Tribuna do Leitor

SOLIDARIEDADE TEM FORMA E COR

Rosali F. Malaspina Azevedo Silva
| Tempo de leitura: 4 min

Participando de um Projeto de grande valor social com atendimento das crianças contaminadas pelo chumbo, realizado por voluntários, no Centrinho, pude entender que os ideais não são medidos pelo poder, status, ascensão, ou vaidade e que os resultados que se colhem não têm preço e não se igualam a nenhum troféu.

Ao deparar com aquelas crianças, seus olhinhos nos davam a entender que elas eram as que menos entendiam que o estava acontecendo e nos olhares aflitos e perdidos das mães que representam aquela velha pergunta: “Por que isso aconteceu com meus filhos?” ou ainda “Tinha que ser exatamente com nós”. Onde está a dignidade de cada um de nós? Ninguém busca uma contaminação de chumbo mas é a realidade. E o que resta é que uma equipe que busca o resgate desta dignidade se una e faça algo por estas pessoas.

Naquele momento, nenhuma função ou especialidade era melhor ou mais importante que a outra. Sabíamos que era preciso fazer e por um instante parei e pensei: “Meu Deus, não é que aconteceu mesmo? E neste momento é que a força vem e fortalece. O cenário era único e não se conhecia quem era quem nas suas funções de auxiliares da solidariedade. E naquele corre-corre lembro-me da Fran dizendo: “Rosa, eu dei banho numa criança, até fralda eu troquei! Aprendemos até a usar o telefone que o Ronaldo da Vigilância usa tão bem (Positivo, Câmbio). A Salete e a Elaine ficaram “craques” numa mesa de circulação de prontuários. A Maria da Funcraf parecia que nunca ia se cansar e a Camila (quase confundida com as crianças) de jaleco, parecia já a bióloga que sonha um dia ser. A Maria do Carmo, incansável com as crianças. A Márcia, mais que uma assistente social. Nutricionistas preocupadas com o bem estar cuidando da alimentação. As enfermeiras tão cuidadosas. A turma da PROFIS sempre presente. Os médicos aguardando cada etapa e faz BERA lá e aqui, era Regina, era Kátia com as estagiárias da fonoaudiologia sempre presentes. A Sandra Thomé quando resolvia o problema da tabela de crescimento já estava precisando de mais fraldas e lençóis. A equipe de Botucatu, da Secretaria Municipal de Saúde, da Unesp com tanto profissionalismo no desempenho de sua missão. De repente vem o pedido da Priscila: precisamos de uma máquina para fotografar as crianças, até documentação científica pudemos realizar! Lembro-me de cada detalhe, cada gesto, cada momento, cada imprevisto, até mesmo da saída rápida do dr. Gastão para o Wal Mart na tentativa de conseguir um televisor para as mães que aguardavam na sala de espera, ou ainda como telefonista nas ligações para conseguir os lanches com o Confiança Max.

Lembro-me especialmente daquela hora que é tão difícil para as crianças: a coleta de sangue. E aí, como amenizar? Neste momento não tem como substituir a sua dor, talvez não temos como responder aquela perguntinha que talvez na sua inocência poderia nos fazer: “Tia por que você tá fazendo isso comigo? E como explicar que outros interesses ou a falta de cuidados, o descaso para com a cidadania o trouxeram para aquela situação? E o único recurso para suas perguntas naquele momento era diminuir sua dor (não sei qual delas: física ou emocional?) E o que eu tinha nas mãos para oferecer eram simplesmente balões de ar coloridos – amarelos e azuis – arcos lindos feitos pelas educadoras do Setor de Educação e Recreação e que, aos poucos, foi preciso desmanchar e entregar as “bexigas” para os nossos “baixinhos”. E saibam: Como funcionou! Ao sair da sala, esperavam pelos balões coloridos e esqueciam da dor. E os nossos corredores pareciam verdadeiras quadras de pequenos esportistas. Aprendi como o pouco é suficiente e muda uma situação. Entendi que a solidariedade vive nos rodeando e teimamos em não ver e que com tão pouco se realiza grandes feitos.

Não é preciso tanta tecnologia, nem tanto avanço. É preciso de gestos não intencionados com o retorno próprio mas de quem precisa da solidariedade. Porém, creia, o retorno existe com esta lição e nos faz tirar “aquele cinza” que cobre nossa vida por pequenos problemas, insatisfações, desânimos e descrença. Acreditar na riqueza que um trabalho voluntário traz não se compara a ganho nenhum e o que se aprende numa situação como esta é tão singular que lhe fará pensar o que um pouco pode fazer em certos momentos é o tudo que alguém está querendo, mesmo que seja o simples gesto de entregar uma balão de colorido.

Agradeço de coração a oportunidade que vocês me deram, com mais esta lição de vida, e estar com todos vocês neste dia. (Rosali F. Malaspina Azevedo Silva - RG 10.825.239)

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