Saúde

Dengue ainda é menosprezada

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 5 min

As pessoas ainda não vêem a dengue como uma doença perigosa e que pode até matar. Isso dificulta o trabalho do município no controle da epidemia. A falta de conscientização em manter as residências livres de criadouros do Aedes aegypti faz com que os números de casos confirmados continuem crescendo em Bauru.

A médica infectologista Maristela Pastore Oliveira disse que essa conscientização é fundamental para que os casos de dengue diminuam na cidade.

Maristela explicou que a dengue é uma doença de sintomas comuns a outras doenças. A febre, dores no corpo e dores de cabeça, por exemplo, podem ser confundidas com uma gripe, mas é preciso lembrar que a gripe causa também tosse, dor na garganta ou no ouvido. Esses sintomas podem diferenciar uma doença da outra.

A dengue é causada por um vírus transmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti. A fêmea desse mosquito é que transmite a doença. Ela se alimenta de sangue uma vez a cada dois ou três dias e pica até dez pessoas para cada alimentação. Quando pica uma pessoa com dengue, leva o vírus para outras. “Se a pessoa tem dengue tipo 2, por exemplo, o mosquito pica e passa a transmitir a dengue do tipo 2. Se picar uma segunda pessoa com outro tipo, começa a espalhar os dois e, ainda, se o mosquito com o vírus tipo 2 picar uma pessoa que já teve um outro tipo de dengue, pode então vir a ter a dengue hemorrágica, que é a mais perigosa”, explicou Maristela.

São quatro os tipos de dengue existente e a diferença entre um e outro é mínima, explicou a médica.

A transmissão da doença começa depois que o vírus se multiplica pelo organismo do mosquito. Essa multiplicação leva de oito a onze dias (quanto mais quente, menos tempo é necessário).

O Aedes aegypti coloca seus ovos nas paredes dos recipientes. Eles ficam perto do nível da água por causa da umidade, mas não dentro. Entre três e cinco dias, o ovo eclode. A larva leva de cinco a sete dias para se desenvolver e então transforma-se em pupa. Essa fase dura apenas de dois a três dias e depois vira um mosquito adulto, que dura de 20 a 30 dias na natureza.

Como saber se é dengue?

A suspeita existe quando há febre acompanhada de, no mínimo, dois sintomas, como dores no corpo e na cabeça. Os sintomas duram no máximo sete dias. Nessas condições, a pessoas deve repousar e procurar um médico rapidamente. Não tomar em hipótese alguma remédios que contenham ácido acetilsalicílico, como por exemplo a aspirina, o AAS, entre outros.

Para diferenciar a dengue clássica da hemorrágica, o principal sintoma é a hemorragia franca e a pessoa apresenta pigmentos vermelhos na pele. A hemorragia, de acordo com Maristela, ocorre logo no início da doença, quando se trata de dengue hemorrágica.

A médica alertou para que as pessoas estejam atentas em suas casas para que não haja criadouros. A dengue clássica, de acordo com ela, não é uma doença perigosa. Ela é tratada com repouso e alimentação adequada, mas vale lembrar que aquela pessoa que já adquiriu esse tipo da doença, está suscetível a adquirir a dengue hemorrágica, que pode até levar a óbito.

O problema da dengue, de acordo com Maristela, é que a pessoa tem que fazer repouso, não pode trabalhar. “Você não vai morrer se tiver uma dengue clássica, mas sua vida se torna um transtorno. Isso se falando de uma vida, mas no Rio de Janeiro, por exemplo, está um caos, porque 10% da população está de repouso, então chega a atrapalhar o sistema econômico do País, porque não há mais ninguém para ir para as fábricas, para realizar seus trabalhos. Isso é morbidade. Então, as pessoas têm que aprender que podem se prevenir, por que vão ficar doentes”, afirmou.

Aedes foi erradicado no Brasil

O médico infectologista Marcos Boulos, professor titular de doenças infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), disse que o Aedes foi erradicado no Brasil nos anos 50 por ser o transmissor da febre amarela. A relação entre o mosquito e a doença foi descoberta em Cuba, entre 1899 e 1900. Ele explicou que inicialmente não se falava da dengue, que para as autoridades sanitárias era uma epidemia circunscrita ao Sudeste Asiático. O problema era acabar com a febre amarela, de acordo com Boulos. O que deu certo, segundo o médico, foi a união entre o poder político, no Rio, e o poder econômico dos cafeicultores paulistas. Em 1955, o Aedes aegypti foi considerado erradicado.

“Erradicar é inviável”

De acordo com o médico infectologista Marcos Boulos, erradicar o mosquito da dengue é inviável. Não há nisso, segundo o médico, uma possibilidade concreta. Ele já convive conosco e será nosso ‘parceiro’. “O esforço coletivo é fundamental porque só por meio dele teremos uma quantidade menor de mosquitos, mas erradicar não é a solução”, disse. Para ele, devemos nos acostumar à idéia de conviver com a epidemia até que, num futuro incerto, ela seja neutralizada por uma vacina. Ele lembrou que há uma vacina em estado de experimentação que é produzida pelo Exército norte-americano e foi testada recentemente na Tailândia. Uma outra obtida pelo Instituto Pasteur-Merieux, na França, não mostrou a eficácia desejada, ou seja, que combata os quatro tipos de vírus da dengue.

Boulos afirmou, ainda, que se a população não fizer nada, os brasileiros irão viver explosões contínuas todos os anos e com mais dengue hemorrágica que, de acordo com ele, não é uma doença muito grave, se tratada.

O médico acredita que tanto o Governo Federeal como os municípios devem ser responsabilizados pela atual epidemia. “Os municípios por não cumprirem suas tarefas de maneira adequada, e o Governo Federal por não fazer a vigilância das operações efetuadas com recursos que repassou. “A União não cobrou a lição de casa. Os dois níveis de administração também são culpados por só fazerem a conscientização em época de epidemia. Não há um trabalho contínuo no ano todo.”

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