Geral

Salvar de quê?

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

Lemos a carta à Tribuna do Leitor enviada pela psicóloga Fátima Majone, em que ela, opondo-se a colocações de outro missivista da coluna, opina, claramente, que nem mesmo se reuníssemos todo os estudos da psicanálise realizados até hoje poderíamos alcançar algo sobre a suprema e verdadeira sabedoria contida nas palavras de Jesus. Completa, adiante: Deus nos amou de tal forma a enviar seu Filho amado para nos salvar... E arremata expressivamente: Salvar de quê? De nós mesmos, porque nos destruímos uns aos outros!

Concordamos, plenamente, em número, gênero e grau com a culta psicóloga, tendo diante dos olhos as tristes imagens dos terríveis escombros, ainda visíveis, no centro de Nova York, e, no pensamento, a soma fabulosa de vítimas registradas pela tragédia e os motivos ou desmotivos que a hecatombe teria provocado. Realmente, aí está uma evidência indesmentível de que, desde o penoso sacrifício de Jesus Cristo, praticado por desalmados fariseus de seu tempo, temos de concluir que, realmente, vimos nos destruindo tragicamente uns aos outros e é imperioso, então, que procuremos nos salvar, pois a humanidade tem razões absolutas para que o tente ardorosamente antes que tenha diante de si a perigosa soleira do precipício definitivo, onde todos venham a emitir o derradeiro lamento. Como chegar ao ideal da salvação a não ser, como opina Fátima, livrando-nos das neuroses e psicopatologias e ensinando-nos a amar e perdoar? Confirma-o, certamente, na nossa opinião, o inspirado verso de Emily Dickinson, em que o poeta ressalta o que se terá de fazer realmente para salvar a si da mesma forma, e, os demais seres humanos. Diz o brilhante intelectual: Não viverei em vão se puder salvar de partir-se um coração, se puder aliviar uma vida sofrida, se puder abrandar uma dor ou ajudar um exangue passarinho a subir de novo ao seu ninho...

Se todos fossem assim, certamente o terrorismo selvagem, em suas múltiplas formas, não existiria entre as tantas violências do mundo e, conseqüentemente, ninguém necessitaria recorrer a quaisquer maneiras salvíficas, eis que não caminharia sobre a terra e o asfalto indiferente aos sagrados objetivos para os quais foi criado, nem jamais se postaria infenso à sobrevivência dos demais, e, então, deixando de destruir cidades, dizimar populações e, simplesmente, salvando corações, aliviando os sofrimentos da vida, minimizando a dor e até ajudando aves solitárias a galgar de novo seus acariciantes ninhos, como sonha o poeta. É também a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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