O adolescente é bombardeado diariamente com informações, mas não tem condições de refletir e assimilar conhecimentos.
Na opinião dos profissionais entrevistados, a inconseqüência do adolescente é o principal problema da gravidez precoce. As psicólogas Vera Rodrigues e Marilza Ramos, do Núcleo de Apoio Psicossocial (Naps/SMS) explicam que, nesta fase da vida, o jovem acredita ser superpoderoso e inatingível. Ele é bombardeado de informações - ele sabe o que a gravidez representa, conhece os métodos contraceptivos, mas não consegue refletir adequadamente a respeito de suas responsabilidades diante desta situação, nem a respeito das conseqüências de seus atos.
A menina não planejou ficar grávida - foi o acaso. Então, ela se casa de véu e grinalda, também sem planejar. Amanhã, ela se separa ou anula o casamento. Estamos vendo uma geração de adolescentes que não pensa, que não faz reflexões, que não considera uma perspectiva futura, comentaram. Para as psicólogas, a reversão deste quadro depende diretamente da participação da família na construção da identidade e da moralidade de crianças e adolescentes.
É no contexto familiar que aprendemos o discernimento do bem e do mal, do certo e do errado. É onde conhecemos os papéis sociais de pai, mãe, filho, adquirimos a noção de respeito. Só que a família está empurrando esta educação informal para a escola, o psicólogo, o assistente social e, com isso, os valores estão se perdendo, disseram.
A assistente social Mafalda Sparapan lembrou que, décadas atrás, as mulheres casavam-se por volta dos 16 anos. Eu me casei aos 16 anos, mas fui preparada para isso. Não sabia como os bebês nasciam, mas estava pronta para assumir a responsabilidade de um lar, de um marido, de um casamento. E estava pronta para passar tudo isso para meus filhos, disse. Hoje, as adolescentes sabem como os bebês nascem, mas não têm estrutura para assumir uma família.
Exemplos
A estudante Dérica Priselli Pereira, 19 anos, descobriu que estava grávida aos 16 anos. Ela garante que o uso do preservativo era regular, mas que a camisinha estourou. A partir daí, sua responsabilidade diante da vida mudou muito. Para Dérica, as principais mudanças foram nos estudos, que tiveram de ser interrompidos, e no convívio com os amigos, já que um bebê a impedia de sair de casa.
A gravidez também pegou de surpresa Cristiele Ferraz, 18 anos. Ela tinha 17 anos, era seu primeiro namorado. As relações sexuais começaram em outubro e a gravidez foi descoberta em novembro. Eu achava que não iria engravidar. A gente até começava com a camisinha, mas, depois, deixava de lado, revelou.
Questionadas a respeito da idade ideal para uma mulher engravidar, as duas defenderam que é a partir dos 20 anos, depois de concluídos os estudos - pelo menos, o ensino médio.
Programa pré-natal
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Bauru desenvolve um Programa de Pré-Natal. Todas as mulheres que chegam às unidades de saúde com a confirmação de gravidez são automaticamente inscritas no programa. Até junho deste ano, havia 1.516 mulheres inscritas.
De acordo com a coordenadora dos programas especiais da SMS, Rosilene Reigota, as gestantes são acompanhadas e monitoradas periodicamente por médicos, enfermeiros, nutricionistas e assistentes sociais. Os principais objetivos deste trabalho são reduzir a incidência de partos prematuros, a mortalidade materno-infantil, além de identificar gestações de risco e estimular o aleitamento materno.
Todas as gestantes são orientadas a fazer o teste HIV (vírus da aids). Os casos confirmados são encaminhados para grupos e tratamentos específicos. Sabe-se que, sem tratamento, os riscos de que um bebê de mãe HIV-positiva nasça portador do vírus são de 30%. Com o tratamento adequado, este risco cai para 8%.
As mulheres podem participar de grupos de aconselhamento, onde são passadas informações e esclarecidas dúvidas. A principal pergunta é como será o parto. Elas têm muito medo da dor, da internação e das complicações, informou a enfermeira Islaine Maressa Pelegrina, do Núcleo de Saúde do Parque Vista Alegre. Segundo ela, as mulheres e adolescentes sabem que podem engravidar, mas adiam a procura por um método contraceptivo.