Ela já raspou a cabeça e deixou uma lua e estrela com fios curtos desenhando a nuca. Já pintou o cabelo de roxo e rosa, azul, amarelo, bem vermelho... Cortou arrepiado e desfiado. Deixou crescer uma única vez e disse que foi um dos maiores sacrifícios que já fez. A estudante de Moda Thayla Tayar a vida inteira mudou os cabelos a cada 15 dias, variando estilos e visuais nada convencionais. Ela acredita que os cortes fazem parte de sua atitude, mas não chegam a abalar sua personalidade.
“Mudo o cabelo do mesmo jeito que eu respiro. Eu não faço isso para aparecer. Faço porque eu gosto. Detesto quando saio na rua e as pessoas comentam, me incomoda muito. Acho falta de respeitoâ€, explica a universitária que no dia em que a matéria foi feita estava com os cabelos ferrugem, o hit da estação.
Thayla conta que o tempo de duração de um visual é variável, pode durar um dia ou até um ano. “Basta olhar no espelho e perceber que não me agrada mais, que mudo o corte ou a cor.†Mas ela se defende. Não acredita que o cabelo influencie na personalidade. Essas mudanças fazem parte de seu exterior e de uma certa forma mantêm sua auto-estima sempre em alta. “Mas a minha personalidade nasceu antes dos meus cabelos. O meu caráter não vai se alterar por uma tinta. Não é também porque agora faço faculdade de Moda que estou diferente. Eu sou a Thayla independente do cabelo.â€
Cumplicidade
“A personalidade retrata o cabelo da mulherâ€, define o dono da Gil Imagem, conhecido como Gil Milagre. Há seis anos ele cuida do visual fashion de Thayla e a considera sua herdeira natural quando o assunto é atitude.
“Eu também usei cabelo loiro, comprido, calça rasgada numa época em que ninguém usava. Sofri horrores, mas só depois que morei fora do País e conheci outras culturas, descobri o que acontecia em Bauru.†Com relação à sua cliente fiel sua proposta de trabalho combina com a dela. “Dificilmente ela vem ao salão para fazer a mesma coisa.â€
O cabeleireiro aponta que o arrojo de Thayla é exceção na cidade. Ele não se esquece de uma cliente negra, paulistana que chegou no salão onde trabalhava em São Paulo com a foto da Vanusa - queria ficar igual a ela.
Mas existem aquelas mulheres que sabem como realçar seus traços naturais. É o caso da balconista Simone Uehara, cujo nome denuncia que é oriental e como tal originalmente tem cabelos lisos e negros. Teria. Simone adota cores entre o marrom e o vermelho há anos para fugir do convencional. Também usa um corte texturizado, repicado que como ela diz: “Lavou, bateu, tá pronto, prendeu, soltou, está arrumado.†Ela continua japonesa, mas moderna.
“Cabe a mulher ser bela e aceitar-se bela. O interessante do profissional da beleza não é o poder de transformação radical, mas o de ser apenas um consultor que faz aquilo que ela necessita para reconquistar essa beleza roubadaâ€, filosofa Gil do alto dos seus 18 anos de carreira.
Ele conta que muitas vezes as mulheres chegam ao cabeleireiro com um visual caseiro ou mal cuidado que refletem o seu momento ou estado de espírito. Bastou levantar da cadeira para elas saírem outras, principalmente quando são elogiadas.
Neste processo existe diálogo entre profissional e cliente e não são necessários muitos recursos e artifícios.
A mãe de Thayla, Lucimar Pires de Camargo Monteiro Tayar, ao contrário da filha sempre teve cabelo comprido que quase cobria suas costas por completo. “Às vezes, repicado. Nunca o mesmo corte, mas não mexia no comprimento. Sempre gostei muito de luzes, mechas, bem artificial mesmo. Não suporto cabelo tinto, certinho por igual. Acho que a partir do momento em que decidi mudar a cor do cabelo é para aparecer que foi colorido. Não natural. A beleza natural é outra coisa. Artifício é artifícioâ€, justifica.
Mesmo gostando de coisas artificiais, Lucimar afirma que a sua personalidade não tem nada a ver com o cabelo. Será? Ela está longe de ser artificial. Mas fala o que pensa, é forte, corajosa e determinada. O próximo look será bicolor em claro e escuro. “Tem que ter coragem para fazer issoâ€, finaliza.
O cabeleireiro revela que uma outra cliente também resolveu mudar radicalmente o visual. Ficar jovem e usar o cabelo como um disfarce mais do que perfeito para a plástica feita por ela. “As amigas nem perceberam o efeito do bisturi, só o da tesouraâ€, comemora Gil.
