Bairros

Quintais verdes são raridade hoje

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 2 min

O corre-corre da vida moderna transformou os quintais floridos e verdes em artigo raríssimo. Na verdade, o assunto envolve uma grande contradição: ao mesmo tempo em que se clama por mais natureza, menos ela é mantida no ambiente doméstico. Quintal com pé de jabuticaba, goiabeira, mangueira, roseiras e grama é coisa do tempo da vovó ou, quando muito, da casa da vovó.

Basta percorrer as ruas da cidade para constatar esse quadro pouco favorável ao meio ambiente. O que se vê, quando os muros permitem, são frentes, corredores e fundos totalmente cimentados ou revestidos com lajotas das mais variadas cores e motivos. Facilidade é a qualidade que a maioria das pessoas escolhe para justificar o calçamento. O argumento tem suas razões.

Com o êxodo das potenciais donas de casa para o mercado de trabalho, o tempo para “mexer com a terra” praticamente acabou. “Planta tem que receber cuidados e eu não tenho tempo para ficar aguando, mudando de vasinho ou mesmo esperar o jardineiro podar um quintal de grama. A lajota é muito mais prática, porque é só jogar uma agüinha que fica tudo limpinho”, justificou Doraci Alves de Almeida, moradora do Jardim Marambá.

No Higienópolis, um grupo de três mulheres conversa na frente da casa, também toda revestida com piso. Questionada sobre a opção, a dona da casa, que não quis conceder entrevista, também declina a praticidade, mas sob o protesto de uma das outras, que confessou sentir falta de um jardim.

Neusa Lima, moradora do Parque São Geraldo, é outra que sonha com um pedacinho de terra para plantar flores coloridas, mas o marido, Francisco, não dá trégua para o desejo. “Eu cimentei o terreno para guardar meu caminhão e facilitar o conserto (ele deita sob o veículo para fazer os reparos). A mulher reclama que não tem jardim, mas por enquanto não dá. Eu também gosto de planta”, despistou.

“Com o passar dos anos, o quintal ficou em segundo plano. Em muitos casos, especialmente por conta do tamanho reduzido dos lotes, ele tornou-se a extensão do imóvel para acomodar melhor as famílias; em outros, foi impermeabilizado para servir de garagem. Esses fatores, aliados à vida corrida, consolidaram uma tendência geral de calçamento”, enumerou a professora de paisagismo Norma Constantino.

Outro fator pouco notado, porém de grande relevância, é o distanciamento na relação residências-público. “Os quintais verdes e ajardinados ainda existem sim, mas nem sempre podemos observá-los. A busca por segurança criou barreiras que nos remetem à total impermeabilização. Quem vê apenas o muro não consegue imaginar um quintal por trás dele”, completou a professora, que mora em apartamento e se contenta com o verde dos vasos de planta que ornamentam a sacada.

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