Foram duas demonstrações belas, não há dúvida. As passeatas que as Igrejas Católica e do Evangelho Quadrangular promoveram no último dia 11 de agosto, no Centro de Bauru, a meu ver, evidenciam que as convicções religiosas não saíram de moda. Pelo contrário: o motivo pelo qual muitos católicos e evangélicos fazem questão de gritar sobre os telhados que a razão de sua existência está na fé na pessoa de Jesus, já deveria ser um sinal visível da presença viva do Cristo na humanidade.
Mas nem tudo é motivo para uma contemplação feliz. Ao presenciar aqueles dois verdadeiros espetáculos, pensei: por que não poderia ter sido uma única passeata? Imagine se todas aquelas pessoas de ambas as comunidades proclamassem juntas a razão da sua fé? Certamente, esse acontecimento se transformaria num testemunho ainda mais fantástico! Porém, analisando aquilo que aconteceu no Centro de Bauru, tive a clara sensação de que estamos ainda bem distantes de ver realizado esse sonho da unidade entre os cristãos. E que todos sejam Um, conforme preconizara o próprio Filho de Deus. É curioso: se perguntarmos a muitos cristãos (católicos ou evangélicos) em que reside sua fé, todos os de bom senso dirão que em Jesus. Porém, ao observar as cenas na Praça Rui Barbosa, durante aquela manhã, mais uma vez tive a sensação de que os emblemas religiosos acabam sendo, para muitos, mais importantes que o fundamento da sua fé. Agindo assim, no lugar de testemunhar convicções enraizadas numa fé e experiência profundas em Deus, muitos acabam produzindo e reproduzindo mera propaganda religiosa. E é ainda mais lamentável pensar que fatos como esse possam ter se realizado pela força de intenções claramente político-partidárias...
O teólogo católico argentino Enrique Cambón, em uma de suas obras, reproduziu um certo diálogo entre um judeu e seu colega cristão. Em síntese, o judeu dissera ao seu amigo que era difícil acreditar que Jesus seria o sinal de unidade entre os homens, uma vez que sequer seus seguidores mais diretos os cristãos eram capazes de testemunharem essa união. Naturalmente, a unidade pedida por Jesus está sobretudo centrada numa dimensão essencialmente espiritual. Reduzi-la a questões simplesmente estruturais e de poder, é cometer um erro grosseiro. Enfim, o fato é que, aqui em Bauru, tivemos uma bela oportunidade de testemunhar que a unidade entre os cristãos é possível, mas é triste ter que reconhecer: ainda não foi desta vez.
(*) Luís Henrique Marques é jornalista e professor universitário nas áreas de Cultura Religiosa e Jornalismo