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Entrevista da Semana - Barulho excessivo ameaça a audição

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 10% da população brasileira tem algum tipo de problema auditivo, da deficiência mínima à surdez completa. Muitos desses casos são adquiridos, ou seja, acontecem durante a vida com pessoas que nasceram com o aparelho auditivo perfeito.

Um dos maiores causadores da perda da audição é o excesso de ruído presente em casa, na rua, no trabalho e até nos momentos de lazer da maioria das pessoas, como aponta a fonoaudióloga Maria Cecília Bevilacqua professora e chefe do Departamento de Fonoaudiologia do câmpus de Bauru da Universidade de São Paulo (USP).

Na entrevista a seguir, a professora explica as causas mais comuns da perda de audição e os cuidados e tratamentos possíveis para se preservar essa capacidade sensorial fundamental para a comunicação.

Jornal da Cidade - Existe alguma diferença entre deficiência auditiva e surdez? Maria Cecília Bevilacqua - Existem duas maneiras de se entender a questão da deficiência auditiva. A primeira , requer que se olhe para a anatomia e o funcionamento da audição. Então existem o graus de deficiência auditiva leve, moderado, severo e profundo. Esse profundo muitas vezes é confundido com o conceito surdo. Surdez é a ausência completa de audição. Esse é um conceito. Agora atualmente no Brasil (e há alguns anos no exterior) surgiu o conceito social, cultural de surdo. O surdo seria aquele que faz parte de determinado grupo que possui uma série de identificações e se comunica através da linguagem de sinais. É o conceito sócio-cultural de surdez. Isso não acontece com os outros casos de deficiência física ou mental porque a deficiência auditiva mexe com aquilo que é mais relevante no ser humano que é a comunicação, da linguagem oral.

JC - Quais são as causas mais comuns para a ausência de audição? Bevilacqua - É preciso pensar sempre em dois grupos. Existem os casos quando a deficiência é adquirida, a pessoa nasce ouvindo e depois perde a audição; e existem os casos congênitos, quando a criança já nasce com a deficiência auditiva por algum problema no desenvolvimento do feto ou por causas hereditárias ou genéticas. No caso das adquiridas, nos adultos, a maioria dos casos acontecem por causa do excesso de ruídos, geralmente nos trabalhadores de indústrias. Hoje o ser humano é exposto ao ruído por todo o avanço da sociedade moderna. Existe a cultura do ruído entre os jovens na danceterias, nas festas, no som do carro, no barulho do motor, do escapamento. O parece é que agora no começo desse século essa cultura tem diminuido, já existe uma cultura de preservação do ambiente, da natureza, do próprio corpo. Enfim, o excesso de barulho é o que provoca a perda auditiva. A deficiência se caracteriza quando as habilidades de trabalho ou de comunicação da pessoa começam a ser afetadas. Em crianças, a maneira mais comum que se adquire a surdez é através da meningite. Essa doença acaba com a criança em vários aspetos. Quando ela é só surda, é uma sorte. Existem também outras causas em crianças que não são tão comuns mas acontecem como traumatismos cranianos, quedas de bicicleta... Na Suécia, as crianças andam de bicicleta com capacete por isso.

JC - No caso da deficiência congênita, quais são as principais causas? Bevilacqua - A maioria delas nós ainda não conseguimos identificar, são causas sem origem. Grande parte das pesquisas atuais nos projetos de genética buscam identificar essas causas. São ou causas genéticas ou de alteração cromossomica. A outra grande causa, infelizmente, no Brasil é a rubéola materna. A mãe que é infectada pela rubéola quando está grávida. Isso não acontece em países desenvolvidos. Aqui no Brasil é incrível porque acontece em todas os níveis sócio-econômicos. É uma questão de falta de informação. Toda a mulher, toda a moça em idade fértil deveria ser vacinada contra a rubéola. Faltam políticas governamentais para orientar mas também falta muita ação individual.

JC - Os recém-nascidos já passam por teste para saber se têm algum tipo de deficiência. É importante começar um tratamento de recuperação da audição o mais rápido possível? Bevilacqua - Hoje é recomendada nas maternidades a triagem auditiva universal, ou seja, todo bebê que nasce deve fazer o teste de audição. Em muitos municípios isso já foi aprovado por projeto de lei e existe uma tendência que haja em todas as cidades esse tipo de teste. Os casos em que o bebê nasce surdo acontecem uma vez em mil nascimentos. Então é preciso de uma grande estrutura para que não se perca aquele “mil”, aquela criança que nasceu com o problema.

JC - Uma pessoa comum no dia-a-dia convive com mais barulho do que o seu ouvido suporta? Bevilacqua - No geral as pessoas vivem com mais barulho do que a gente suporta. O barulho nasceu com a sociedade industrial e a medida em que o mundo industrial foi ficando mais complexo o barulho foi aumentando. Imagine uma pessoa que levanta, pega barulho no trânsito, se expõe a uma série de ruídos no ambiente de trabalho e, para relaxar, no final da tarde vai caminhar com o walkman no ouvido. Quando chega em casa para descansar, ela liga a televisão. Ou seja, o tempo inteiro em que está pessoa está acordada ela está exposta ao ruído. Ai chega o final de semana e a pessoa vai se divertir numa discoteca! É isso que é preciso pensar, a gente está muito exposto. As próprias crianças estão expostas a muitos ruídos desde cedo apesar de não viverem uma situação de trabalho. Os brinquedos hoje para serem atrativos têm que fazer um monte de ruídos e não existe nenhuma regulamentação de níveis de intensidade sonora nos brinquedos. Até aqueles brinquedos mais simples, que ao se apertar fazem barulho em níveis altíssimos que não são aceitáveis em ambiente industrial.

