Regional

Pesquisador defende redução de lixo

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 7 min

São Carlos - O ecólogo Paulo Henrique Peira Ruffino, coordenador Técnico de Meio Ambiente do Senac de São Carlos, acredita no esgotamento do modelo de coleta para fins de reciclagem e que visa criar colocação profissional para pessoas marginalizadas. Em se confirmando suas previsões, o problema com as 150 toneladas diárias despejadas no aterro sanitário municipal não apresentará grandes alterações com a coleta seletiva convencional. Sua tese é de que as políticas públicas municipais devem dar prioridade para a educação ambiental na comunidade para a diminuição do montante de lixo produzido.

Pergunta – Que modelo de coleta seletiva você entende ser possível de implantação na cidade e quais os resultados? Paulo Ruffino – Pela experiência que temos hoje, acredito que tudo pode ser feito com qualquer ênfase. O Poder instituído é capaz de propor e assumir esta função, temos pessoas competentes nos diversos segmentos que estão discutindo a questão mas, infelizmente, ao meu modo de ver, a ênfase que se apresenta mais possível de ser implementada parece ser a que tem apelo social para a questão de resíduos. É a ênfase que nacionalmente mais principia o processo de coleta seletiva e que, a médio - longo prazo parece ser a mais difícil de manter, se considerarmos a filosofia pretendida que é a minimização de produção e não o descarte consciente, que gera empregos aos menos favorecidos.

Pergunta – Qual o impacto de uma coleta seletiva na diminuição do total de lixo produzido em São Carlos? Paulo Ruffino – Pelos dados obtidos, se retirados os recicláveis secos direto do lixo sem compactação, teríamos uma baixa média de aproveitamento. O que se precisa considerar é qual o nível de educação ambiental pretendido e custeado para se implantar a coleta seletiva. Se não houver este processo ou se o mesmo se ater em “ensinar” a população a dispor seletivamente seus resíduos dificilmente retornaremos à mesma população para novamente mudar seus hábitos de modo a reduzir a produção. Estamos em um momento crucial e de tomada de decisão que significa: ou assumimos que somos produtores de resíduos em excesso e passamos a reduzir e readequar nossas necessidades, ou daqui a dez anos estaremos como os norte-americanos e europeus, refazendo políticas públicas e modelos econômicos e estimulando a volta aos produtos retornáveis.

Pergunta – Sua proposta para análise é implantar nas escolas da cidade? Paulo Ruffino – A proposta educacional é basear práticas e tomadas de atitudes junto às unidades escolares pois o entendimento e confiabilidade junto à sociedade é maior e, “é de pequeno que se torce o galho”. Quanto antes iniciarmos o processo educativo, maior será a responsabilidade destes atores. Acreditamos que a comunidade escolar atinge de maneira mais profunda as propostas de mudança de valores e que, as mesmas possuem infra-estrutura a princípio desvinculada da política municipal e estadual, o que garante a sobrevida do processo independente de vontade partidária.

Pergunta – Quantas pessoas estariam envolvidas - alunos, professores e funcionários? Paulo Ruffino – Deve-se priorizar a formação, capacitação dos docentes e funcionários em um primeiro momento, pois são eles os educadores diretos e indiretos aos alunos dentro do espaço escolar. Devemos lembrar também que, grande parte dos alunos que freqüentam unidades escolares públicas encontram nas mesmas, às vezes, a única oportunidade de vida e, só por este motivo, a experiência que adquirem, seja experiências boas (profissionalizantes e educadoras), sejam as experiências más (drogas, delinqüência e outras), persistirão com estes indivíduos por grande parte da vida.

Pergunta – Que resultados foram obtidos com sua amostragem? Paulo Ruffino – Os resultados dão conta de que, com poucos recursos consegue-se motivar os docentes e funcionários para este novo ideal que é a conservação de recursos e a melhoria da qualidade de vida. Falta, no entanto garantir recursos ou vontade institucional da Educação para que o processo não seja desestimulado e parado. Neste ponto, os professores e funcionários devem juntamente com pais e comunidade escolar serem agraciados com contínuas informações, cursos e atualizações das atuais políticas e das atuais possibilidades que estão inseridas no mundo da educação. Este empreendimento deve também exigir destes atores suas responsabilidades enquanto educadores, cidadãos e pais.

