Pesca & Lazer

História de pescador - Canoeiros do Araguaia I


| Tempo de leitura: 2 min

“Quando de nossa pescaria acampados numa das ilhas do Araguaia, local com muita vegetação, pouco trânsito de pescadores e por segurança, bem distante das margens e uns 30 quilômetros a montante do rio das Mortes, quando fato impressionante aconteceu, quase resultando em terrível tragédia.

Éramos eu, o Calixto Reine, o Engenheiro, que Deus o tenha, “Joãosinho da farmácia”, Pedro Catz e Caetano Gonzales; os três primeiros residentes em Bauru, os demais em Agudos. O Calixto, além de experiente pescador é excelente “mestre cuca”, que sabe preparar um cardápio digno de sua fama, motivo para nos acompanhar em quase todas as pescarias que realizamos.

Não demorou muito e apareceu um pescador e caçador solitário, dizendo conhecer toda a região; queria nos vender uma pele de onça abatida recentemente, ainda na

”meia-cura”. Alongando-se na conversa disse estarmos acampados em local perigoso, freqüentado por onças que aportam nessa ilha à caça de tartarugas e animais menores. Floreou muito nos detalhes do encontro dele com duas onças, dos perigos que enfrentou, ficando encurralado num fundo de mato tão fechado que lhe era impossível fugir e do tiro certeiro que abateu uma delas; sua intenção era nos impressionar e valorizar sua mercadoria.

O couro era de onça pintada, grande, ainda com a cabeça no lugar, fato que daria mais importância e preço ao troféu. Não nos interessando ele saiu: mas a visão da carcaça, os beiços enormes, caninos compridos sempre à mostras, faiscando sob as luzes dos lampiões, espécie de sorriso mortuário, deixou-nos muito impressionados.

Cismados, juntamos armas e facões, colocando-os à distância conveniente; qualquer brulha, menor fosse, deixava-nos alertas. Em lugares ermos e desconhecidos, à noite principalmente, é comum nossas mentes, influenciadas por circunstâncias adversas, criarem situações de perigos que não existem.

Sabíamos fantasiosas as conversas do pirangueiro, mesmo assim nossas imaginações teimavam em acreditar, como se fora um mecanismo natural de defesa: o medo torna-nos mais precavidos e protegidos. A imagem do resto desfigurado de um belo animal que fora em vida, deixou-nos tristes e temerosos: seria começo de paranóia?

Durante o dia vasculhávamos as areias da praia procurando vestígio estranho: muitas pegadas de animais menores encontrávamos, de onças, graças a Deus, nenhuma; acendíamos os lampiões logo o dia acabava.

É noite... Dado momento ouvimos um barulho meio surdo, como passos arrastando-se sobre a areia solta da praia, um ranger desconcertante, considerando-se o adiantado da hora; o que poderia ser? Nervosos, pegamos as armas e as lanternas mais possantes; dedos fibrilandos nos gatilhos prestes a serem acionados; timidamente fomos averiguar: súbito imagem escurecida, embaçada pela chegada da noite surgiu à nossa frente: nervosos íamos atirar, quando grito assustado nos alertou: não atirem, sou eu, o pescador já conhecido de vocês. Ficamos estarrecidos de susto; não atiramos antes de sua identificação, devido nossos reflexos ativados e assim não cometemos um assassinato.”

Felisdeu Leão Dentista e pescador

(Continua na próxima edição)

Comentários

Comentários