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Verdades e aparências

(*) Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A revista Economist publicou, no início do mês, um ligeiro comentário (reproduzido, como regularmente às terças-feiras, no encarte do jornal Valor de 11.09.01) comparando o crescimento do PIB mexicano com o brasileiro. Com a irreverência habitual, ela diz que os brasileiros devem ter tomado um choque ao receber a notícia de que a economia do México tornou-se a maior da América Latina, deixando o segundo posto ao Brasil. Os dados usados pela revista se relacionam ao PIB medido em dólares, para o período de 12 meses completados em junho último, levando em conta que no segundo trimestre de 2001 a economia brasileira cresceu apenas 0,8% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. O texto faz a ressalva que não se deve perder de vista que taxas de câmbio às vezes somente servem para revelar meias-verdades, mas não perde a oportunidade de fustigar duramente a nossa auto-estima, ao comentar que logo seremos ultrapassados pelo México no ranking futebolístico, se mantido o atual desempenho... da seleção brasileira, creio eu. Neste caso, infelizmente, com inteira razão...

No que se refere, porém, ao tamanho do PIB, não devemos (ainda) jogar a toalha. A estatística é enganosa, porque está muito influenciada pela valorização da moeda mexicana e pela desvalorização do real, frente ao dólar. Como a avaliação do PIB dos dois países inclui a flutuação do câmbio, significa que se está elevando artificialmente o PIB mexicano, em dólares e, de outra parte, reduzindo também artificialmente o PIB brasileiro. Quando se faz a estimativa com base na paridade do poder de compra (que é a medida adequada, pois leva em conta os preços americanos), verificamos que a economia brasileira continua bem maior do que a mexicana. A própria revista registra que, por esse parâmetro, a estimativa do Economist Intelligence Unit dá ao Brasil um PIB de US$ 1 trilhão e 200 bilhões, contra US$ 890 bilhões do México, para o ano 2000.

A economia brasileira é muito mais sofisticada, sua indústria é altamente diversificada e tem um peso muito maior do que a mexicana, mas não devemos fechar os olhos para o fato de que nossa taxa de crescimento caiu muito nos últimos sete ou oito anos. A queda do desenvolvimento brasileiro é uma coisa dramática. Enquanto o PIB do México, puxado por uma forte ampliação das exportações, cresceu à taxas superiores a 5% em média entre 1995 e 2000, o PIB brasileiro não ultrapassou a média de 2,4% no período. A renda per capita dos brasileiros, com uma população crescendo a 1,6% ao ano, alcançou uma taxa ridícula de crescimento da ordem de 0,8% ou 0,9% no período.

Tenho insistido em chamar a atenção para o fato de que, nessa marcha do desenvolvimento, nós vamos levar 100 anos para dobrar a renda dos brasileiros. Se não corrigirmos a política, se não modificarmos a estrutura dos impostos e não aumentarmos as exportações, não será surpresa se em breve formos ultrapassados pelo México e não apenas por ele, mas por uma dezena de outros países que conosco competem no mercado mundial. Sem subestimar o choque que nos causa a perda da liderança no futebol, essa é uma tragédia bem maior.

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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