Pergunta – Que estrutura o município precisaria dispor para aplicar sua proposta? Paulo Ruffino – O município deve necessariamente compor um quadro de educadores e técnicos da área ambiental que escolham de maneira estratégica áreas piloto de capacitação de professores e implantação de infra-estrutura mínima junto às unidades escolares. Feito isto e obtido os primeiros resultados positivos, a propaganda e a própria motivação da comunidade ativa facilitará o processo junto a outros setores urbanos.

Pergunta – Que conceitos precisam ser levados para professores para que eles consigam motivar alunos? Paulo Ruffino – Aos professores não deve ser levado conceitos e sim trabalhados e relembrados princípios de cidadania que passam por compreensão dos atuais problemas ambientais, identificação de responsabilidades individuais e coletivas e, a ação propriamente dita, que partirá de uma comunidade e não mais de um único indivíduo.

Pergunta – Quanto tempo você avalia seria necessário para o processo engrenar ? Paulo Ruffino – Não são necessários mais do que três anos para se notar mudanças comportamentais de grande contribuição à pressão que causamos no meio.

Pergunta – Do que você estudou a respeito do perfil do lixo e, em especial, o potencial para reciclagem, qual é a realidade hoje da cidade? Paulo Ruffino – Para o bairro em questão, São Carlos V, que, pelo perfil sócio econômico elaborado, apresenta qualidade de vida entre classe média baixa ou baixa com renda per capta de quase R$ 200,00/mês (família em média recebe R$ 800,00/mês), temos que o potencial de reciclagem para resíduos retirados diretamente do lixo, isto é, que foram dispostos sem seleção prévia, compõem aproximadamente 13%. Este percentual é relativo aos recicláveis secos (plásticos, papéis, metais e vidro) que são o grande alvo da mídia e dos empreendimentos para fins econômicos. Se considerarmos hoje que a realidade estudada reflete uma razoável parcela da população urbana (bairros adjacentes e outros), um programa de coleta seletiva municipal ou privado talvez não se sustentasse economicamente com a produção o que nos remete a questão essencial da temática que é: gerenciamento de resíduos deve priorizar a não geração dos mesmos e não o encaminhamento para processos de reciclagem.

Pergunta – Quantas toneladas de lixo orgânico, possíveis de serem recicladas, são produzidas diariamente em São Carlos? Paulo Ruffino – Pelos estudos de 1989, para São Carlos a média de matéria orgânica contida nos resíduos sólidos domiciliares era de aproximadamente 53% do total produzido. No estudo efetuado em 2001 para o Bairro São Carlos V, a média de produção de matéria orgânica passou a casa dos 60% do peso total. Se consideramos hoje que estão sendo encaminhados cerca de 150 toneladas/dia de resíduos sólidos domiciliares ao Aterro Sanitário Municipal, e consideramos as médias de São Carlos e a média nacional, teremos cerca de 75 toneladas de resíduos orgânicos sendo aterradas sem aproveitamento algum. É sabido também que há técnicas baratas e eficientes de compostagem desta matéria que deveria ser coletada já de maneira seletiva. Infelizmente o que se vê e se apresenta de proposições para as coletas seletivas somente priorizam os recicláveis secos e, descartam a possibilidade de coleta e processamento do material de maior potencial de degradação ambiental que é a matéria orgânica úmida.

Pergunta – Como esse material vem sendo alocado pelo poder municipal? Paulo Ruffino – De maneira homogênea e contínua no aterro sanitário municipal. Seria interessante aqui explicar que: os aterros sanitários são estruturas de engenharia caras e com grandes aparatos técnicos que procuram atenuar ou eliminar riscos ambientais. Estes aparatos todos são de maneira geral obrigatórios essencialmente devido à matéria orgânica presente nos resíduos pois, as mesmas em decomposição produzem gases e chorume (líqüido escuro e viscoso rico em matéria orgânica e com alto teor de contaminação de águas superficiais e subterrâneas).

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