Geral

Muçulmano

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Apesar de ser uma das religiões com o maior número de fiéis em todo o mundo, com, aproximadamente, 1,3 bilhão de pessoas espalhadas por todos os continentes, o Islamismo ainda é pouco conhecido e difundido no Brasil. Os praticantes brasileiros estão, em quase toda sua totalidade, nas colônias de origem e oriental que vivem no País. O jornalista santista Maurício Eirós Jr., 30 anos, é uma exceção. Descendente de portugueses e espanhóis, ele trocou, em dezembro de 1998, o Catolicismo pelo Islã. Ele pesquisou muito sobre as religiões e hoje se considera um pessoa muito melhor do que antes da sua conversão. De Araraquara, onde trabalha, Maurício falou por telefone com o Caderno Ser. Ele fala sobre sua mudança de religião e como o Islamismo ainda desperta curiosidade e espanto nas pessoas.

Jornal da Cidade - Como você decidiu se tornar muçulmano? Maurício Eirós Jr. - Decidi depois de muita leitura e de pesquisar muitas religiões. Comprei vários livros sobre religiões para saber quais eram seus pontos fortes e seus pontos fracos (e todas elas têm o seus). Conheci também algumas igrejas evangélicas, como a Igreja Batista e a Assembléia de Deus, até sobre Budismo eu li um pouco.

JC - A sua família não tem origem árabe?Maurício - Não. A minha família tem origem espanhola e portuguesa. Meu pai e minha mãe são católicos não-praticantes, mas tenho tios que são bem ativos dentro da Igreja Católica. Eu fui batizado, cheguei a fazer a primeira comunhão, mas nunca fui muito praticante. Fiquei alguns anos sem religião antes de me converter.

JC - Por que você partiu para buscar uma nova religião? Maurício - Eu estava me sentindo como se fosse uma nau sem rumo. Senti a necessidade de buscar um caminho, uma fonte de inspiração para a minha vida. Comecei a ler bastante sobre o Islã e a freqüentar a mesquita de Santos, de uma forma bem observadora, sem praticar o ato de fé. Comecei a conversar com alguns membros da religião e a partir daí decidi me converter. Uma das coisas que mais chamou a atenção foi a relação do Islamismo com a cultura. Nós somos um povo com uma riqueza cultural muito grande mas não temos o costume de preservar isso. Os muçulmanos apreciam muito a cultura. Fiz uma entrevista recentemente com um xeque que me falou sobre como na época das Cruzadas a cultura árabe foi levada para a Europa, principalmente para os países do Mediterrâneo, como a Itália e Espanha. A presença árabe no sul da Europa trouxe um grande ganho para a cultura Ocidental. Mas o Islamismo é uma religião muito interessante, apesar de ter alguns pontos controversos, ela apresenta muita coisa positiva.

JC - Como é o ritual de conversão?Maurício - Para se converter o ritual é bem simples. Você faz a profissão de fé, que é, mais ou menos, o que o católico faz na missa. Dai cita-se alguns versos do Corão, entre eles um que fala que Deus é um único ser e Muhammad (Maomé) é o seu único profeta da Terra. É basicamente isso.

JC - Você teve que aprender árabe?Maurício - Eu não tive que aprender, mas sei alguma coisa porque é preciso fazer uma parte das orações em árabe, porque senão elas não valem. Esse é um dos pontos que algumas pessoas discordam, porque seria mais fácil se fosse feito como na Igreja Católica, que deixou de rezar suas missas em latim para rezá-las no idioma local. Mas eu estou aprendendo aos poucos sobre a língua, estou fazendo aulas particulares.

JC - Você precisou trocar seu nome? Isso é obrigatório? Maurício - Não é obrigatório, mas eu adotei o nome de Abdul Kareem, que traduzido seria algo como aquele que segue os caminhos do Senhor. Mas esse nome eu só uso dentro dentro da comunidade islâmica, não mudei o nome dos meus documentos.

JC - Como foi a reação da sua família ao saber da sua opção religiosa?Maurício - Até hoje a minha mãe não sabe disso, ela ainda acredita que eu vá à missa e seja Católico. Meu pai aceitou bem e minha tia, que é católica mais fervorosa da família, também não falou nada. Meus amigos mais íntimos ficaram chocados, não sabiam porque eu tinha feito essa opção, mas com o tempo foram se acostumando. Até porque houve uma mudança de comportamento, uma coisa muito interessante de se notar. JC - Como assim?Maurício - Como eu já falei, antes de encontrar o Islamismo eu andava sem rumo, fazia as coisas sem pensar nas conseqüências. Hoje em dia eu estou diferente, eu penso nos meus hábitos e no que eles podem causar para as outras pessoas. A minha mãe já percebeu isso, mas ainda não tive coragem de contar para ela que não sou mais católico.

JC - A religião estabelece alguns hábitos que, por exemplo, possibilitem que outras pessoas identifiquem você como muçulmano? Maurício - Não há nenhuma mudança radical.

