Geral

Gol contra

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

A atitude do ministro da Defesa, Geraldo Quintão, sugerindo a realização de concorrência internacional para reequipar a frota de aviões de combate da Força Aérea Brasileira (FAB), equivale a um gol contra a economia do País. Além disso, é um equívoco mercadológico e tecnológico, que poderá custar caro ao País, no momento em que a Embraer começa a incomodar concorrentes internacionais de países do 1.º Mundo, como foi o caso ocorrido recentemente com a Bombardier, canadense. Santo de casa não faz milagre deve ter pensado, ao tomar essa infeliz decisão, o ministro da Defesa. Ocorre que, neste caso, o santo de casa, ou seja a Embraer, já fez e - temos certeza continuará a realizar - muitos outros milagres, batendo recordes de exportação e agregando valor tecnológico cada vez maior aos manufaturados brasileiros vendidos para o Exterior.

Como o leitor sabe, a FAB deverá, a partir de 2002, iniciar a renovação de sua frota de aviões de combate, composta hoje por Mirages, que têm, em média, mais de 30 anos de uso. Especialistas estimam o valor das encomendas em US$ 700 milhões no primeiro ano, alcançando, num período de três anos, algo em torno de US$ 3 bilhões. Esse montante não é nada desprezível, principalmente se levarmos em conta as dificuldades enfrentadas pelo País para elevar as exportações.

Do ponto de vista mercadológico, convocar fabricantes estrangeiros para fornecer caças à FAB é um retrocesso absurdo, uma vez que a Embraer é hoje o maior exportador brasileiro, tendo dentre seus clientes nada mais nada menos do que Estados Unidos, Grã-Bretanha e o Canadá, além de mais de uma dezena de países emergentes. Os jatos médios, com capacidade de cem lugares, fabricados pela Embraer, funcionam hoje, no Exterior, como cartões postais aéreos daquilo que o País já é capaz de produzir.

Portanto, não foi mera coincidência o fato de a Embraer ter sido absolvida da acusação, feita pela Bombardier, na Organização Mundial do Comércio (OMC), de ter recebido subsídios governamentais. Ao contrário, técnicos da OMC acusaram a empresa canadense de ter-se beneficiado de incentivos do seu governo. Uma vitória sem precedentes, principalmente em se tratando de manufaturados, que costumam ser o alvo preferencial do protecionismo do 1.º Mundo (veja-se, a propósito, os casos do aço, do suco de laranja, do café solúvel e dos calçados, dentre outros). Em palavras mais simples, na hora do auge mercadológico da Embraer, ela é atingida por um míssil, disparado - suprema ironia! - por quem mais tinha o dever de defendê-la: o ministro da Defesa. Coisas que só acontecem no Brasil.

Quanto à questão tecnológica, a recomendação do Ministério da Defesa não poderia ter sido mais desastrosa. Como é do conhecimento do leitor, a Embraer tem como sócia minoritária (com cerca de 20% do capital votante) nada mais nada menos do que a francesa Dassault, fabricante dos Mirages e detentora de tecnologia de ponta no setor de aviação militar de combate. Por que, então, a infeliz idéia de realizar concorrência pública internacional?

Como todos sabem, a aviação civil e militar é, hoje, um laboratório aéreo de informática. As encomendas de aviões de combate da FAB à Embraer seriam, em tal contexto, uma oportunidade única e excepcional de o País atrair para cá os grandes fabricantes de componentes eletrônicos.

Por essas razões todas, a sociedade civil, o Congresso Nacional e a opinião pública devem cobrar explicações do Ministério da Defesa e reverter essa insensata e infeliz decisão de chamar fabricantes estrangeiros para participar de concorrência pública.

(*) O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - ADVB

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