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Bóias-frias denunciam turmeiros

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Cortadores de cana que vieram de Minas se dizem enganados por turmeiros que não estariam cumprindo promessa

Itapuí - Um grupo de 19 trabalhadores rurais mineiros, alojados em Itapuí, está retornando à cidade de origem. Na bagagem, muita desilusão e pouco dinheiro. Depois de seis meses trabalhando no corte da cana-de-açúcar, eles se dizem inconformados com as más condições de trabalho e com o atraso no pagamento dos salários. A questão financeira, aliás, foi a que mais desagradou os trabalhadores mineiros. Eles alegam que praticamente nenhuma promessa feita antes do início da safra foi cumprida pela empresa que os contratou para o serviço.

Acostumados com o trabalho nos canaviais paulistas, o grupo deixou Minas Novas, uma pequena cidade no sertão mineiro, em julho passado e desembarcaram em Pederneiras, onde deveriam trabalhar na safra deste ano. Dois meses depois da chegada a Pederneiras, o grupo recebeu propostas para trabalhar para uma empresa de Jaú. Na teoria, as condições de trabalho e o salário seriam melhores do que o oferecido em Pederneiras. Na prática, os trabalhadores dizem que a troca acabou não sendo vantajosa.

O lavrador Geraldo Aparecido Soares, 33 anos, um dos trabalhadores alojados em Itapuí, conta que, ao serem contatados por turmeiros, eles geralmente ouvem mil promessas, que depois dificilmente são cumpridas. Turmeiro é como ficou conhecida a pessoa que reúne um grupo de bóias-frias para trabalhar nos canaviais, durante a safra.

Normalmente, a colheita é feita por empresas terceirizadas, às quais ficam vinculados os trabalhadores contratados. Hoje, não é mais comum encontrar usinas que contratam bóias-frias de forma direta. Essa função foi terceirizada.

Segundo Soares, a empresa Central Terceirizações, com sede em Jaú, prometeu providenciar alojamento e equipamentos de segurança.

De acordo com os trabalhadores mineiros, de todas as promessas, a empresa teria cedido apenas as camas e os colchões. O aluguel do alojamento (cerca de R$ 250), a conta da energia elétrica e da água acabaram sendo descontados do salário deles e os equipamentos (botas, luvas, facão etc) tiveram que ser comprados pelos próprios trabalhadores, segundo informaram à reportagem.

Eles reclamam ainda que não havia transparência na hora de saber quanto cada trabalhador tinha produzido no fim de cada dia. Segundo Soares, a empresa não informava aos trabalhadores o quanto de cana eles haviam cortado, o que os impossibilitavam de saber quanto teriam para receber como salário, no início do mês.

Normalmente, as empresas informam, no fim de cada dia trabalhado, a metragem de cana que cada trabalhador conseguiu cortar. Ao somar o total produzido com o valor pago pelo metro de cana o trabalhador rural é capaz de saber quanto tem para receber da empresa. Sem essa informação, abre-se uma brecha para que o empregado receba um salário que nem sempre representa a produção real.

Apesar de ficar abaixo do que os mineiros esperavam receber, os salários de setembro e outubro foram pagos em dia. O descontentamento aumentou quando o pagamento de novembro e o acerto final atrasaram.

Como o serviço terminou no dia 15, os trabalhadores esperavam receber o acerto salarial no dia seguinte. Depois de muita conversa o cheque foi entregue por Armando Cardoso, o turmeiro de Itapuí que contratou os mineiros, na sexta-feira passada. Com o dinheiro, eles pretendiam comprar a passagem de volta para Minas Novas, a cerca de 1,5 mil quilômetros de distância de Itapuí.

Cada passagem custa aproximadamente R$ 100, somando todas as baldeações até o destino final. Não existe uma linha de ônibus direta para a cidade de Minas Novas, no vale do Jequitinhonha, a não ser quando o ônibus é fretado. Em razão do alto custo das passagens, alguns trabalhadores tiveram até mesmo que recorrer a colegas para conseguir comprá-las e garantir o início de um novo ano ao lado da família.

A reportagem tentou entrar em contato com a Central Terceirizações, mas ninguém na empresa atendeu às ligações.

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