O corre-corre da vida moderna transformou os quintais floridos e verdes em artigo raríssimo. Na verdade, o assunto envolve uma grande contradição: ao mesmo tempo em que se clama por mais natureza, menos ela é mantida no ambiente doméstico. Quintal com pé de jabuticaba, goiabeira, mangueira, roseiras e grama é coisa do tempo da vovó ou, quando muito, da casa da vovó.
Basta percorrer as ruas da cidade para constatar esse quadro pouco favorável ao meio ambiente. O que se vê, quando os muros permitem, são frentes, corredores e fundos totalmente cimentados ou revestidos com lajotas das mais variadas cores e motivos. Facilidade é a qualidade que a maioria das pessoas escolhe para justificar o calçamento. O argumento tem suas razões.
Com o êxodo das potenciais donas de casa para o mercado de trabalho, o tempo para “mexer com a terra†praticamente acabou. “Planta tem que receber cuidados e eu não tenho tempo para ficar aguando, mudando de vasinho ou mesmo esperar o jardineiro podar um quintal de grama. A lajota é muito mais prática, porque é só jogar uma agüinha que fica tudo limpinhoâ€, justificou Doraci Alves de Almeida, moradora do Jardim Marambá.
No Higienópolis, um grupo de três mulheres conversa na frente da casa, também toda revestida com piso. Questionada sobre a opção, a dona da casa, que não quis conceder entrevista, também declina a praticidade, mas sob o protesto de uma das outras, que confessou sentir falta de um jardim.
Neusa Lima, moradora do Parque São Geraldo, é outra que sonha com um pedacinho de terra para plantar flores coloridas, mas o marido, Francisco, não dá trégua para o desejo. “Eu cimentei o terreno para guardar meu caminhão e facilitar o conserto (ele deita sob o veículo para fazer os reparos). A mulher reclama que não tem jardim, mas por enquanto não dá. Eu também gosto de plantaâ€, despistou.
“Com o passar dos anos, o quintal ficou em segundo plano. Em muitos casos, especialmente por conta do tamanho reduzido dos lotes, ele tornou-se a extensão do imóvel para acomodar melhor as famílias; em outros, foi impermeabilizado para servir de garagem. Esses fatores, aliados à vida corrida, consolidaram uma tendência geral de calçamentoâ€, enumerou a professora de paisagismo Norma Constantino.
Outro fator pouco notado, porém de grande relevância, é o distanciamento na relação residências-público. “Os quintais verdes e ajardinados ainda existem sim, mas nem sempre podemos observá-los. A busca por segurança criou barreiras que nos remetem à total impermeabilização. Quem vê apenas o muro não consegue imaginar um quintal por trás deleâ€, completou a professora, que mora em apartamento e se contenta com o verde dos vasos de planta que ornamentam a sacada.