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Apoio psicológico gratuito não vence atender toda a demanda

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

O apoio psicológico gratuito disponível em Bauru está sobrecarregado. Há uma demanda muito grande para um atendimento ainda acanhado. No Centro de Psicologia Aplicada da Unesp há uma lista de espera com mais de 50 nomes. Na Clínica de Psicologia Aplicada e Fonoaudiologia da Universidade do Sagrado Coração, a lista tem cerca de 200 nomes à espera de atendimento.

Em ambas as universidades, as inscrições são feitas no início do ano e os atendimentos têm início com o começo do ano letivo. O atendimento é feito por estudantes do último ano de Psicologia, supervisionados por professores da área.

No serviço público, a situação não é diferente. Uma vaga para terapia também pode demorar meses.

Tomando uns gorós

É tomando uns gorós que a viúva Marlene dos Santos Silva, 54 anos, enfrenta a tristeza e os problemas do seu dia-a-dia. Sem emprego e com dois filhos presos, acusados de homicídios, ela diz que a depressão a acompanha. Não durmo à noite. Ando de um lado para outro. Quando vou deitar, coloco uma foice do lado da cama. Tenho medo que alguém entre em casa e me agrida, confidencia.

Moradora do Fortunato Rocha Lima, a ajudante de cozinha enfrenta várias dificuldades de ordem emocional, principalmente aflição ao lembrar dos filhos encarcerados. Os dois estão lá e não tenho dinheiro nem para comprar um ventilador para eles, expõe.

As datas mais festivas, como Natal e Ano Novo, sempre chegam para Marlene com uma dose excessiva de tristeza. Penso nos meus filhos e choro muito. Eles não tiveram muita sorte na vida. Nessas datas fico depressiva, neurótica, confessa.

Depressão e agressão

Apesar de ter apenas 29 anos, Luciana (nome fictício), experimentou o sabor da depressão há três anos, quando seu marido arrumou uma amante. Foi muito difícil enfrentar a situação. Fiquei deprimida por um bom tempo. Não comia, não bebia e não conseguia dormir. Foi um pesadelo, recordou.

A depressão pegou firme em Luciana e ela quase sucumbiu-se. Queria resolver o problema. Meu marido tinha mudado o comportamento em casa e eu já sabia o motivo. Conversei com as vizinhas e minhas amigas, mas percebi que não era suficiente, contou. A dona de casa disse que na época nem sabia o que era depressão. Apenas procurou um médico, que lhe deu alguns calmantes.

A depressão durou cerca de um ano, sem que Luciana tivesse o apoio de um psicólogo ou psiquiatra. Eu procurei o núcleo de saúde, tomei calmantes e vivi dopada durante um tempão, mas os sintomas não iam embora. Pensei em matar meu marido com o ferro de passar roupa. Não deu certo, ele acordou quando eu entrei no quarto. Chegou num ponto que eu tomei uma decisão: passei a mão em um pedaço de pau e fui procurar a amante dele. Dei uma surra nela. Descarreguei toda a minha raiva e depois procurei a polícia para prestar queixa. Meu marido ficou do meu lado, alivia-se.

A decisão da dona de casa, em sua própria opinião, fez com que o marido se decidisse. Ele ficou comigo e a mulher desapareceu do mapa. Só então eu me livrei da depressão, comemora. As amigas, segundo Luciana, tiveram um papel muito importante na vida dela naquela fase difícil. Eu desabafava com elas, que me ouviam e me aconselhavam. A decisão radical, porém, foi só minha, vangloria-se.

Depois de três anos, Luciana acha que tomou a decisão certa. Resolveu o problema com o marido e se livrou da doença que afeta milhões de brasileiros e leva outro tanto aos consultórios de terapeutas. Sem as mesmas chances de pagar apoio psicológico, ela conseguiu vencer a barreira da depressão e da traição de uma maneira prática, embora discutível e nada aconselhável.

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