Geral

Juventude e paternidade

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

A gravidez na adolescência não é uma novidade nos dias de hoje. Quase todas as pessoas conhecem, pelo menos um caso, na família, em um vizinho ou conhecido. Isso acontece porque o número de adolescentes grávidas está crescendo no País ano a ano. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, entre 1981 e 1990, o total de filhos gerados

Meu pai sempre me avisou para tomar cuidado quando eu estava namorando. Mas quando você é jovem não tá nem aí, quer mesmo é aproveitar, diz Ricardo Alessandro Prado, de 19 anos. O resultado de todo esse aproveitamento nasceu há pouco mais de uma semana, é um menino que vai se chamar Felipe. Sem estudar e desempregado, Ricardo conta que tomou um susto quando a namorada (hoje esposa) Juliana, de 20 anos, lhe deu a notícia de que seria pai. Numa hora dessa você não sabe para onde ir, parece que o mundo vai desabar na sua cabeça. Você não sabe quem ouve, os seus pais, os pais dela, as outras pessoas..., diz. A reação que veio automaticamente foi de negação. Fiquei desesperado, porque a gente pensa no futuro da criança, fica com medo de ter sempre que depender dos outros, dos pais, revela. O medo foi tanto que Ricardo chegou a pensar que era melhor não ter o filho. Mas idéia não durou mais do que alguns minutos e foi aí que começou a transformação. Você tem que deixar de ser criança de uma hora para outra. Não pode mais cometer os erros que cometia antes, tem que criar uma responsabilidade imediata mesmo ainda sendo o garoto de sempre, explica.

Esse processo de amadurecimento começou rápido, segundo Ricardo Prado. As preocupações de ser pai acabaram quando eu comecei a me preocupar com a gravidez da Juliana. A esposa confirma que a dedicação dele foi total durante os nove meses de gestação. Ele se preocupou muito comigo, do mesmo jeito que agora se preocupa com o Felipe, diz. É, depois do nascimento do filho, Ricardo se revelou um pai muito cuidadoso, que ajuda a mulher em casa não só com o bebê mas também nos afazeres domésticos. Ele é um ótimo pai, um babão, brinca a esposa.

Mas Ricardo confessa que ainda não se acostumou por completo com a idéia de ser pai. Sei que eu sou pai, mas ainda é estranho pensar nisso, comenta. Mesmo assim ele está feliz pelo fato e garante que o filho já lhe trouxe sorte Um possível cliente me telefonou essa semana aqui em casa, isso nunca tinha acontecido. Estou adorando tudo. Ser pai é o máximo!.

Dificuldade masculina

O estudante universitário Lúcio Pereira Chaves, 25 anos, se tornou pai aos 18. Não tinha o mínimo plano de me casar, quanto mais de me casar e ter um filho, relembra. Assim como aconteceu com Ricardo Prado, a primeira reação foi negativa. Não me imaginava como pai, não queria aquilo naquele momento, nem sabia direito o que queria fazer da vida e sonhava viajar por aí, conta. Ele chegou a propor com todas as palavras para a namorada (hoje, ex-esposa), que ela fizesse um aborto, atitude da qual ele se arrepende imensamente até hoje. Ela discutiu muito comigo e, graças a Deus, nem cogitou a possibilidade de levar adiante a minha proposta, diz.

Quando Luciana nasceu, Lúcio e a então namorada, Ana Maria, estavam morando juntos. Ele havia acabado de conseguir um emprego, mas os dois ainda dependiam dos pais para sobreviver e, principalmente, cuidar da filha apropriadamente. Esse é o tipo de coisa que você não pensa no começo. Depois que eu aceitei o fato de ser pai, não tinha me tocado do quanto iria precisar batalhar para que a minha filha tivesse uma vida decente. Na opinião do estudante, talvez seja mais difícil para o homem, de repente, encarar um filho do que para a mulher. É um ponto de vista machista, eu sei, mas foi o que eu senti. Ela (a mãe de Luciana) estava toda feliz o tempo todo com o fato de ser mãe e eu era só preocupação, arrisca uma explicação.

Lúcio lembra que também demorou para pegar o jeito com a filha. Não sabia como segurá-la, como cuidar, nada. Fui aprendendo aos poucos e também a medida em que as avós me deixavam fazer alguma coisa, porque a minha casa virou um ponto de encontro da família. Todo mundo achava que a gente não ia dar conta de cuidar da Luciana, diz.

Mas o casal deu. O casamento veio um ano depois de Luciana nascer e a separação aconteceu no ano seguinte por outras razões, mas a filha continua sendo a prioridade de ambos. Vejo a Luciana todo dia e quando não posso passar na casa dela (que mora com a mãe e os avós maternos), ligo. Minha filha é linda e foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. Apesar de eu ter demorado um pouco para perceber.

Natureza paterna

Acho que nasci para ser pai, gaba-se o desenhista Cassiano Oliveira, 20 anos. Ele é pai de uma menina de 3 anos, que teve com namorada (atual esposa) Célia, da mesma idade. Eu sempre quis ser pai, sempre gostei muito de crianças, mas não esperava que isso fosse acontecer tão cedo, diz, lembrando que na época não tomava nenhum cuidado para que uma gravidez não acontecesse. A gente sabe que corre o risco e até usa camisinha, mas você nunca acha que vai acontecer com você, entende?. Fabíola foi resultado desse descuido. Quase caí das pernas quando soube que iria ser pai, não dava para acreditar porque eu tinha só 17 anos, ainda morava com a minha mãe.... Esse último detalhe acabou sendo positivo no caso. A Célia veio morar na minha casa (quer dizer, casa da família) e parece que isso tornou as coisas mais fáceis para mim. A única coisa que ficava me martelando a cabeça era a questão do dinheiro. Não podia ficar dependendo do meu pai, eu tenho mais dois irmãos e nós nunca fomos ricos. Tive que me virar.

Mas o trabalho não foi uma experiência ruim. Eu já trabalhava desde os 15 anos, então não foi um choque, o que eu tive que fazer foi batalhar mais, porque criança dá trabalho, tem que levar ao médico, comprar fralda, roupa. Para o desenhista, a grande dificuldade foi ter que deixar de lado a vida irresponsável de antes da paternidade. Adorava andar de skate, de sair com os amigos, voltar tarde. Tudo isso acabou. E como se não bastasse o fim da farra, também houve preconceito. Os caras com os quais eu andava passaram a me tratar diferente, me deixaram de lado. Acho que até com uma certa razão, porque eu já não podia fazer tudo como antes. Foi chato. Cassiano aprendeu a lidar com as diferenças junto com a esposa, que acabou passando pelos mesmo problemas e até enfrentou a rejeição dentro da própria família. Acho que se nós não tivéssemos ficado juntos, as coisas seriam piores, diz o jovem pai. Minha mãe sempre falava que deixou de pensar nela quando teve os filhos, comigo aconteceu o mesmo, mas foi bom, conclui.

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