Enganam-se plenamente quantos considerem que aquela formosa copaíba, situada lá no fim da Getúlio Vargas, possa ter amigos que se contentem apenas em admirá-la à distância. Na verdade, ela está cercada de uma vultosa corrente de grandes amizades, com muitos bauruenses capazes de lutar bravamente pela sua integral preservação, inclusive agora quando não tem faltado gente propensa a atirá-la ao chão, em decorrência do projeto de prolongamento da artéria. Temos encontrado muitos de seus amigos, amigos verdadeiros. Um deles, ao final da missa deste domingo, na Catedral, abordou-nos, entusiasmado, sugerindo uma matéria em defesa daquele fruto da natureza. Por favor, Nadyr, estamos dentro de uma igreja e lhe peço encarecidamente que, por amor a Deus, faça valer a força de sua pena a fim de manter de pé aquela árvore que, por ser nativa, não foi plantada por mãos humanas e, por isso, não pode ser sacrificada pelos homens, disse-nos nosso abordante.
Tem sobras de razão o prezado professor universitário, que se tem notabilizado por ensinar aos seus alunos o dever de colaborar para a preservação da natureza. Não seja porque a copaíba esteja propensa a tombar por si mesmo, arcada como está, que se possa deixar que ela penda irremediavelmente desde já. Há jeito de conservá-la efetivamente e, então, por que não se adotar logo o que for necessário? Lembre-se que até a famosa Torre de Pisa está tendo a sua avantajada inclinação inteiramente contornada. Em visita que fizemos à Itália tentamos galgar os seus últimos andares e só pudemos chegar até ao 2.º porque a pronunciada postura oblíqua da obra nos impedia de continuar a ascensão, obrigando-nos a retornar ao solo. Agora, no entanto, após onze anos de obras e 24 milhões de dólares, a curiosa edificação, de 55 metros de altura, erguida em 1370, foi inteiramente restaurada, livrando-se dos seus 4,5 metros de inclinação.
Sabem o que fizeram? Decidiu-se pela extração de terra do lado oposto à parte vergada para que a torre cedesse na outra face. E deu certo. Logo, que se desentorte também por alguma forma o nosso querido arbusto que, se tivesse o dom da palavra, teria muita história para contar, a fim de que ele enverede para o oposto e o bauruense possa vê-lo erecto, altaneiro, sorrindo para os passantes e, conseqüentemente, livrando-se das ameaças que vem tendo. Poder-se-ia, certamente, repetir o milagre da torre, permitindo que a frondosa árvore continue empolgando os olhos da gente com sua beleza e a cabeça com a sua sombra.
Projeto, com tal finalidade, elaborado pelo Instituto Ambiental Vidágua, já foi oferecido à Prefeitura, conforme modelo estampado dia 8 em nosso jornal. Trata-se de projeto inteligente, tendo-se de formular então votos empenhados para que venha a ser adotado. Se não o for que se elabore outro, mas que de qualquer forma a bela copaíba não venha a se transformar em sete letras que chorem o seu desaparecimento. Ainda que estejamos nos reflexos do Finados, não desejamos que os sinos dobrem por sua morte. Que o façam, sim, pela sua salvação. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).