Ser

Filho pródigo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

A televisão transformou Edson Celulari em um dos bauruenses mais famosos do País. Morando há mais de duas décadas fora da cidade, o ator voltou há duas semanas à sua terra natal para se apresentar pela primeira vez profissionalmente com a peça “Fim do Jogo”. Logo que chegou na cidade, ainda antes de visitar o teatro municipal, Celulari falou com JC sobre carreira, família, planos e sua volta às origens.

Jornal da Cidade - Você já se apresentou em Bauru antes? Edson Celulari - Profissionalmente, não. É a primeira vez que venho a Bauru para me apresentar profissionalmente depois de 24 anos de carreira.

JC - Por que demorou tanto tempo? Celulari - Eu me prometi não trazer nenhum dos meus projetos para cá enquanto a cidade não tivesse um teatro municipal. Demorou um pouquinho, mas consegui. Quer dizer, consegui não, conseguiu a cidade.

JC - Como você está vendo Bauru depois de 24 anos de carreira fora daqui? Celulari - Eu venho a Bauru para visitar minha mãe, meu irmão, meus tios... Fico muito orgulhoso quando ouço dos meus amigos que passam por aqui fazendo peças que a cidade tem um lindo teatro, uma platéia interessada, inteligente, que correu para ver a peça. Também de falar com o secretário (de cultura) e saber que hoje a cidade tem 15 grupos de teatro. O problema é que parece que os grupos aqui mudam muito, não conseguem ter um trabalho mais constante. Estou sabendo da tentativa de se realizar uma mostra teatral ou um festival... Acho que o primeiro passo era um centro cultural, que agora existe e precisa evoluir.

JC - Na sua opinião, qual a importância do teatro municipal para a população? Celulari - Deve haver um interesse político permanente sobre esse espaço, porque uma população que vai a teatro é uma população que pensa melhor, que sente melhor tudo. Uma cidade que cresce tem que crescer culturalmente, não existe uma cidade que é economicamente forte e culturalmente fraca.

JC - Como você está se sentindo nessa volta às origens? Celulari - Estou muito emocionado por estar aqui, muito orgulhoso pela cidade e por mim mesmo. Eu sinto a companhia inteira orgulhosa por estar aqui. A Elvira, minha irmã, nossa produtora, é outra bauruense que também está orgulhosa. Uma coisa que é bacana é eu voltar para a cidade onde eu moro, o Rio de Janeiro, e quando os meus amigos perguntarem sobre como foi em Bauru eu poder dizer: cresceu muito, as pessoas já vão ao teatro. Antes elas não iam, agora vão. Na verdade, eu não convivo com a cidade, a minha mãe vai muito mais vezes para lá, fazia oito anos que eu não vinha para cá.

JC - Você sente o quanto é querido na cidade? Celulari - Eu sempre fui muito bem tratado aqui. Não saí de Bauru por estar revoltado, nunca fiz inimigos. Então, a memória que eu tenho de Bauru é de uma cidade estudantil, de um forte comércio, uma cidade de importância no Estado. É claro que é diferente, porque aquele que me conheceu como o vendedor da cantina onde eu trabalhei no Moraes Pacheco ou o meu colega de classe no Preve, lembra de mim como um colega a mais. Agora, como tenho uma notoriedade por causa da tevê, essas pessoas se aproximam emocionadas, às vezes lembro delas, às vezes não, mas me esforço e até lembro depois. Isso é legal, porque para a pessoa, tem um contexto novo que é o fato de que uma pessoa estudou com ele e se tornou conhecida. Para mim é legal vasculhar a memória para saber qual era a minha relação com aquela pessoa. Eu queria ser um autor, um compositor para poder vasculhar essa memória, seria bacana fazer de Bauru a minha Rimini, como fez o Fellini. Bauru é uma cidade rica em histórias. É engraçado, porque eu saí da minha casa, perto do Instituto Penal Agrícola (IPA), com 14 ou 15 anos. Então, a minha infância não foi urbana, foi rural. Aos 14 ainda era caipira e isso me deu uma informação diferente da cidade. Quando comecei a formar a minha vida aqui fui para São Paulo para estudar, então acho que vou ter que fazer análise um dia para entender isso. Eu sempre lembro das árvores de onde eu morava na zona rural, mais do que da Primeiro de Agosto, da Batista de Carvalho, da Duque de Caxias...

JC - Como você e a Cláudia (Raia) conciliam a profissão e o tempo em família? Celulari - A gente lida com naturalidade e tenta integrar um no trabalho do outro. Ou os dois no trabalho do um. O Enzo também já participa de tudo ao mesmo tempo. Se a gente deixar, ele faz teatro o tempo todo. A gente tem que mandar ele para a escola, para jogar futebol, pintar, senão mistura fantasia infantil com teatro - e ele sabe de todos os segredos de quem pode ver um espetáculo dos bastidores - fica fantasia demais. Tudo isso é natural, é assim mesmo. A Cláudia é uma pessoa que trabalha demais também, a gente só procura não fazer teatro junto porque senão não há o que falar em casa. A gente luta aqui, luta ali, agora queremos outro filho. Se precisar, vão estar os dois com a gente na estrada. O mais difícil nisso tudo é mostrar um universo diferente para o filho, porque se nos fascina tanto o teatro, para ele também é um grande atrativo. Ele, por exemplo, já sabe fazer os dois personagens da peça.

JC - Como você vê a cultura sendo tratada no Brasil? Celulari - A política cultural no Brasil ainda é muito imatura, não se percebe a cultura como um veículo político incrível, um veículo social e até econômico. Para se ter uma idéia, hoje a indústria de arte nos Estados Unidos, a indústria cultural, é a terceira em faturamento, só perde para a bélica e a automobilística. Isso é uma maravilha. Aqui no Brasil ainda não se percebeu isso, então para tudo é preciso fazer muito esforço, correr atrás de patrocínio... Nós produzimos a nossa peça assim. A nossa vontade era poder viajar e fazer espetáculos de graça, para poder atingir um público maior. A nossa companhia é irreal economicamente, ela não se paga. Se a gente termina o projeto no rosa, para não dizer no vermelho, já é um grande lucro. É complicado, mas a gente rola a pedra e vamos para a próxima.

JC - Quais são seus projetos para o futuro? Celulari - Eu vou descansar por algumas semanas, depois tenho a participação em um projeto da Globo e acho que vou fazer uma novela no segundo semestre. Também tenho três convites para fazer cinema e quero ver se consigo fazer em algum intervalo. Fiz poucos, mas bons filmes, e há muito tempo não faço. O cinema brasileiro está num momento bacana, criando opções interessantes, inclusive até de adaptar peças de teatro, como fizeram com “A Partilha”.

Comentários

Comentários