Geral

Walter quer cidade administrativa

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 12 min

O presidente da Câmara Municipal, vereador Walter Costa (PPS), acredita que Bauru precisa de uma área reservada especialmente para abrigar suas repartições públicas, um centro administrativo “que abrigaria a Câmara Municipal, a Prefeitura Municipal, o Fórum, a Polícia Federal, ou seja, um espaço reservado para todas as repartições públicas que existem aqui e que quisessem ir para lá”, explica. De acordo com o presidente, essa mudança facilitaria muito a vida dos cidadãos. Além disso, possibilitaria que a Câmara Municipal saísse do prédio que ocupa atualmente, no Centro da cidade. Na entrevista a seguir, Costa revela que o prefeito Nilson Costa também considera a criação da cidade administrativa uma boa idéia e já está procurando um terreno para que a mudança seja possível. Informações extra-oficiais, não confirmadas por Costa, apontam para uma área próxima ao Hospital Regional, doada a uma entidade, que a Prefeitura estaria tentando reaver. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - O senhor tem fama de genioso, mas é muito admirado pelos servidores da Câmara... Walter Costa - Nunca fiz mal a ninguém, por isso ninguém tem motivo para ter inimizade comigo. Sempre atendo todos muito bem. A única coisa que eu não tolero é demagogia. Principalmente de sindicatos que vêm aqui para defender alguma coisa referente à classe. Eles só vêm nessa hora, quando precisam e querem fazer bagunça, e eu não deixo fazer bagunça. Obedeço cegamente o regimento interno. Por isso acham que eu tenho a fama de prepotente, mas não sou assim.

JC - Os servidores da Câmara tiveram um aumento salarial de 12%. O senhor recebeu críticas por isso? Costa - Só não dei uma porcentagem maior por causa da Lei de Responsabilidade Fiscal, que determina o máximo 70% da folha. Cheguei até 69%. Eu tenho pressentimento que o próprio prefeito não deve ter gostado muito, porque ele não podia fazer o mesmo. Ele só não fez isso porque não podia, a folha de pagamento dele já estava comprometida a mais, a minha não. O que eu fiz foi obedecer uma determinação constitucional, e não foi aumento que eu fiz, foi uma revisão salarial.

JC - E a compra dos computadores, o senhor foi criticado por isso? Costa - Meu Deus! Nós estamos numa era na qual se você não evoluir junto com a informática, fica para trás. Eu não estou fazendo isso para mim, estou fazendo para a Câmara, para dar condições de trabalho para os funcionários e vereadores. Não estou fazendo nada para mim. E outra, tudo isso é feito na maior honestidade, é cristalino, transparente, com licitação, com comissão de licitação examinando tudo. Eu não faço nada aqui fora da legalidade.

JC - Quais serão os próximos investimentos da Câmara? Costa - Serão para a TV Câmara. Até mais tardar, em março, o sinal já vai estar aberto. Eu me orgulho em dizer que a TV Câmara aqui em Bauru foi a primeira desse tipo no Brasil. Agora, com sinal aberto, provavelmente, será a primeira da América Latina.

JC - Vai ser construído um anexo para a instalação da emissora? Costa - Nós pretendemos fazer um anexo ao lado, porque as nossas instalações são pequenas e vão ficar ainda mais apertadas. Nós vamos além. Provavelmente, vamos ter a Rádio Câmara também, há 90% de probabilidade de conseguirmos uma AM.

JC - Existe um prazo para isso? Costa - Acredito que até o meio do ano, antes do recesso, teremos a rádio no ar.

JC - O senhor ainda defende a mudança do prédio do Legislativo? Costa - Nós estamos aqui sem condições nenhuma, não temos espaço para arquivos, para se ter uma idéia. Não temos espaço para a rádio, para a tevê e nós temos que dar um jeito. No meu ponto de vista, a Câmara tem que sair daqui. Entregamos o prédio para a Prefeitura e eles fazem o que quiserem dele, uma área cultural, uma biblioteca municipal. A Prefeitura paga uma fortuna de aluguel por aí, com um prédio desse na região central muita coisa poderia ser feita. Eu sugeri há muito tempo atrás para um prefeito, que se construísse em Bauru, a exemplo de Curitiba e Campo Grande, um centro administrativo, uma cidade administrativa. Seria um terreno grande, que abrigaria a Câmara Municipal, o Paço Municipal, o Fórum, a Polícia Federal, ou seja, um espaço reservado para todas as repartições públicas que existem aqui e que quisessem ir para lá. Isso iria favorecer bastante a população que, quando precisasse de alguma coisa, faria tudo num lugar só. Hoje, se alguém precisa ir ao Fórum, vai na Bela Vista, a Prefeitura fica nos Altos da Cidade, as Secretarias Municipais estão cada uma num ponto. Isso é ruim para a população. É preciso haver um centro administrativo com todos esses setores, seria uma maravilha para Bauru.