JC - Você tem que fazer cinco orações por dia?Maurício - São cinco orações diárias voltadas para Meca (cidade sagrada para os muçulmanos que fica na Arábia Saudita). Eu me guio pelo nascer do sol para fazer as orações, que, ao contrário do que se pensa, não têm um horário específico, até porque na época, quando foram estabelecidas pela religião, não havia relógio. Então, o certo é fazer as orações na alvorada; por volta da hora do almoço, quando o sol está a pino; à tarde; no crepúsculo; e à noite, que deve ser feita depois de escurecer completamente. Mas os horários são bem flexíveis, por isso não há como deixar de fazer a oração por causa do horário ou deixar de fazer algo para orar.

JC - As orações são rápidas?Maurício - Sim, no máximo, são quatro genuflexórios (movimento de joelhos no qual o fiel, com os braços estendidos, dobra o corpo e toca a testa no chão). No máximo, dura 8 minutos porque há uma variação. A oração da manhã tem duas genuflexões, a que tem quatro é a oração do crepúsculo.

JC - E a peregrinação até Meca, que é obrigatória, quando você pretende fazê-la?Maurício - É, a peregrinação é um dos cinco pilares do Islã e deve ser feita pelo menos uma vez na vida. Estou planejando ir para lá nos próximos cinco anos.

JC - O que são os outros quatro pilares?Maurício - O testemunho de fé; as orações; o tributo social, que é uma doação de 1/40 do que você ganha por ano para pessoas necessitadas; e o jejum no mês do Ramadã.

JC - Qual o mais difícil?Maurício - O primeiro jejum no Ramadã é sempre o muito difícil, mas quem não consegue fazê-lo pode pagar de outra forma. O calendário Islâmico é diferente do Gregoriano e nele os meses têm de 28 a 29 dias. Quando eu fiz o meu primeiro jejum tinha acabado de me converter e tinha que ficar durante os 28 dias do mês, sem comer do nascer ao pôr do sol. Jejum completo, nem água se pode beber. Desses 28 dias, eu fiquei 19 em jejum. Como não completei todos os dias a recomendação é alimentar um pobre, alguém que tem a necessidade de alimento e não consegue ter facilmente, até se completarem os 28 dias.

JC - Você tem sentido alguma mudança no comportamento das pessoas em relação a você depois dos atentados nos Estados Unidos pelo fato de muita gente não saber diferenciar árabe de muçulmano? Maurício - Essa confusão sempre existiu e desde que eu abracei o Islã percebo esse tipo de coisa, até por falta de conhecimento. O Islamismo não é uma religião divulgada, poucas pessoas sabem o que é o Islamismo, por isso há esse estranhamento, embora não tenha mudado muita coisa. Acho que seria a mesma coisa se eu fosse budista. O que as pessoas sabem sobre Budismo? Eu não saio na rua vestido com um pijama, como algumas pessoas dizem. O que há é uma mudança de comportamento, uma mudança social. Por exemplo, eu não tenho contato com bebida alcoólica, não tenho contato com outras mulheres no nível de desejo sexual, o Islã proíbe isso. Essa questão da bebida dificulta, porque eu saio com os amigos e eles ficam na cervejinha enquanto eu só tomo refrigerante.

JC - Você citou o Budismo como exemplo, mas o Islã é visto de outra maneira porque é associado a atos extremos.Maurício - É, acho que as pessoas associam os árabes com terroristas. Até as pessoas da colônia árabe no Brasil sofrem com isso.

JC - Até que ponto você se considera próximo da cultura árabe por professar a mesma religião? Como você está vendo a situação no Oriente Médio?Maurício - Em termos culturais e religiosos, a minha aproximação é grande, até porque nós somos tratados igualmente, não importa se você é brasileiro, chinês ou árabe. A partir do momento em que a religião te ungiu, você é tratado com igualdade. Agora, sobre a guerra é uma questão muito triste, porque muita coisa é baseada em suposições do tipo eu acho que foi tal pessoa, então vou cair em cima dele. Acho que até agora não conseguiram provar que o Ossama Bin Laden realmente tem algo com os atentados. Isso é triste e não só para os países árabes. Imagine que fosse em outro país o atentado, como aconteceu na Argentina, em 1994. Será que foi ele também? Ninguém falou nada porque foi na Argentina. Mas como foram atingidas as duas torres e o Pentágono, alguém tinha que ser culpado. Mas é muito perigoso acusar assim. Inclusive, muito pouca gente comenta, mas havia uma pequena mesquita em uma das torres e pelo menos 400 muçulmanos morreram no ataque aos prédios, mas isso pouca gente divulga.

JC - O Corão condena a violência?Maurício - O Corão diz que a partir do momento que você mata uma pessoa, está matando toda a humanidade. Em nenhum ponto do Corão você vai ver pregada a violência, a não ser que seja em própria defesa.

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