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"Lanche Bauru virou pessoa jurídica"

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 7 min

Zé do Skinão, hoje com 76 anos, vai comemorar o aniversário de Bauru longe do balcão. Ele mantém o otimismo que cerca o sanduíche, criado pelo estudante Casemiro Pinto Neto.

O principal divulgador do sanduíche Bauru na cidade, José Francisco Júnior, conhecido como o Zé do Skinão, vai comemorar os 105 anos de emancipação do município longe dos balcões da sua lanchonete, por questões de saúde.

Apesar dos problemas médicos que o afastam da atividade comercial, Zé do Skinão, hoje com 76 anos, continua mantendo o otimismo que cerca o sanduíche, criado pelo então estudante de Direito Casemiro Pinto Neto. O lanche Bauru virou uma pessoa jurídica e está agregado à imagem da cidade. Uma coisa já não se disassocia mais da outra, garante.

Zé do Skinão faz a afirmação com base no seu trabalho de porta-voz do sanduíche Bauru, iniciado na década de 70, quando soube que a lanchonete paulistana Ponto Chic (leia matéria nesta página) iria ser fechada, deixando de produzir o lanche com nome da cidade. A partir disso, informou-se sobre a receita e começou a produzi-la em seu estabelecimento.

No início, perdeu a conta de quantos Bauru montou gratuitamente, para distribuir aos freqüentadores de sua lanchonete, localizada nas esquinas da rua Gustavo Maciel e avenida Rodrigues Alves. O pessoal fazia cara feia, quando oferecia o sanduíche, mas depois saía satisfeito. Hoje, 100% dos moradores conhecem o lanche, que virou sinônimo da cidade, diz, orgulhoso.

Por causa desse trabalho de divulgação, que incluiu distribuição do lanche em eventos sociais, Zé do Skinão não acredita que a receita original do Bauru seja esquecida num futuro próximo. Não, Bauru não vai voltar a ser adotado como nome do misto-quente, feito com pão, queijo e presunto, sustenta.

O comerciante só não tem tanta certeza quando é questionado a respeito do futuro da sua lanchonete, o Skinão. A incerteza se deve à concorrência, considerada desleal. Não é fácil sobreviver quando vendem cachorro-quente a R$ 1,00. Além disso, o poder aquisitivo caiu muito, avalia.

Mesmo com as dificuldades, Zé do Skinão garante que o Bauru continua liderando a preferência da clientela cativa. Ao lado dele, aparecem os sanduíches de pernil e com hamburger. É um tal de enrolar a língua para dizer xis-egg-hambuger, xis-salad. Nunca vi como gostam de nome complicado, imita, brincando.

Mas o comerciante fecha a cara quando o assunto é o futuro da cidade. Zé do Skinão não se conforma com a perda de indústrias locais para outras regiões do Estado. Indústria é progresso e isso reflete no comércio, argumenta.

Também não há sorrisos a respeito do patrimônio histórico municipal. A Estrada de Ferro Noroeste movimentou muito a cidade, por isso, considero um absurdo edifícios daquele estarem fechados, sem atividades. Tenho saudade da borbulha que os ferroviários faziam no centro quando saía o pagamento, lembra o comerciante.

Apesar dessas avaliações negativas a respeito do comércio e da indústria locais e da falta de romantismo refletida nas relações desleais de amor e trabalho, Zé do Skinão não perde a esperança sobre os rumos de Bauru. Nós, bauruenses, temos muito do que nos orgulhar, mas a cidade precisa de mais um empurrãozinho para continuar crescendo, finaliza.

Casemiro Pinto Neto

Hoje homenageado em forma de busto e nome de viaduto em Bauru, Casemiro Pinto Neto saiu da cidade em 1931, aos 17 anos de idade, rumo a São Paulo, onde iria cursar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Casemiro concluiu o curso em cinco anos. Nesse período, participou da Revolução Constitucionalista, em 1932, integrando o batalhão 14 de Julho, formado por estudantes da faculdade.

Ao ir para a batalha, relata o historiador Luciano Dias Pires, Casemiro escreveu o nome Bauru na boina de pano que compunha a farda, surgindo aí seu apelido, e que, anos mais tarde, também iria batizar o famoso sanduíche.

