará a terminar a famosa Cúpula de Gênova, que tantas preocupações trouxe ao primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi. Por quê? Por causa da chamada síndrome de Seattle ou de Gotemburgo e dos manifestantes antiglobalização.

O G7, que por condescendência simpática para com um país pobre - a Rússia - se transformou em G8, é uma organização informal, que visa marginalizar a ONU, em cujo Conselho de Segurança têm assento permanente países pobres com direito a veto.

Hoje, porém, dado o colapso do mundo comunista, com o hegemonismo militar absoluto de uma única superpotência mundial, o veto torna-se um impecilho intolerável. E daí as reuniões informais do G7/8 - sem qualquer legitimidade democrática, diga-se, e à margem da ordem internacional de que a ONU é expressão. Com efeito, não se vê que haja qualquer razão que justifique que os sete países mais ricos do mundo governem os outros 180, sem os ouvir, só porque são pobres ou menos ricos.

A mundialização tem dessas incongruências. O economista indiano prêmio Nobel da Economia, Amartya Sen, disse recentemente em Lisboa (cito): A fome só continua a existir porque não há vontade política para a erradicar. Há riqueza e meios técnicos, ao alcance da humanidade, para eliminar esse flagelo. Como outros, que têm a ver com o buraco do ozônio, com a poluição crescente dos oceanos, certas epidemias que reapareceram na África, com a interligação das minas antipessoais, o comércio ilegal de armas, incluindo as atômicas, o tráfego de drogas e de órgãos humanos e a criminalidade internacional organizada. Por que não se atacam - e se vencem - tais horrores, que afligem mais de dois terços da humanidade? Seguramente, também, por falta de vontade política dos poderosos.

Assim, não admira que os pobres e desfavorecidos da terra se manifestem contra o elegante clube dos ricos, quando se reúne, como nos dizem, para procurar resolver os problemas do mundo? Pelo meu lado, acho perfeitamente normal que o façam, desde que recusem a violência. Gandhi, o apóstolo da não-violência ativa, venceu a Inglaterra porque esta era uma democracia liberal, onde a opinião pública não podia ser silenciada pela força. Se a desobediência civil se opusesse a uma ditadura totalitária (de Hitler ou de Stalin), muito provavelmente Gandhi teria morrido num campo de concentração.

O mundo de hoje rege-se sob o paradigma universal da democracia liberal, que às vezes é confundida com a economia de mercado ou a liberdade de comércio. Mas não são a mesma coisa. No mundo de hoje, mediatizado, a opinião pública conta. Daí que os manifestantes anti-globalização aproveitem para manifestar as suas opiniões, como é de seu direito. Desde que o façam, segundo as regras da democracia, sem violência nem devastações. Porque a violência, no caso vertente, como compreenderão aqueles que refletirem um pouco, só aproveita, no mundo em que vivemos, aos que não querem mais justiça e mais igualdade entre os homens.

(*) O autor, Mario Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996

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