Bin Laden está por um fio? Mas quem é Bin Laden? Não é só aquela figura que aparece meio anêmica, meio adoecida, muito magra, nas imagens da CNN. É mais do que isso. Ele é um monstro, o diabo, a encarnação do mal, o hiperchefe do hiperterrorismo, um mestre do marketing. Ele pode ser tudo, menos um indivíduo. Ninguém se refere a ele como um homem, portador de uma história pessoal e dotado de uma responsabilidade singular.
Bin Laden é um fantasma do poder absoluto. O contraponto do poder absoluto positivo apresentado na mídia pelos Estados Unidos, pelos que estão do lado certo na luta do bem contra o mal. Bin Laden é uma caracterização daquilo que não pertence no nosso código às condições do indivíduo. A outra face dos grandes movimentos mundiais como a globalização, que é o terrorismo planetário. É uma marca que você reconhece como os grandes grupos farmacêuticos internacionais, mas não sabe o nome do presidente da empresa. Bin Laden é o ícone do terrorismo globalizado, nascido do surgimento de uma sociedade globalizada. No dizer de Edgar Morin o terror-mundo contra a sociedade-mundo. Uma sociedade que aparece no decurso da última década, com a sua textura de comunicações (aviões, telefones, fax, Internet) multi-ramificadas por todos os cantos, que tem uma economia, de fato, globalizada, mas onde faltam controles de uma sociedade organizada.
Sua organização utiliza todas as redes já presentes na sociedade-mundo. Sua globalidade é perfeita. Sua guerra religiosa é uma guerra civil dentro da sociedade-mundo, define Edgar Morin. Morin talvez seja um dos sociólogos vivos mais prestigiados. Ele afirma que o século 20 montou a aliança entre duas barbáries. Uma, de destruições e massacres de fundo histórico. Outra, vinda do reino anônimo e oculto da técnica, de um pensamento que ignora tudo que não priorize o cálculo e o lucro. O binladismo constitui uma nova aliança das duas barbáries.
Mas a verdade é que a máquina de terror sem fronteiras, ramificada por todo mundo, é estimulada por imensas frustrações, desespero e ódio incomensuráveis e abastecida por um poder devastador, onde a violência mortífera pode utilizar os avanços mais sofisticados da indústria do extermínio.
O risco de catástrofe nuclear, bacteriológica, química que eram, até o momento hipotéticos, agora aparece visível, urgente. Todos esses perigos, segundo Edgar Morin, comportam a consciência de que a edificação de uma sociedade-mundo torna-se vital para responder ao terror-mundo. Uma política da civilização é a única resposta à guerra das civilizações. Sem que se encaminhe para a loucura da cruzada, da diabolização, do maniqueísmo cego - porque existe o mal dentro do bem e o bem dentro do mal. O espírito humano guarda em si os piores males a incompreensão, a ilusão, a loucura, a irracionalidade. Mas também pode guardar a possibilidade da racionalidade, da lucidez da compreensão, da compaixão.
No estado de barbárie do mundo não há solução atual que seja verdadeiramente virtuosa. Mas é preciso evitar o pior, adotar a boa direção: em direção à sociedade-mundo e à terra-pátria, afirma Edgar Morin. Diante do gigantismo dos desafios que estão postos, fica mesmo difícil identificar Ossama Bin Laden como indivíduo. Um ser humano.
(*) Fernando José Dias da Silva é jornalista da AE.