Cultura

O caminho se faz caminhando

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez havia um sitiante francês que não tinha mais vontade de viver. Sua mulher e seu único filho haviam morrido e ele sentia-se velho demais para reconstruir a vida. Assim desiludido, o velho abandonou seu sítio, tomou para si cinqüenta de suas ovelhas e resolveu mudar-se para Cevennen, uma das regiões mais secas e tristes da França.

Cevennen estava praticamente deserta, as pequenas cidades que ainda restavam perdiam seus habitantes rapidamente, pois com a seca e sem perspectivas de desenvolvimento as pessoas procuravam um lugar melhor para viver. Cevennen era a região certa para o sitiante velho ser esquecido e finalmente “descansar em paz”. Já nos primeiros dias, o velho francês percebeu que a natureza estava morrendo porque por ali não crescia nenhum tipo de árvores.

Incomodado com isso, o sitiante resolveu arrumar algumas mudas de carvalho. As mais fortes o francês colocava em latas com muita água e depois as plantava no chão seco de Cevennen. Depois de três anos, aquele sitiante velho e desiludido com a vida havia plantado cerca de cem mil carvalhos, dos quais ele esperava que crescessem pelo menos dez mil.

Além do mais, o velho francês pedia a Deus que lhe desse mais alguns anos de vida para continuar a plantar mais árvores. No ano de 1947, aquele sitiante francês morria com 89 anos deixando uma das florestas mais lindas da França.

Ao trilhar o seu caminho por Cevennen, o velho sitiante deixava uma floresta de Carvalhos com onze quilômetros de comprimento e três de largura. Com a floresta começou a surgir água e até mesmo pequenos lagos.

Cevennen voltou a ser valorizada e as cidadezinhas começaram a ser novamente povoadas. A região voltou a ter vida, com pássaros, animais, borboletas, pequenas cidades, crianças, famílias e festas típicas.

Toda a vida, no espaço e no tempo, constitui-se em movimento, em um estar a caminho. Para o filósofo Georg Simmel, este caminho da vida caracteriza-se pela expansão. A vida esforça-se, constantemente, por alargar-se, por reproduzir-se, elevar-se e por último superar a sua maior dificuldade: a mortalidade.

Neste processo de expansão, a vida está em uma constante relação com seu meio ambiente, com seu espaço e seus limites. Desta relação dialética surgem todos tipos de mutações, novos comportamentos sociais e expressões culturais.

A vida de cada ser humano encontra-se nesta dinâmica. Todo ser humano movimenta-se naturalmente para a sua realização pessoal e com este movimento ocorre a transformação de seu meio ambiente.

Este impulso de vida em nós e no cosmos ambiental em que vivemos é, apesar de passageiro, fundamental, pois somente fortalecendo o movimento da vida damos um sentido à esta e deixamos sinais de nossa trajetória. “Nada é eterno, mas algumas coisas permanecem” (Raul Seixas).

A noção de estarmos em um caminho que pode gerar vida nova é milenar e encontra-se presente em todas as manifestações religiosas. Os egípcios viam no movimento do sol uma imagem deste caminho da vida. Para os chineses a vida humana era entendida como uma ordem cósmica, um caminho que une o céu e a terra, o “Tao”.

Buda ensina os passos do “nobre caminho óctuplo” que compreende a correta vivência da compreensão, atitude, fala, ação, modo de vida, esforço, atenção e concentração. Já nas primeiras linhas do “Alcorão” encontramos uma oração pedindo a Alá que nos conduza pelo caminho aplainado e correto, um caminho repleto de suas Graças.

No “Bhagavad Gítã” são apresentados dois caminhos eternos do mundo, diante dos quais o homem pode fazer sua escolha: um é o claro, o outro é o escuro. Também o Novo Testamento apresenta o homem diante da mesma decisão de tomar o caminho estreito ou largo, o que consiste em sua salvação ou perdição (Mt. 7, 13s.).

O próprio Cristo revela-se como “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Este caminho de vida (nascimento, morte e ressurreição) é revivido anualmente através da liturgia pela Igreja Católica e algumas Igrejas Protestantes. Uma antiga tradição em praticamente todas as religiões é a prática da peregrinação.

Esta consiste em percorrer um determinado caminho até chegar a um lugar sagrado. A peregrinação simboliza a própria vida, um caminhar até a chegada a um lugar sagrado através da morte.

Porém, dentro de todas as religiões é unânime a necessidade de que a nossa trajetória seja um caminho que gere vida. Para o ser humano não há caminho pré-estabelecido, nós construímos o caminho pelo simples fato de caminhar.

Mas é fundamental entender que este caminhar deve fazer ressurgir pássaros, pequenos animais, borboletas, cidadezinhas, crianças, famílias e festas típicas. â€œÉ possível mudar nossas vidas e a atitude dos que nos cercam simplesmente mudando a nós mesmos” (Rudolf Dreikurs).

(*) Especial para o JC Cultura Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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