Cultura

Aventuras brasileiras de uma americana

Redação
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Em dezembro de 1951, uma poeta norte-americana genial e deprimida desembarcou de um cargueiro, no porto de Santos (SP), para uma breve escala turística. No entanto, acabou ficando e vivendo uma aventura pessoal por longos 15 anos.

É desse encontro com o Brasil que trata o espetáculo “Um Porto para Elizabeth Bishop”, em cartaz no Teatro Municipal de Bauru nos dias 16 e 17, próxima sexta-feira e sábado.

Elizabeth Bishop viveu no Brasil de 1951 a 1966. Uma das maiores expressões da poesia norte-americana, o retrato do País que ela desenha em suas cartas e em seus poemas, com um estranhamento de estrangeira e, sobretudo, de artista, fornecem uma visão nítida e enternecedora do Brasil, no momento em que uma autoconsciência, ainda tingida de esperança, se traduzia em música, design, arquitetura, cinema e teatro.

Elizabeth Bishop e o Brasil fixaram um no outro seus reflexos, de tal forma que olhar para os 15 anos em que ela morou por aqui permite conhecer um estranho caminho pessoal da artista, da depressão ao reconhecimento.

A atriz Regina Braga protagoniza o espetáculo. Para o diretor, o criativo José Possi Neto, a atriz é muito racional, num primeiro momento. “Regina é muito inteligente. Ela leva um tempo armando todo o conceitual para, de repente, soltar uma fera. Eu acho que construí nesses meses de ensaio um trilho para ela viajar firme, e se permitir até desencarrilhar”, afirma.

Possi Neto descobriu durante a montagem um lado obscuro de sua personalidade. “Eu gosto muito de pegar um tema que é literário e transformar em linguagem teatral. Nos últimos anos eu me sinto apto para me exercitar na comédia. Em ‘Um Porto para Elizabeth Bishop’, sinto que dei uma visão de um lado cômico que eu não tinha”, define.

Para a atriz Regina Braga, o mais interessante nesse trabalho foi a mudança, a possibilidade de viver tantos estados emocionais limites, extremos, num espaço condensado. “Esse exercício de flexibilidade e fluidez foi o que mais me assustou. Durante os ensaios, teve hora que dizia ‘eu não vou agüentar, não vou conseguir’. Às vezes eu não tinha fôlego, mas agora é um prazer constante”, admite.

História

Elizabeth Bishop construiu aos poucos sua reputação de grande poeta do século 20 por ter publicado pouco e lentamente, ao longo de toda a vida. Mas a percepção da importância de sua obra cresceu principalmente na última década, a ponto de ter seu nome incluído nos mais importantes balanços da produção literária dos últimos 100 anos.

Contar a história de Elizabeth Bishop traz à tona personagens importantes da história recente brasileira, como Carlos Lacerda, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto e, sobretudo, Lota Macedo Soares, a razão pela qual Elizabeth - que pretendia apenas fazer uma escala no Rio, durante uma viagem em torno do continente - acabou permanecendo no País por tanto tempo.

Com uma visão de mundo típica da elite brasileira e uma prática de conflitos e coragem necessária à sobrevivência de uma mulher homossexual nos anos 50, Lota ofereceu a Elizabeth proteção e encorajamento, mas sucumbiu à fragilidade que se escondia sob sua energia aparentemente inesgotável.

Uma peça sobre Elizabeth Bishop pode ampliar o número de admiradores de uma artista privilegiada e propiciar um momento de reflexão sobre um Brasil ainda belo, momentaneamente extraviado de sua verdadeira vocação.

Serviço

“Um Porto para Elizabeth Bishop”, dir. José Possi Neto, com Regina Braga. Dia 16 (sexta), 21h e 17 (sábado), 20h, no Teatro Municipal de Bauru. Recomendação: 10 anos. Ingressos já à venda: R$ 25,00, R$ 20,00 (antecipado) e R$ 12,50 (estudantes), av. Nações Unidas 8-9. Informações: (14) 2351312. Patrocínio: Petrobras e Ministério da Cultura. Co-Patrocínio: Colégio Interativo, Locar, Saint Paul Residence e Real Time English. Apoio: Mauro Quintanilha Cabelo e Maquiagem, Keune Cosméticos, Alice Estofados, Padaria Copacabana, Restaurante Lalai, Torteria Doceana, Victor Restaurante, Rádio Unesp, Baby Búfalo Churrascaria, Flag-Petróleo, Gustare Restaurante e Cantina Frattelo. Realização: Secretaria Municipal de Cultura e Abapuru Produção Cultural.

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