Padrões sociais
O cabeleireiro Gil comenta que o fato do cabelo influir na personalidade da pessoa também depende de fatores sociais e até religiosos. “Muitas religiosas não cortam o cabelo por terem-no oferecido em sinal de sacrifício, devoção e respeito a Deusâ€, justifica.
Mas ao mesmo tempo em que as longas madeixas podem fazer com que realmente elas tenham um comportamento semelhante não significa que todas essas mulheres sejam iguais ou tenham o mesmo temperamento. Até mesmo porque, em alguns casos, elas mantêm o cabelo extralongo, mas já adotam um visual mais displicente.
O crescente número de negros de cabeça raspada também pode ser exemplo de adequação e não de uma moda, mas sim a uma cobrança social. Hippies cabeludos, geração black power e rastafari fazem parte de um movimento de rebeldia e contestação. A ausência de cabelos poderia ser uma forma de conseguir aceitação social.
Um jornalista, que preferiu não se identificar para não gerar polêmica, comentou a atitude do rapper Xis na Casa dos Artistas. Ele conta que o cantor chegou na casa para ser a figura contestadora, politizada e da periferia em um universo de beldades marombadas, oxigenadas, cujos atributos físicos engordam contas bancárias e recheiam revistas. Seu visual inicial era cabelão, mas em sua rápida permanência no reality show, o cantor chegou a raspar a cabeça. Talvez por não suportar a pressão dos companheiros ou ainda por um possível desejo de ser aceito pelo grupo.
Homens também buscam melhorar a auto-estima
Não é só no universo feminino que a personalidade e o bem-estar estão ligados aos cabelos. A única diferença, diz o cabeleireiro Claudio Zanda é que o cabelo de um homem geralmente tem de dois a quatro centímetros e o da mulher, de 20 a 40.
Zanda herdou a profissão do pai, conhecido pelo sobrenome e que há 65 anos é barbeiro na cidade. Claudio completou 15 anos cuidando de cabelos masculinos e está feliz por perceber que o homem está aceitando mudar.
“Costumo dizer que não vendo cortes. Trabalho a serviço da auto-estima, porque tudo o que reflete externamente é produto do interior.â€
Pelas ruas da cidade, ele percebe que muita gente cristalizou um tempo em sua vida e não quer mudar, por medo do novo ou receio de arriscar o que na cabeça dela está bom. Dessa maneira, muitos homens ainda usam um visual new have, dos anos 80 ou o estilo comprido das duplas sertanejas em início de carreira na mesma época.
Zanda aponta que não é da noite para o dia que se consegue mudar o visual de um homem, seja ele jovem ou mais velho.
“Tenho clientes grisalhos, com cabelos belíssimos, que não mexem na cor. Mas que depois de avaliações e conversas optaram por um corte mais jovial. Outros temem a idade e cobrem os fios brancos e já se permitem mudar de tom.â€
O cabeleireiro confessa que durante muitos anos as opções oferecidas ao público masculino eram “quadradasâ€, mas hoje os conceitos mudaram. “Já não se tem mais aquela história de que homem que colore o cabelo é efeminado. Os conceitos são outros e os cuidados com a aparência tambémâ€, conclui. Ele explica que é preciso cumplicidade com o cliente e muito cuidado na abordagem. Coisas de homem.
Zanda revela que ao contrário das mulheres, os homens preferem salões reservados e atendimento exclusivo. São rigorosos nos cuidados recomendados e ficam de olho na regularidade de fazer suas visitas ao salão.
“Principalmente aqueles que têm o cabelo com coloração. Raiz branca ou de outra cor é inadmissível até mesmo porque a massa capilar masculina é mais demarcada do que a das mulheres, devido aos cortes curtos. Mas os homens não descuidam do corte. A visita ao barbeiro ou cabeleireiro é religiosa no máximo de 30 em 30 dias.â€
Para os homens, as técnicas de corte também evoluíram e já é possível cortar o cabelo de um calvo dando a impressão de que ele tem maior número de fios. Ou então aqueles cortes que dispensam o pentear.
Pode parecer incrível, mas muitos homens afirmam que cuidar dos cabelos dá o maior trabalho. Outros, no entanto, como confidencia Zanda, têm três produtos de finalização. “Se vão a uma reunião optam por um finalizador que dê um resultado mais natural. À noite usam o brilho do gel e um visual mais despojado, se o compromisso é a rigor até spray é permitido. Os homens têm o mesmo direito e obrigação de estar bonito e sentindo-se bem como as mulheres tanto buscam. Muitas vezes, uma plástica no nariz não faz tanta diferença para um homem quanto um corte de cabelo. Ele muda conceitos e até atitudes.â€