Geral

É dando que se recebe

Padre Beto (*)
| Tempo de leitura: 4 min

Pouco depois de meu retorno do Brasil, Jakob, o caseiro do mosteiro onde vivo, convidou-me para umas boas vindas em sua oficina. Boas vindas no estilo bávaro significa um caneco de uma boa cerveja alemã. Em nossa conversa, Jakob lastimou por eu ter perdido a colheita do lúpulo. Lúpulo é a planta usada na Alemanha para a fabricação da cerveja. Até há um bom tempo atrás, pessoas de diferentes regiões da Alemanha e Europa vinham, no final de agosto, à Baviera para trabalhar na colheita do lúpulo. No final desta, acontecia então uma grande festa em todas as fazendas. Mais tarde, com a automatização no campo, as pessoas foram substituídas pelas grandes colheitadeiras e a festa deixou de acontecer. Mesmo assim, a colheita do lúpulo continua sendo um espetáculo bonito de se ver, nas igrejas cristãs continuam a ser celebradas missas e cultos em agradecimento à colheita e muitas festas acontecem neste período de agosto e setembro, como a conhecida Oktoberfest.

A festa da colheita cumpria três funções básicas nas culturas agrárias. A primeira era o agradecimento ao Criador, aos deuses ou à mãe terra pela fertilidade do solo e pelos frutos da natureza. A segunda função era o fortalecimento da consciência social. Através da festa, na qual todo o coletivo confraternizava-se, era expressada a necessidade da partilha. A colheita não é simplesmente uma propriedade privada do dono da fazenda, mas este deve possuir um compromisso social. Todos aqueles que trabalharam possuem o direito de usufruir dos frutos da terra e a propriedade privada só possui sua razão de ser quando ela beneficia o maior número possível de pessoas. A terceira função da festa da colheita era despertar o ser humano para a lei natural da partilha.

Através da colheita era sentido, de forma concreta, que a natureza assim como a vida humana são formadas de ciclos, de transformações que são impulsionados pela doação.

Com a confraternização da colheita fazia-se a despedida do outono e todos preparavam-se para o início do inverno. Somente com o término deste e a chegada da primavera aconteciam novas manifestações festivas. O outono era visto como a despedida da vida e a primavera como o ressurgir de um novo ciclo, a ressurreição. Na antigüidade a primavera era festejada por vários povos como o início, o nascimento do universo, o fim do caos e o começo de uma nova era. Já nos primórdios da história de Israel, a festa da Páscoa acontecia na primavera, no mês denominado de Nisan, escolhido para festejar a vitória de Javé sobre o dragão do caos e o dragão do poder: a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito. Também para nós cristãos, a primavera, desde a patrística, é um símbolo da ressurreição, da vitória de Jesus, o sol da justiça, sobre a escuridão da morte. A primavera é assim o símbolo da nova criação.

Sem dúvida alguma, nós, seres humanos, necessitamos de símbolos visíveis que possam nos oferecer impulsos de mudança, estímulos para uma transformação qualitativa de nossa vida. No Brasil, tanto a despedida do outono como a chegada da primavera não acontecem de modo tão radical como na Europa ou outras partes do mundo, mesmo assim a natureza, pelo menos no que se refere à primavera, oferece um espetáculo lindo de vida. Um espetáculo que nos convida a uma transformação em nossa alma, ou melhor, que nos convida a revigorarmos nossa anima, aquele impulso de vida que nos leva ao encontro com os outros e com o mundo. Com seu colorido, sua diversidade de flores, pássaros e insetos, a primavera expressa justamente uma presença de vivacidade e de doação gratuita. Na primavera a natureza entrega-se, doa-se totalmente e em uma de suas mais belas formas. Basta olharmos ao nosso redor para percebermos o apelo da natureza para um viver na gratuidade da vida. Quem dá ouvidos a este convite e propõe-se em seu cotidiano a fazer esta experiência de doação ao outro descobre um segredo importante da vida expressado na máxima da Oração de São Francisco: é dando que se recebe. Quanto mais vivermos a partilha desinteressada com o outro de pequenas e grandes coisas da vida, como o sorriso, um café, aquele abraço, uma ação solidária, enfim, quanto mais damos amor, mostramos solidariedade, distribuímos benquerença e praticamos o perdão, mais ganhamos como pessoa humana. Quanto mais saímos de nós mesmos e nos comunicamos com os outros, com a natureza, com situações diferentes e com Deus, mais chance temos de enriquecermo-nos em conhecimentos, em experiências e em valores. E principalmente quando somos solidários com aqueles que realmente pouco ou nada possuem, com os mais pobres e mais marginalizados, compreendemos que o Espírito se enriquece com aquilo que recebe. O coração com aquilo que dá (Victor Hugo). A primavera está aí para fazer eclodir em nós o impulso de vida nova, um convite para tornarmo-nos mais humanos e realmente detentores de uma alma, de uma anima. Basta procurarmos sermos mais sensível para estarmos em harmonia com a mãe natureza e vivermos com generosidade neste mundo fazendo de nossa história uma história de bem.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*) Especial para o JC Cultura

Comentários

Comentários