Depois da revolução, Casemiro começou a exercer a advocacia. O primeiro cargo veio em 1938, como auxiliar de gabinete do secretário de Justiça, César Lacerda de Vergueiro. Nos dois anos seguintes, foi oficial de gabinete do governador Adhemar de Barros.

Antes, em 1938, conhecido no meio político, foi designado para ocupar a direção do cartório civil no distrito de Vila Maria, em São Paulo. Em 1942, iniciou sua carreira no rádio e foi, segundo Luciano Dias Pires, o primeiro Repórter Esso. Dois anos mais tarde, Casemiro atuou como diretor comercial da Rádio Panamericana e, posteriormente, diretor financeiro da TV Record.

Em 1981, Casemiro Pinto Neto adoeceu, vindo a morrer em 1983. Hoje, a maioria de seus familiares reside em São Paulo, mas é possível saber um pouco mais sobre a sua história no Instituto Histórico Antônio Eufrásio de Toledo, que mantém fotos e matérias sobre o criador do sanduíche Bauru em seus arquivos.

Conheça a receita tradicional

Bauru

Ingredientes: - 1 pão francês- 1 rosbife- fatias de muzzarela- rodelas de tomate- picles de pepino- orégano- sal- água

Modo de fazer:- Divida o pão em duas parte e retire o miolo de uma das duas fatias do pão.- Naquela que continua com o miolo, coloque o rosbife frio, que deve ser preparado com antecedência.- Sobre o rosbife, disponha rodelas de tomate, duas ou três fatias de pepino e orégano.- À parte, coloque um pouco de água na frigideira. Quando a água ferver, coloque a muzzarela que, ao derreter, deve ser retirada e disposta na fatia de pão sem miolo.- Una as duas fatias do pão. O calor do queijo aquecerá os demais ingredientes do sanduíche.

Ponto Chic foi lar do sanduíche

Fundado há quase 80 anos, o bar paulistano Ponto Chic é considerado o lar do sanduíche Bauru. Foi lá que, na década de 30, o então estudante de Direito Casemiro Pinto Neto resolveu inventar um sanduíche balanceado.

Pensando em equilibrar albumina, proteína e vitamina, conforme havia lido em uma cartilha de alimentação, Casemiro pediu ao conzinheiro do bar, localizado no Paissandu, um lanche com pão francês (aberto e sem miolo), com porção de queijo derretido em banho maria, fatias de rosbife, rodelas de tomate cru e pepino (picles).

Na mesma noite, freqüentadores do local resolveram copiar a receita: - Quero um igual ao do Bauru. Bauru era a forma como Casemiro era conhecido, por se referir orgulhosamente à sua cidade natal. Em pouco tempo, o lanche ganhou fama entre os estudantes do Largo São Francisco, localizado próximo do Ponto Chic, e foi incorporado ao cardápio do bar, tornando-se seu prato principal.

O lanche ficou tão conhecido que nem mesmo a fama do Ponto Chic em não ser local de mulheres direitas, por causa de um bordel ter se instalado na sua sobreloja na década de 40, fazia com que fregueses tradicionais deixassem de freqüentar o bar para comer o Bauru.

Na década de 50, com a transformação da cidade, o Paissandu, como toda a região central de São Paulo, se tornou referência cultural e o Ponto Chic voltou a ser valorizado. A exemplo dos cinemas e teatros, o bar fervia de gente bonita e atenta aos movimentos intelectuais.

Depois desse período, os paulistanos passaram a atravessar o viaduto, ou seja, o centro comercial deslocou-se para além dos viadutos do Chá e de Santa Efigênia e instalou-se na avenida Paulista e rua Augusta. Iniciando-se aí, a decadência do centro velho de São Paulo e, conseqüentemente, do Ponto Chic, que fechou em 1978.

Em 1981, um antigo garçom do bar resolveu montar o Ponto Chic em Perdizes. A história, então, foi retomada, mas não o glamour. Apesar disso, o estabelecimento ainda é respeitado pelos paulistanos, que comemoraram o 75.º aniversário da casa de lanches em 1997. Na ocasião, foi lançado um livro sobre o Ponto Chic, de autoria do jornalista Angelo Iacocca.

Os paulistanos também não esquecem o lanche Bauru, incorporado ao cardápio de iguarias locais. No ano passado, a receita do Bauru foi ensinada no programa de culinária de Olivier Anquier, veiculada no canal a cabo GNT, sobre sanduíches tradicionais.

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