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Seqüestros & Seqüestros

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Existem neste País seqüestros & seqüestros. Aquele que se desenrolava na TV diante dos meus olhos de pálpebras pesadas, depois do almoço, sem dúvida nenhuma era de primeira categoria. Há seqüestros de segunda classe e até de terceira, mas aquele, ao vivo e em cores, realmente era chegado à sustança. Nem visita do Papa mereceu oito horas de transmissão direta. Nunca se viu tamanha mobilização da imprensa e das autoridades - todos lá, xeretando a casa do apresentador. Alguém descobriu que o Sílvio e a esposa dormem em quartos separados. Outro deve ter se espantado ao perceber num canto místico da sala a Tora, o livro que encerra a lei mosaica, convivendo pacificamente ao lado da Bíblia de Lutero. Para confirmar o tratamento diferenciado, o governador Geraldo Alckmin apareceu, justamente na hora do final feliz. Se o meu Juquinha fosse seqüestrado, sem ter tido ainda tempo para atingir a notoriedade, nem com a solidariedade do Nilson Costa poderia contar.

A segunda lição desse evento me remete ao maior jornalista panfletário que o Brasil já teve: Carlos Lacerda. Dizia ele que em um país onde o trabalho dá mais suor que camisa, os salvacionistas prosperam. Sílvio Santos é um deles com o seu Baú da Felicidade e Show do Milhão, distribuindo casas e dinheiro. Coisas que reacendem a esperança do povo que cansou de esperar dos políticos e governantes. Tanto isso é verdade que o próprio seqüestrador, jurado de morte, ferido, procurou refúgio sob as asas da sua vítima. Nem quis ficar com a mulher e as filhas do apresentador. Sílvio Santos é o meu salvador. O que ele decidir, tá decidido - documentaram os jornais.

Permito-me discordar de alguns intelectuais que ironizaram a filha do animador. Ela não é nenhuma alopradinha ou vítima de lavagem cerebral por parte dos seus amigos evangélicos. Foi muito lúcida quando disse que seu pai, em seus canais de televisão e estações de rádio, poderia ter se concentrado em denúncias de corrupção e ter bradado com a ênfase necessária contra as injustiças sociais. Esta combinação - corrupção e injustiça social - são os dois mais poderosos nutrientes do mundo do crime.

Benditos os que crêem. Na sociedade do espetáculo onde vivemos, quantos não esperavam ver na sacada da casa uma Patricinha destroçada pelo pânico, o medo estampado na face, olhos esbugalhados de terror. Eis que surge uma profetisa moderna, sorridente, que deplora o dinheiro do pai que não tem a Deus. De que vale ao homem ganhar o mundo todo, se vier a perder a sua alma, disse o apóstolo Paulo, também ele ironizado por ter abandonado uma vida de fausto para pregar nas estradas poeirentas de Damasco. Joana DArc, hoje padroeira da França, também foi gozada porque vestiu armaduras de homem para defender a Igreja. Morreu na fogueira. Quem ache ridículo Francisco de Assis com uma pomba na cabeça, também os há. Aqueles que desdenharam os santos e os mártires, hoje pertencem ao lixo da história.

Perguntei ao Juquinha se a imprensa deveria divulgar ou calar sobre o seqüestro, quando se temia pela vida de Patrícia Abravanel? Ele farejou o ar e me respondeu com um sábio silêncio. Entendi a mensagem. Não se trata de um dilema ético mas sim de uma questão de bom senso do editor. Na hora de fechar o jornal não dá para ficar consultando o manual de redação. A mídia existe para informar o que é de interesse público, mas isso não significa que tenha direito de pôr em risco vidas alheias para vender mais jornal. A lógica grega do Sílvio está certa - cada caso é um caso. Se for demonstrado pelas autoridades que a publicidade em torno do caso poderá agravar a situação da vítima, o editor imbuído da sua responsabilidade social terá que segurar a matéria. Também não se pode confundir apelo da autoridade com autoritarismo. Muito menos admitir censura prévia ou entrar no jogo de quem quer fazer média com ricos e poderosos. Perder uma notícia, por mais importante, também não muda nada. O prestígio de um meio de comunicação só se constrói com muitos anos de acerto.

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