JC - Mas existe algum projeto em andamento nesse sentido? Costa - O prefeito Nilson Costa viu essa idéia com bons olhos e já está procurando uma área para isso.

JC - Esse é o seu último ano como presidente da Câmara. O senhor já tem um candidato para ocupar a sua vaga na presidência? Costa - Tenho, é o Roberto Bueno, que é o atual vice-presidente e que tem me ajudado bastante. Inclusive, dei a parte administrativa para ele coordenar porque é muita coisa para fazer e o presidente não pode abraçar tudo sozinho, senão não faz nada certo. Eu teria ele como presidente e acho que quase todos aqui também.

JC - Como o senhor se auto-avaliaria? Costa - Eu gostaria que essa pergunta fosse feita aos vereadores e aos funcionários também. O que eu posso garantir é que faço tudo dentro da lei, tudo dentro “dos conformes”, não me meto em diretoria nenhuma, não me meto no trabalho do vereador, procuro ajudar o trabalho do vereador, seja de qual partido for.

JC - Como o senhor avalia o governo Nilson Costa? Costa - A gente tem que convir que ele pegou a Prefeitura arrebentada, sucateada, que veio de uma administração um tanto tumultuada, tanto que o ex-prefeito está preso até hoje. Ele pegou isso aqui um caos e equilibrou as finanças, o ex-prefeito pagava o funcionário em duas vezes, três vezes, o que era um crime. Desde o primeiro mês que o Nilson está lá ele paga o funcionário em dia, o décimo terceiro salário era pago em parcelas, hoje é pago em dia. Acho que o servidor poderá fazer alguma reclamação por não ter tido aumento, mas o prefeito não pode dar porque tem a folha comprometida.

JC - Qual a principal reclamação das pessoas que vêm até a Câmara conversar com os vereadores? Costa - Essa buraqueira que está aí e isso não é culpa do prefeito. O asfalto de Bauru está comprometido porque tem mais de 30 anos e não adianta tapar buracos. Tem que recapear ou tirar tudo e asfaltar de novo.

JC - Como é o atendimento ao público na Câmara Costa - É feito abertamente. É lógico que a pessoa tem que se identificar, porque isso aqui é a casa do povo, mas não é a “casa da sogra”.

JC - Mas não há nenhum tipo de restrição? Costa - Não, qualquer pessoa pode chegar aqui e dizer: “quero falar com tal vereador”. Essa pessoa vai receber um crachá e entrar para falar com o vereador. O que acontecia? Por que organizamos? O principal motivo é que vinham desocupados aqui que diziam que queriam falar com tal vereador, mas vinham para pedir dinheiro para vereador. Isso nós disciplinamos realmente. Tem o problema de segurança também. Chegamos ao cúmulo de alguém colocar uma escuta na sala do presidente, isso é absurdo. Então, a gente tem que ter cautela em muitas atitudes.

JC - O senhor tem algum problema com algum partido na Câmara? Costa - De forma nenhuma. Meu relacionamento com todos os vereadores, de qualquer partido, é excepcional, muito bom. JC - O senhor não está um pouco afastado do PPS? Costa - Não, de forma nenhuma. O PPS é meu partido. Não tenho queixas e ressalvas a fazer.

JC - Por estarmos em um ano eleitoral, o senhor acredita que o comportamento dos vereadores, a partir de amanhã, vai ser diferente? Costa - Vai mudar muito, porque temos um palanque aqui e todos os vereadores deverão ter interesse político de prestigiar algum candidato. Todos vão ter interesse, então vai ser uma guerra por causa do palanque, principalmente com a tevê no sinal aberto.

JC - E a quantidade de projetos apresentados, o senhor acha que vai crescer esse ano? Costa - No geral, o volume de trabalho aqui já é bom. Os vereadores, sem exceção, são muito bons, eles trabalham - nesse caso - para apresentar requerimentos, indicações de projetos de lei, tudo. Eles trabalham mesmo.

JC - O senhor acha que o Legislativo está fiscalizando o Executivo corretamente? Costa - Fiscaliza até demais, na minha opinião. Até vereadores da situação cobram o prefeito.

