É difícil, talvez impossível, encontrar alguém que tenha ficado alheio aos ataques terroristas que aconteceram em Nova York e Washington há pouco mais de dez dias. Com uma cobertura intensa de todos os setores da imprensa mundial, o ataque e o desabamento das torres do World Trade Center e de parte do prédio do Pentágono se tornou assunto obrigatório em todas as rodas de amigos, em conversas em família, no trabalho ou nas escolas. Mas o mundo todo sentiu os efeitos da tragédia americana não só por causa da cobertura da mídia, mas porque, de uma forma ou de outra, afetando a economia ou os sonhos de crianças mais sensíveis, tudo o que aconteceu na manhã do dia 11 de setembro nas duas principais cidades dos Estados Unidas pode significar muito mais do que um ato de barbárie, pode ser um sinal de o mundo nunca mais será o mesmo de antes.
O maior medo do bauruense quando se fala nos atentados nos Estados Unidos é de que uma vingança americana acabe gerando uma resposta ainda mais violenta dos países do Oriente Médio. Uma guerra seria inevitável nesse caso e o conflito poderia atingir o Brasil, não só economicamente, mas diretamente, com o envio de soldados brasileiros para o front de batalha. Essa possibilidade têm preocupado muito os jovens com pouco mais de vinte anos, que há não muito tempo fizeram o Tiro de Guerra. Um aviso para o comparecimento no quartel publicado no jornal há uma semana só veio a aumentar o receio. Estou com medo que aconteça uma guerra, declara o programador Fábio Luiz de Oliveira, 22 anos. Conheço um pessoal na faculdade que já foi convocado, justifica. O programador, que se diz de sobreaviso, esperando a qualquer momento uma convocação, não acredita que seja uma coincidência. Tem que ter alguma coisa a ver com o que aconteceu nos Estados Unidos, afirma. O assistente de vendas Michel Ricardo do Nascimento Chaves, de 22 anos, está ainda mais preocupado com a possibilidade de uma guerra mundial. Espero que não aconteça porque nós, reservistas, estamos sujeitos a ir, diz. Chaves confessa estar muito apreensivo porque não se considera preparado para enfrentar um campo de batalha. Além disso, só iria atrapalhar a minha vida, meu trabalho, meus estudos, afirma.
Segundo informações do Tiro de Guerra de Bauru, a publicação do anúncio para comparecimento no quartel não passa de uma coincidência. É apenas para que os reservistas que têm alguma pendência de documentação com o Tiro venham regularizar a situação, explica o Sargento Daniel.
Pela paz
Mas o fantasma da guerra não está rondando apenas a mente dos possíveis soldados. Nas ruas, as pessoas torcem para que o governo americano abdique de uma vingança em prol da paz mundial. Não acho que os americanos devam atacar quem quer que seja porque inocentes vão morrer, pessoas que não têm nada a ver com as diferenças dos governos, diz o agrimensor aposentado Osmar Antonio Godoi. Mas é uma questão de consciência do povo, eles estão muito abalados com o que aconteceu e querer se vingar, completa. A designer Daniela Marchiori diz que ficou assustada com os ataques e espera que os americanos pensem bastante antes de atacar alguém. Se eles atacarem vai haver uma guerra e isso vai afetar o mundo todo, acredita. Patrícia Regina Amorim, porteira, diz que está com medo do que pode acontecer nos próximos dias. Um ataque significa outros ataques em resposta, significa mais gente morta e isso assusta, explica.
Embora torçam pela paz, é unânime a opinião de que o governo norte-americano vai buscar uma guerra no Oriente Médio. O patriotismo do povo vai falar mais alto, diz Henrique Luis Gomide, que acredita numa grande vingança americana. Infelizmente, acho que os americanos vão querer mostrar o quanto eles têm poder, diz Daniela Marchiori. O povo quer sangue, eles precisam dar uma resposta para poderem se sentir bem, por isso acho que vão querer uma guerra, declara a estudante Ana Luiza Sanches.
Capital do mundo
No geral, o sentimento de tristeza pelo ataque em Nova York fez com que muitas pessoas percebessem o quanto estão ligadas à cultura americana. Me senti agredida pessoalmente quando vi Nova York pegando fogo. Acho que me sentiria da mesma maneira se tivesse jogado um avião no Cristo Redentor, afirma a secretária Camila Corrêa, que afirma sempre ter sonhado em conhecer os prédios do World Trade Center agora transformados em entulho. Todo brasileiro quer ir para Nova York, passear na Broadway, ir à Estátua da Liberdade, conhecer o Empire State, as torres gêmeas... Achei que um dia iria até lá, lamenta.
O estudante universitário Carlos Carnelossi conheceu os edifícios que desabaram durante uma excursão há três anos e também se sentiu antingido. Nova York é a capital do mundo junto com Londres, você pode encontrar gente de todos os lugares, falar várias línguas, atacar um lugar desses é como atacar todos os países juntos, disse emocionado.
Equilibrado, o engenheiro aposentado José Fernando Marques lamenta profundamente o ataque às cidades americanas, mas não se esquece do outro lado. Fico triste porque nós brasileiros estamos muito próximos dos Estados Unidos, mas o ataque também seria triste se tivesse acontecido no Oriente, em Bagdá, por exemplo, explica.
Medo de avião redobrado
O uso de aviões de passageiros como armas de guerra também deixou muita gente assustada. Não bastasse o fato de, num caso de pane, o avião não ter salvação, agora ainda existe a possibilidade de seqüestro por terroristas, afirma a dona de casa Maria do Carmo Pereira. Não sei se vou ter coragem de entrar num avião na minha vida, completa. O advogado Agenor dos Santos Andrade também passou a ver os aviões com outros olhos. Nunca tive medo de voar porque os números confirmam que o avião é o meio de transporte mais seguro do mundo, mas agora não sei se as autoridade vão ter como controlar possíveis ameaças de terrorismo em aviões comerciais. Estou com medo, duvido que alguém que pegue um avião hoje não esteja com medo, confessa.
O medo de avião atingiu também o mecânico Adílson Luiz, mas não é exatamente o fato de ser passageiro que o preocupa. Desde que aconteceu aquilo tudo em Nova York eu olho para o céu cada vez que ouço o barulho de um avião. O meu maior medo é de que ele caia em cima de mim ou de algum lugar cheio de gente, diz. O comerciário Pedro A. Caetano tem o mesmo medo: Trabalho na Getúlio Vargas, perto do aeroporto, quando ouço o barulho dos aviões vejo a imagem dos prédios pegando fogo. Morro de medo.