Há dois dias vi uma cena que, sinceramente, chocou-me ao ponto de, ainda hoje, estar com ela impregnada em minha visão. Ao atravessar uma rua, parei para dar passagem a uma senhora que conduzia um daqueles carrinhos de catadores de papel; seria um fato corriqueiro se não fosse por um detalhe doloroso: debaixo de um pedaço de papelão, protegida do sol da tarde, adormecia uma criança de uns 3 anos, enquanto que outra, sentada e de uns 4 anos, fitava-me, absorta em sua inocência. Não me lembro de ter sentido tanta dor em tão curto espaço de tempo. Elas tinham a idade de meus dois filhos mas, por um infortúnio, vivem uma realidade terrivelmente distinta. Que mundo é esse, meu Pai!
Quantos de nós, ao nos deitarmos aquecidos em casa, ou durante as refeições, antes de elevarmos nossos olhos a Deus, esquecemo-nos de os abaixar aos nossos próprios semelhantes, que amargam um sofrimento inimaginável? Quantos de nós, enquanto agasalhados, no aconchego de nosso lar, ouvindo o vento sibilar na janela, deixamos de pensar naquelas milhares de pessoas que sentem esse mesmo vento penetrando em suas precárias cobertas? Quantas crianças neste exato momento, meu Deus, não choram de fome e frio? Quantos de nós temos chances de lenir o sofrimento de uma alma que seja, mas preferimos fechar os olhos a pensar na dor alheia? Quantos de nós nos sensibilizamos com essa tragédia e apenas dizemos: amanhã farei algo?
Diante da certeza das respostas, chego a ter dúvidas de nossa racionalidade. Em face de tantas injustiças num País tão rico, receio pelo destino de um povo insensível, onde cada um tem sua parcela de culpa pela desgraça nacional. Temos 51 milhões de miseráveis!!! 51 milhões que ganham menos que um salário mínimo e, enquanto isso, o povo culto discute, a classe política rouba e faz política (será que tem diferença?), a classe média sobrevive, e 51 milhões fogem da morte. E duas sobreviventes passaram à minha frente há dois dias... duas guerreiras que ainda sequer se ergueram para a luta.
Amigos leitores, estamos sozinhos nessa jornada. Enquanto a Prefeitura nomeia um conselho de notáveis (que nomezinho mais patético) para fazer a análise política do governo, a análise social é feita nas ruas, sem a gentalha preocupada com cargos, favores, concessões, etc. Esqueçamos a velha retórica da solução nas urnas!. Político, meus amigos, só servem para fazer política, geralmente em nome próprio. Faço um apelo - não aos políticos, pois isso já é causa perdida - mas a cada um que está lendo esta missiva: olhe para dentro de si, para dentro de seu coração, e olhe para qualquer um dos milhares de desafortunados de nossa cidade. Há muito o que se fazer para amenizar o sofrimento de um deles que seja; provavelmente o que é pouco para nós será muito para cada um deles. O pagamento por esse serviço não virá em cargos, meus amigos, mas tenham certeza de que Ele realmente pagará. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)