Geral

Natal e solidariedade

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

A felicidade parece estar presente com mais intensidade em dezembro do que nos demais meses. Isso faz com que este mês seja um dos períodos mais curiosos do ano, porque talvez seja o único que muda o comportamento da maioria das pessoas. É nesta época que as crianças estão em férias, que o comércio tem suas melhores vendas, que os trabalhadores esperam pelo 13.º salário, que há uma expectativa geral de que o próximo ano seja melhor... Também é em dezembro, que as pessoas se tornam mais solidárias. A constatação é geral: nos finais de ano, as pessoas se tornam mais sensíveis e dispostas a cooperar. O Natal, mesmo que nem sempre seja lembrado como uma comemoração religiosa para muitos, é tido como uma das razões dessa alegria que se percebe nas pessoas. Essa mudança de atitude nos finais de ano é, por um lado, um motivo de comemoração. Mas, infelizmente, também é um fato para se lamentar: seria muito bom se esse espírito de cooperação e solidariedade durasse o ano todo.

É nessa época que as instituições de caridade, que fazem campanha e aceitam doações durante o ano todo, recebem mais oferendas e ajuda. Todo mundo colabora nessa época, depois do ano-novo as doações caem de novo, afirma a auxiliar de administração e coordenadora geral da Sociedade de Proteção à Maternidade e a Criança, Lourdes T. C. Carvalho. Lucila Paula Bacci, assistente social da Vila Vicentina compartilha da mesma opinião: o espírito natalino faz com que as pessoas doem mais nesta época. Para Leopoldo Zanardi, um dos diretores do Centro Espírita Amor e Caridade (CEAC), instituição que todos os anos distribui centenas de cestas de Natal para famílias carentes, a história é idêntica: Conseguimos muito mais doações no final de ano, avalia.

Para os três, a principal razão desse aumento de generosidade é a força do simbolismo do Natal, que prega a confraternização e a solidariedade. As pessoas se deixam levar pelo espírito de Natal e fazem o que não fizeram o ano todo, lembra Lourdes Carvalho. A coordenadora acredita que, nesta época do ano, as pessoas que comemoram o nascimento de Jesus Cristo também se sentem como aniversariantes e, desse modo, têm o desejo de fazer uma festa. É como se cada um quisesse fazer um bolo e chamar todo mundo, por isso as doações aumentam, diz. Na opinião de Leopoldo Zanardi, o clima de envolvimento familiar, a união e a troca de presentes, comuns nessa época do ano, fazem com que as pessoas fiquem mais sensíveis às necessidades de quem é menos favorecido. Mas o diretor do CEAC lembra também que em dezembro as pessoas têm um pouco mais de dinheiro por conta do 13.º salário. O fator econômico também ajuda, comenta. Lucila Bacci pensa da mesma maneira. Por causa do 13.º, aumentam as doações de cestas, panetones e até as doações em dinheiro mesmo, explica. A assistente social conta também que só neste mês, já foram realizadas seis festinhas, com os moradores da Vila. Festinhas é como eles chamam as reuniões organizadas por pessoas que pretendem trazer um pouco de alegria para os idosos do local. Eles trazem as comidas e bebidas e fazem uma festa para todos, diz. Nos outros meses do ano, a freqüência de eventos parecidos é bem menor.

Apesar de agradecer os esforços e a ajuda de todos os que colaboraram com a Vila Vicentina durante o ano e, principalmente em dezembro, Lucila Bacci lembra que, além da ajuda material, é importante que as pessoas compareçam também para mostrar o quanto se importam. A atenção é muito importante para os idosos que moram aqui, por isso a população poderia vir mais aqui para conversar com eles, que foram esquecidos pelas famílias.

Natal permanente

Segundo o diretor do CEAC Leopoldo Zanardi, o clima que o Natal traz é tão positivo em tantos sentidos que deveria durar o ano todo. A gente sempre fala nas nossas exposições que o Natal deveria ser permanente para que as pessoas se sensibilizassem o ano todo com a pobreza e a fome dos outros, declara. Para Zanardi, o ideal seria que as pessoas, além de fazer doações, realmente acolhesse os que precisam como irmãos: O Natal é uma época de confraternização, mas quem chama alguém para dividir consigo a ceia? Precisamos conviver como se fossemos irmãos, o pobre, o doente, a criança de rua, os rejeitados, todos, acredita.

Momento de reflexão

Para a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, o Natal é, realmente, uma época que propicia uma reflexão maior nas pessoas por causa de seus rituais, como a troca de presentes, como afirma Leopoldo Zanardi. As pessoas entram no espírito e isso desperta a solidariedade e o desejo de ajudar nelas, diz. Na opinião da psicóloga, essa reflexão é que faz com que as pessoas se ajudem mais. Além disso, o fim de ano, para Maria Regina Vanin, é normalmente uma época na qual as pessoas pensam mais em renovação porque o novo ano se aproxima. Nesse período, muita gente pensa em arrumar sua vida, suas coisas, há um espírito de renovação que também faz automaticamente com que hajam mais doações.

A psicóloga não acredita que a onda de amor ao próximo, que chega nos finais de ano, seja fruto de algum peso na consciência de quem não fez nenhuma caridade durante o ano. Existem pessoas que são voluntárias o ano todo e também trabalham em dezembro, da mesma maneira que existem as que não fazem nada por alguém o ano todo. Não creio que as pessoas que são solidárias, de um modo geral, sintam algum tipo de culpa, avalia.

Por que você fez uma doação?

Muita gente nem tem o que comer nesse fim de ano. É triste saber que, em casa, a gente vai estar festejando, bebendo, enquanto muitas pessoas vão passar fome, explica a estagiária Aline Cristina Sala, que doou, com a família, três cestas básicas para uma instituição de caridade. Nunca tinha feito nada nesse sentido antes por falta de oportunidade. Este ano não deixei passar. Pena que nós não pudemos doar mais, completa. Após fazer a doação, pessoalmente, a estagiária disse que se sentiu muito feliz. Uma criança que estava perto me agradeceu sem que ninguém tivesse dito nada a ela e isso me deixou muito emocionada, conta.

O comerciante Luis P. A.*, já tem um histórico de doações de fim de ano. Desde 1991, ele faz uma doação de alimentos, que arrecada com amigos, parentes e colegas de serviço, para uma creche. As doações começaram por insistência da sua mãe. Ela sempre falava que a gente tinha que ajudar os mais necessitados mas, na correria do dia-a-dia, é difícil colocar isso em prática, explica. Essa história começou a mudar quando sua mãe juntou várias doações por conta própria para doar. Ela nem saia de casa, tudo o que conseguiu foi por telefone. Como ela não tinha condições de conseguir mais eu a ajudei, lembra. Com a morte da mãe, Luis continuou a fazer a campanha de fim de ano. Hoje faço por homenagem à minha mãe e porque sei que estou ajudando algumas pequenas pessoas e ter uma vidinha melhor, define.

(*) O entrevistado preferiu não se identificar

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