Rios baixando, águas esquentando e revoadas de insetos significam um momento excelente para a pesca com fly. Na matéria de hoje as principais orientações para esta pescaria, que ao contrário do que se pensa, é bem simples de ser executada.
A concepção do Fly implica em equipamentos específicos que façam a isca voar, daí seu nome. No início da primavera, os insetos aumentam a sua atividade tornando abundante este tipo de alimento natural para os peixes, pois as revoadas de cupins que são um banquete para os lambaris, ocorrem com bastante freqüência com as primeiras chuvas da nova estação.
Como o peixe possui um instinto natural de captura destes bichinhos, se lançarmos sobre a água um atrativo semelhante, com toda a certeza ele vai atacá-lo. Neste ponto, entra toda a técnica do Fly, cuja arte principal é atingir a perfeição de um inseto seja em forma, cor e movimento de descida na água.
As moscas secas, (dry fly) são o que podemos chamar de obras-primas de pacientes artesãos, que após um demorado estudo da anatomia dos insetos, conseguem com linhas, penas, borrachas e outros materiais, criar um atrativo tão perfeito que conseguem enganar as trutas, especialistas e seletivas ao extremo. Com sua ação sendo executada na superfície, rodando ao sabor da correnteza, são atrativas e irresistíveis para quem está dentro da água e com muita fome.
Se o lançamento for bem feito, ao peixe não restará outra alternativa senão atacá-la com vontade, coroando assim um trabalho que iniciou-se na observação e terminou numa imitação perfeita.
Quem deseja pescar com fly deve partir de um equipamento leve, com vara e linha número 5, moscas secas como isca e endereçar os lançamentos de forma suave e discreta para que o atrativo caia naturalmente na água. A potência do arremesso, conseguido com as linhas WF (Weight Forward) deve ser substituído pela elegância das DT (double tapper). Estas linhas possuem dois diâmetros em sua extensão e servem para os arremessos mais suaves e que proporcionam à isca uma queda ao sabor do vento, imitando perfeitamente o descontrole de um inseto verdadeiro ao cair na água.
Os arremessos da isca devem ser equilibrados, soltando-se a linha na fase descendente, num movimento quase perpendicular à cabeça do pescador.
Enquanto um arremesso potente implica na soltura da linha quase horizontalmente à água, com as DT a soltura deve ocorrer mais acima exatamente para que se consiga o efeito de zigue-zague da isca ao cair no ar.
Adquirida a prática, é hora de acompanhar a sua trajetória rio abaixo, ao sabor da correnteza como já dito, observando sempre a freqüência dos ataques. Os lambaris, desconfiados, começarão inicialmente a atacar um pouco abaixo ou acima da isca, exatamente para checar a sua atividade. Percebendo a checagem, é hora de puxar suavemente a isca, para que o peixe perceba que ela está de fato viva e tentando livrar-se da água. Aplicado este efeito, o ataque é fulminante proporcionando assim o enorme prazer que sentimos ao fisgar um peixe com isca que não é verdadeira, além de premiar toda a técnica empregada com este resultado final.
Fazendo tudo corretamente, não se compara a satisfação sentida com o recurso que repetimos, é um dos que podemos dispor nesta época com maior possibilidade de sucesso.
Iscas submersas
Quem acha que só os lambaris poderão ser pescados com fly engana-se, pois também os peixes predadores nesta época podem ser pegos com a técnica.
Enquanto na primeira situação deve imperar a sutileza, na pesca dos predadores as coisas mudam um pouco. Muitos pescadores acreditam que as linhas fly apenas flutuam e o que não é correto. Temos linhas que flutuam, mas com a extremidade realizando um trabalho de meia água, assim como linhas que afundam totalmente.
Como voltamos esta técnica para os tucunarés e traíras, por exemplo, o uso correto de cada linha vai depender da situação em que vamos pescar. Assim, em locais com profundidade média de três metros, devemos optar pelas linhas ST (Sink-Tip) onde apenas a ponta (1,8 metro em média) afunda. Quando a pesca é realizada em poços mais profundos, o correto é usar a linha S (sinking) onde temos a total imersão.
O acerto de cada escolha
Como buscamos os tucunarés e as traíras nesta técnica, na primavera ao contrário do inverno, podemos usar as mesmas linhas de superfície citadas, embora em algumas situações estes peixes estão dentro das tocas submersas, e não saem de jeito nenhum, salvo algum alevino não precavido que tenha a infelicidade de passar por perto.
Esta tarefa pode ser executada por uma isca streamer de meia água. Quando o atrativo passa perto, o ataque é imediato. Note que o peixe, muitas vezes, não sai do lugar. Ao contrário, aguarda a presa passar perto dele. Este trabalho é realizado com sucesso pelo fly através de movimentos ora suaves ora mais rápidos de recolhimento.
Os tucunarés por exemplo, em determinadas horas do dia, mais afugentam os invasores do seu território do que os atacam. Quando percebem a insistência do intruso, passando sempre no mesmo lugar, partem para o ataque fulminante. O pescador, ao realizar este trabalho com a sua isca, deve ter a paciência de irritá-lo, para que ele faça o ataque e por conseqüência proporcione o prazer tão desejado.
Com as traíras não é diferente e o movimento majestoso de um streamer as atrai com certeza e o ataque é inevitável. Lembramos que para os tucunarés, o recolhimento da linha deve ser feito um pouco mais rápido, para dar a impressão de um peixinho fugindo. Se você perceber um ataque sem que o tucunaré abocanhe a isca, é interessante marcar a distância e especificamente nesta área diminuir o recolhimento, dar suaves toques na linha para que a isca represente um trabalho de ataque ao peixe. Ele vai buscar defender-se do possível invasor, vai morder, puxar e brigar com vontade.
A mesma tática pode ser adotada com as traíras. É preciso provocá-las e aguardar o resultado.
Respeito à preservação
Quando elaboramos esta e outras matérias discutindo táticas de pescaria, temos a principal intenção de permitir ao pescador que vá aprimorando cada vez mais a sua técnica para pegar um peixe onde ninguém consegue pegar. Oferecer uma isca artificial e ter sucesso com ela onde ninguém acredita que vá dar resultado é o aprimoramento de uma técnica que fica melhor a cada dia.
O início da primavera não deixa de ser um momento excelente para desenvolver e aprender as técnicas. Por tudo isso, mais do que antes, é hora de pesquisar, aprender, praticar e principalmente soltar o peixe, nosso companheiro de aprendizado.