Geral

O motor da existência

(*) Jayme Vita Roso
| Tempo de leitura: 3 min

Assiste-se, nos dias que seguiram ao 11 de setembro, a uma série de atitudes e comportamentos de dirigentes dos países do G-8, que mostram uma nova visão das chamadas democracias liberais e seu relacionamento com o mundo, ou melhor, com os cidadãos do mundo. Há um consenso mundial de que o terrorismo é uma traição aos padrões vigentes nas sociedades neoliberais.Não se coloca que o terrorismo em si seja uma covardia contra os cidadãos que pagam até com a vida, por serem eles partes de um país que se mostra infenso ou indiferente aos outros, de outras bandas. Não dá chance para defesa o terrorismo a quem por ele é golpeado. Por isso, quando ataca, a surpresa que causa leva ao terror, que é alimentado pela imprensa, sempre algoz do bom-senso e da veracidade, à qual fica a dever por estar atada aos interesses de quem a patrocina, seja quem for. Mas não se buscam com tranqüilidade e, sobretudo, com imparcialidade as causas remotas da existência do terrorismo em escala mundial, menos os seus atores, mas apenas alguns dos seus mentores.

Se levarmos as inquietações para o palco do cenário nacional, o quadro é inquietador. Temos visto uma sociedade abúlica, egoísta e perversa, que agora, frente ao crescendo da violência, começa farisaicamente sustentando que conseguimos conquistas importantes, por isso se multiplicam manifestações de trabalhos, porque a empresa tem responsabilidade social (desde que existam incentivos fiscais ou reduções de impostos). Parece óbvio que os empresários estão cegos ao conceito de liberdade de expressão, quando a elite que ocupa os Ministérios inibe a formação de líderes estudantis, deixando de criar uma massa crítica formada em universidades públicas ou quando o presidente da República veta a lei que obriga as escolas públicas a manterem as disciplinas de filosofia e sociologia. De um lado, o controle da inflação vem sendo manipulado com forte política de desaquecimento da economia, lançando 50 milhões de patrícios à marginalização social, como mostrou estudo da FGV, em julho deste ano. Ora, com isso, não se pode falar em melhoria dos índices sociais, pois não se pode conceber a falta de aplicação de recursos em saneamento básico e as habitações, que são construídas, não passam de aglomerados ou amontoados de prédios sem respeito ao meio ambiente e sem criar áreas verdes, afora os crônicos casos de corrupção quando são executados.

Fator essencial é que a CPI das construtoras nunca chegou a ser instalada e nunca se fizeram rigorosas auditorias nas contabilidades das construtoras e, menos ainda, a ninguém interessa uma séria auditoria nos preços das obras públicas e nos escandalosos aditivos contratuais (em Campinas, por exemplo, há casos escabrosos de corrupção que nunca foram julgados ou foram mal instruídos para cair na vala do esquecimento; o incremento do preço do Rodoanel é também uma ofensa à miséria). Todos esses fatores, individualizados ou não, concorrentes ou não, têm conduzido, universalmente, à diminuição da qualidade dos serviços e ao aumento dos seus preços; quando não, à selvagem destruição dos veros ideais, para ser preservada a sobrevivência. Em suma, quando o dinheiro passa a ser o motor da existência, unicamente ele, perdem-se os ideais, degradam-se os valores, a ética fica marginalizada.

Até George Soros reconhece que a sociedade deve buscar valores transcendentes, se quiser sobreviver no mundo globalizado. Em entrevista ao hebdomadário italiano Capital, respondendo à pergunta: A sua batalha para uma sociedade aberta vai adiante ou retrocede?, disse: Quando se combate pela liberdade ou pela sociedade aberta não se pode mais perder. Esta é a diferença entre operar nos mercados financeiros, que são pela própria natureza amoral e bater-se pela sociedade aberta, onde a moralidade é a base de tudo. O raciocínio nos leva a concluir que as ausências de moral coletiva e de ética individual estão produzindo ou são a causa matriz dos males da sociedade moderna, concentrada que está, mesmo absorvida, no dinheiro.

(*) Jayme Vita Roso é advogado e Conselheiro da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB)

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