Na última sexta-feira, a crise econômica na Argentina agravou-se novamente. A cotação do peso em relação ao dólar atingiu o incrível valor de três por um. A corrida à moeda americana parece não ter fim, revelando o desespero do argentino em trocar a qualquer custo sua moeda nacional por algo visto como reserva de valor. Este comportamento não se restringe apenas à elite. Pessoas mais humildes, como empregadas domésticas e outros trabalhadores braçais, também participam dessa corrida insensata. O Banco Central tem vendido, sem êxito, volumes crescentes de dólares de sua reserva para tentar frear a perda de valor do peso. Tudo isso, apesar do congelamento da quase totalidade da poupança dos argentinos nos debilitados bancos do país. Esse novo ciclo de deterioração do peso vai aumentar a instabilidade da economia com o aumento da inflação e da recessão econômica. Em um segundo momento provocará uma queda ainda maior da arrecadação de impostos, que depende do nível de atividade econômica, agravando o desequilíbrio das contas fiscais do governo. Nessa situação a desesperada tentativa do governo de finalizar um acordo salvador com o FMI ficará ainda mais longe. Sem os recursos do Fundo o governo do presidente Duhalde fragiliza-se e uma nova crise política vai aparecer no horizonte. A possibilidade de eleições gerais antecipadas, ainda em 2002, para eleger um quarto presidente deste infeliz país é hoje muito grande. Um grande salto no escuro na medida em que a descrença dos eleitores na classe política é hoje abissal.
Nesse cenário de caos econômico e de descrença política a probabilidade do aparecimento de um salvador da pátria despreparado é muito grande. A História nos mostra que os grandes desastres nacionais ocorrem nessas situações. Mas a Argentina parece hoje caminhar essa trilha do caos. Não há indicadores, sejam políticos ou econômicos, que permitam um desenho mais otimista do futuro. Nesse sentido, a posição americana de negar à Argentina um suporte político e financeiro é de uma irresponsabilidade inaceitável. Caso essa previsão tenebrosa ocorra nos próximos meses, quais suas conseqüências sobre o Brasil?
Na economia, os efeitos do colapso de nosso vizinho será bastante limitado. A conseqüência mais séria deve ser uma redução importante nas nossas exportações, algo como US$ 500 milhões nesse ano de 2002. Mas essa perda já está incorporada nas previsões dos agentes econômicos. Os mercados externos também já absorveram a deterioração mais profunda da realidade econômica de nosso vizinho e o fato de que as condições brasileiras são muito mais sólidas e com uma dinâmica diferente. Mostra desse estado de ânimo diferente tem sido o sucesso de emissões de títulos brasileiros nos mercado internacionais e expressiva colocação de ações da Cia. Vale do Rio Doce. Além disso, o fluxo de investimentos externos não mostra sinais de deterioração maior do que já ocorreu.
No cenário eleitoral os efeitos serão, entretanto, importantes. O caos político e social que deve ocorrer, na hipótese de eleições antecipadas para presidente, deve ter influência sobre os eleitores que estão hoje indecisos.
Portanto devemos seguir com detalhes os eventos em nosso vizinho durante os próximos dias. Uma leitura correta do que estará ocorrendo na Argentina pode ser muito útil para a tomada de decisões aqui no Brasil. Com o esfacelamento da candidatura Roseana Sarney, o cenário político afunila-se mostrando que a grande disputa eleitoral dar-se-á novamente entre um candidato do governo e Lula, repetindo uma eleição plesbiscitária como a de 1998.
(*) O autor, Mendonça de Barros, é economista, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social - BNDES