JC - Em quanto tempo a exposição a esse tipo de ruído pode causar algum dano ao aparelho auditivo? Bevilacqua - Depende do tempo de exposição diária. Na realidade quem está o tempo inteiro num ambiente ruidoso deveria, a cada três horas, ter 15 minutos em repouso auditivo, ficar num lugar sem ruído algum. Em muitas indústrias eles criam um intervalo para o café e constroem um espaço reservado, bonito, no meio da fábrica, onde o som chega da mesma maneira. Ou seja, não adianta muita coisa Esse intervalo do cafezinho precisa ser feito fora do ambiente da produção.

JC - Em casa também deve-se procurar ficar alguns momentos no maior silêncio possível? Bevilacqua - O ideal seria que para qualquer nível de exposição que se tivesse períodos intermitentes de repouso auditivo. Agora existe um outro fator que a gente tem que lembrar. Em toda atividade que se faz relaxado, sem tensão, ou seja, uma atividade prazerosa, existe uma tendência de se ser menos afetado. Uma pesquisa foi feita com profissionais de música, que ensaiam muitas horas e depois ainda têm a apresentação. Foi comprovado que esse pessoal tem um nível de perda auditiva maior do que pessoas que trabalham em bandas de rock que intensidade sonora muito maior. O que se concluiu é que nas bandas, apesar do nível intenso, o músico está relaxado, toca por prazer. O outro sofre porque tem um compromisso com a perfeição, não pode dar um acorde fora do previsto. Outra pesquisa foi feita com pessoas nunca expostas a ruído algum. No caso dos índios, por exemplo, que não conhecem os ruídos da cidade, se eles forem trabalharem numa indústria, vão ser mais sensíveis do que pessoas que estão acostumadas com muitos ruídos.

JC - Até que ponto os aparelhos auditivos recuperam a capacidade de ouvir? Bevilacqua - O avanço tecnológico, a busca tecnológica pela criação do homem artificial, levou uma série de pesquisas na direção de buscar quais as possibilidades existiriam para tudo isso. E tudo começou pela área da audição. A questão da investigação de um órgão sensorial auditivo artificial. Os implantes cocleares surgem numa concepção de ouvido biônico. O professor australiano Graeme Clark lançou essa descoberta como um ouvido biônico. O Centrinho foi o pioneiro nos implantes multicanais no Brasil, foi o primeiro centro no Brasil que utilizou o implante do professor Clark, em 1990.

JC - Esse tipo de aparelho é o que há de mais moderno na área? Bevilacqua - Para pessoas que têm uma deficiência severa, profunda, é. Hoje o que acontece é que esses aparelhos auditivos mais divulgados estão caminhando para a tecnologia de implante. Existe um acompanhamento tecnológico muito grande. O sonho de todo mundo é poder ter um aparelho que permita que a pessoa tome banho, faça todas as suas atividades sem ter que tirá-lo. Então o desenvolvimento tecnológico está caminhando para os aparelhos implantáveis, que ficam na parte interna e os implantes estão caminhando para uma sofisticação maior em termos de utilização da eletrônica. Hoje eles são todos artesanais, feitos um a um. Acreditamos que num futuro próximo, quando os implantes forem massificados pelo desenvolvimento tecnológico eles possam custar mais barato e serem produzidos em maior quantidade. Antes os aparelhos usavam a tecnologia analógica e os implantes foram direto para a tecnologia digital e a utilização da bioengenharia. Então hoje existem os aparelhos inteligentes, que até pouco tempo não existiam. Eles têm a capacidade de separar a voz humana do ruído ambiental porque a maior dificuldade do surdo é entender a fala num ambiente ruidoso.

JC - O Brasil não fabrica esses aparelhos? Bevilacqua - Não existe produção no Brasil. A gente só usa a tecnologia em pesquisas clínicas e aplicadas como é o caso do Centrinho.

JC - A pessoa não aprende a ouvir apenas colocando o implante. Precisa de um acompanhamento? Bevilacqua - Esse é um dos critérios do Ministério da Saúde que o Centrinho usa em sua seleção. Se não houver tratamento especializado na cidade de origem, não adianta fazer um implante. A qualidade do tratamento é determinante para o aprendizado e desenvolvimento da audição e da linguagem oral depois que a pessoa recebe o implante. No mundo, a terapia auditiva havia ficado esquecida por algum tempo, não vinha se desenvolvendo. Com o surgimento do implante ela passou a ser uma área muito importante de formação. As triagens neo-natais também passaram a exigir mais qualificação profissional com um perfil específico porque se um bebê nasce com algum problema é preciso saber o que fazer com ele, dar o tratamento adequado.

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