Economia & Negócios

Bancos dificultam crédito para pequenos

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Uma pesquisa nacional realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com 2.500 micro e pequenos empresários, indicou que 62% deles afirmam ser difícil conseguir uma linha de crédito.

A burocracia é um dos principais entraves alegados, com destaque para o excesso de exigências bancárias. Isso inclui as garantias solicitadas, como dinheiro ou imóveis próprios.

Do total de entrevistados, 46% apontou essas dificuldades como a principal barreira para obter financiamento junto às instituições financeiras.

Os consultores do Sebrae-Bauru, Samuel Poloni e Newton Rosseto, dizem que a mesma situação apontada pela pesquisa nacional ocorre na região.

“Burocracia, excesso de documentação e as garantias solicitadas pelos bancos são as principais reclamações por parte dos empresários que atendemos aqui no dia-a-dia”, afirma Poloni. A agência local do Sebrae abrange 37 municípios.

O consultor diz que as instituições financeiras estão preparadas para atender as médias e grandes empresas. Por esse motivo, as micro e pequenas têm tanta dificuldade de acesso ao crédito.

“Os bancos adequam aos pequenos o processo de análise de crédito utilizado com grandes empresários. O segmento das microempresas necessita de atenção e apoio especial, porque elas geram a maioria dos empregos no setor”, aponta Poloni.

De acordo com Rosseto, o Sebrae-Bauru aprova cerca de 30 projetos por mês na região, já devidamente financiados. Contudo, não seria possível saber quantos, do total de empresários atendidos, conseguem obter crédito.

“Existem muitos casos de empresários que buscam o financiamento mas que, ao se deparar com a grande quantidade de exigências bancárias, desistem. Outros não conseguem em função de restrições cadastrais ou, na maioria das vezes, porque não possuem as garantias solicitadas”, afirma Rosseto.

O consultor cita que, se existissem programas de concessão de crédito direcionados aos micro e pequenos empresários, certamente a demanda de projetos seria maior. Segundo Rosseto, a burocracia faz com que muitos deles recorram a financiamentos voltados a pessoa física, que têm juros bem mais altos.

Planejamento

Por outro lado, os consultores do Sebrae dizem que dinheiro não é peça fundamental para a abertura de uma empresa. Acima de tudo, é necessário estar preparado para o mercado.

“Para iniciar um negócio, estar bem preparado financeiramente não é fundamental. Não adianta começar com muito dinheiro se o empresário não souber como enfrentar o mercado. É preciso saber o caminho das pedras, conhecer os concorrentes, fornecedores e o público alvo. É nessa gestão que o Sebrae atua, assessorando micro e pequenos a montar e administrar sua empresa”, destaca Rosseto.

Poloni afirma que o planejamento para a abertura de uma empresa dura, em média, nove meses.

De acordo com o consultor, pesquisa realizada pelo Sebrae em outubro do ano passado, no Estado de São Paulo, indica que cerca de 71% das empresas abertas sem planejamento adequado não concluem o quinto ano de atividade.

Na área de financiamento, o Sebrae possui convênio com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Mas os interessados também podem contar com o programa de Fundo de Aval para Micro e Pequenas Empresas (Fampe).

“Trata-se de uma garantia adicional oferecida pelo Sebrae. O Fampe faz o papel de avalista do empresário, cobrindo 50% do investimento fixo que será feito”, explica Newton Rosseto.

Burocracia

O empresário Antônio Donizete Sardinha, proprietário de um posto de molas fundado em 1988, está tentando obter financiamento para colocar um projeto em prática há cerca de um ano e não consegue.

De acordo com ele, o valor do crédito solicitado foi de R$ 800 mil. O banco exige garantia de R$ 1,6 milhão para conceder o empréstimo.

“Se eu tivesse tudo isso de garantia não precisaria de crédito. As exigências feitas pela instituição financeira são absurdas. O banco limita o crédito baseado no faturamento da minha empresa. Mas se eu conseguir dinheiro para investir no meu projeto, vou poder aumentar o faturamento”, reclama Sardinha.

O empresário conta que está tão difícil obter financiamento que, temporariamente, ele desistiu dos planos que têm para a empresa.

Nestor de Souza Zuccaro, dono de uma empresa que atua no ramo de siderurgia, diz que entrou com pedido de liberação de crédito para seu projeto em setembro do ano passado.

Somente no dia 19 deste mês recebeu a notícia de que o financiamento havia sido aprovado. Mas para isso, ele conta que precisou da interferência de um órgão influente.

“A burocracia é imensa e, mesmo com a notícia extra-oficial, até agora eu não recebi nenhuma carta do banco de que o crédito foi liberado. As dificuldades são tantas que mesmo depois de um engenheiro ter visitado minha empresa e aprovado tudo, a matriz do banco não liberou por alegar falta de garantias”, conta o empresário.

De acordo com Zuccaro, ele solicitou empréstimo no valor de R$ 180 mil. Apresentou garantias que somavam R$ 450 mil e, mesmo assim, o banco não queria aprovar o financiamento. “A impressão que se tem é de que a instituição não tem interesse em conceder crédito”, desabafa.

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