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Crime que compensa

(*) Marcos Cintra
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A classe média brasileira vive atualmente o que pode ser chamado de inferno astral. Como se não bastasse o processo de empobrecimento ao qual está submetida, esse estrato social se vê acuado frente à falência da segurança pública, fato que vem provocando a explosão dos casos de seqüestros envolvendo pessoas da classe média.

A natureza hedionda dos seqüestros, que estabelece um preço para a vida como se ela fosse uma mercadoria qualquer, soma-se agora à banalidade desse tipo de crime. É um delito que está ganhando novos contornos ao contar com criminosos cada vez mais inexperientes e vítimas menos ricas. São cada vez mais raros os seqüestros de pessoas afortunadas e as quadrilhas já não são tão especializadas como alguns anos atrás.

O economista e prêmio Nobel de Economia da Universidade de Chicago, Gary Becker, mostra em sua obra intitulada Crime e castigo: uma abordagem econômica que a ação do criminoso que visa obter vantagem material é precedida de um cálculo de risco/benefício. Para Gary Becker, o criminoso decide agir quando chega à conclusão de que o benefício de sua ação delituosa será maior que o risco que terá que correr. O criminoso conclui que poderá sair ileso, ou, se for preso, que o preço junto à sociedade não será tão alto.

À luz de Becker pode-se entender a queda no número de duas modalidades de crimes. Uma são os assaltos a bancos, que caíram em função da disseminação do dinheiro eletrônico, que esvaziou os caixas das agências, fazendo diminuir os benefícios frente ao risco associado a essa ação. A outra é a de roubos de carga, provocada em razão da difusão do sistema via satélite de rastreamento de caminhões, fator que aumentou o risco para essa modalidade de crime.

Com isso, os criminosos buscaram alternativas e a encontraram nos seqüestros de pessoas menos afortunadas, uma vez que a falência do sistema de segurança pública otimiza a relação risco/benefício para o seqüestrador.

O seqüestro hoje pode ocorrer a qualquer hora e em qualquer lugar, e pode durar apenas algumas horas até que o criminoso tenha êxito em seu empreendimento de retirar dinheiro da vítima em algum caixa eletrônico. Hoje, esse crime que antes envolvia milhões de dólares, é praticado para se roubar algumas centenas de reais.

A disseminação dos seqüestros envolvendo pessoas da classe média é mais um flagrante exemplo da falência da segurança pública no País. O criminoso vê nessa modalidade uma atividade rentável, cujo risco é baixo em função do esfacelamento de um serviço público típico, que deveria atuar no sentido de preservar o que cada um tem de mais precioso que é a vida. Mesmo pagando cada vez mais imposto, a classe média está cada vez mais à mercê dos criminosos.

(*) Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, 56, é doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA) e professor-titular e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas. É deputado federal pelo PFL/SP). Internet: ww.marcoscintra.org. E-Mail: mcintra@marcoscintra.org

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