JC - O senhor acredita que Bauru elegerá algum deputado? Costa - Se continuar da forma que está, não vai eleger nenhum. Existem muitos candidatos. Por exemplo, meu amigo Pedro Tobias - me orgulho em dizer isso -, ele vai precisa de muito voto no partido em que ele está, não aquela quantidade que ele teve da primeira vez. Ele não vai se eleger deputado com menos de 55, 60 mil votos. O Carlos Braga, a mesma coisa. Não está fácil, não.

JC - O senhor não acredita que possa haver um acordo para que as candidaturas se concentrem em pouquíssimos nomes para facilitar a disputa, pelo bem da cidade? Costa - Pelo bem da cidade seria o caso, mas de que forma isso vai ser feito com tantos partidos como nos temos e tantos interesses como se tem hoje, principalmente de gente que quer ser candidato. A verdade é uma só: todo vereador quando eleito - e eu me incluo nisso - fala que vai fazer o possível, que vai fazer um bom trabalho, para poder ser candidato a prefeito, a deputado, já entra sonhando. O vereador que disser que isso é mentira vai estar com papo-furado.

JC - O caso da escuta que foi descoberta na sua sala ainda não foi resolvido? Costa - Não, está na Seccional. Abrimos uma comissão de sindicância e, baseado nos depoimentos que colhemos nessa sindicância, o delegado está chamando as pessoas para serem ouvidas. Eu mesmo fui o primeiro a ser ouvido.

JC - O senhor continua defendendo o afastamento dos funcionários envolvidos ou a cassação de algum vereador, caso alguma coisa seja provada no futuro contra eles? Costa - Quem fez isso, se for vereador, tem que ser cassado, se for servidor, tem que se punido, vai para a rua e vai responder processo, sim.

JC - O senhor tem algum suspeito? Costa - Não... Também não sei qual teria sido o objetivo dessa gravação, dessa escuta. Às vezes a gente pensa que é uma coisa, e é outra.

JC - Na época, o senhor se desentendeu com o vereador Milton Dota. Era algo relacionado a isso? Costa - Não. O Milton Dota era do meu partido e ele e o Clemente Rezende não votaram em mim para presidente. Não achei ruim isso, cada um tem o direito de votar em quem quiser. Não tive nenhuma encrenca com o Dota, foi ele quem alegou que no meu depoimento na comissão de sindicância eu falei qualquer coisa que envolveria o nome dele e eu não falei. Ele saiu do partido por isso, quer dizer, apresentou esse argumento, mas não acredito que foi por isso.

JC - O senhor disse que todo vereador entra na Câmara com um sonho. Qual é o seu? Costa - O meu sonho é terminar a minha gestão fazendo um bom trabalho, fazendo aquilo que eu posso fazer dentro dos meus limites, mais nada. Não tenho pretensão de ser deputado, prefeito...

JC - Por que não? Costa - Eu não tenho condições financeiras para nada e aquele que se mete numa empreitada dessas sem condições financeiras vai cair no ridículo, porque precisa gastar e o partido não ajuda o candidato. Por que vou me meter, só para dizer que fui candidato? Mas sonhos todo mundo têm e se eu tivesse condições financeiras equilibradas eu tentaria ser candidato a deputado, a prefeito, mas não tenho condições. Eu me julgo muito pequeno para isso, no que diz respeito a finanças.

JC - O senhor não vai mais concorrer à Câmara? Costa - Se tiver saúde eu posso continuar, porque a eleição na qual eu não me elegi eu estava arrebentado em função daquele problema com o Izzo. Aquilo me deixou doente e só não morri de sorte. Fui muito mal para São Paulo para ser operado com uma hemorragia nasal em função da tensão nervosa. Eu não tive condições de trabalhar naquela campanha, não entreguei um santinho. Não tinha coragem de pedir um voto. O Izzo me fez passar um pedaço que eu nunca passei na minha vida. Sou vereador há 24 anos e não tenho um imóvel, um terreninho, a não ser o do cemitério, que foi deixado pelo meu pai. Não tenho nada na vida e o cara vem com uma denúncia daquela, mentirosa, tanto que ele foi condenado a três anos por isso. Arrebentou com a minha vida. Só me candidatei dessa última vez porque estava bem de saúde. Ele está preso e eu estou aqui e sou presidente. Não há eleição mais difícil de ganhar do que a de presidente da Câmara, porque envolve o interesse de 21 homens que, com raríssimas exceções, querem a mesma coisa.

Comentários

Comentários