Não há mais dúvidas. Está em curso uma transformação irreversível nas fontes de energia fundamentais para a movimentação da economia mundial. O petróleo, combustível fóssil, poluidor e finito, predominante no século XX, já entrou num período de depleção (curva de produção inferior à de consumo), o que indica preços cada vez mais altos e utilizações mais selecionadas.
O primeiro grande impacto desta mudança deverá se dar no transporte rodoviário: a gasolina e o diesel darão lugar ao álcool, ao biodiesel, nos motores convencionais e à célula de combustível, que também poderá usar álcool, nos motores do futuro.
A primeira demonstração desta mudança é a resistência cada vez menor da indústria do petróleo ao banimento do MTBE na mistura da gasolina. O MTBE é um derivado do petróleo utilizado como antidetonante da gasolina, que serve para evitar explosões nos motores de ciclo Otto e que está sendo abandonado por contaminar as águas de abastecimento e apresentar potencial cancerígeno. Um exemplo desta mudança de comportamento das distribuidoras é o recente anúncio da British Petroleum de que substituirá o MTBE por etanol (álcool) na mistura da gasolina no Estado norte-americano da Califórnia. Isto ocorre mesmo após o governo da Califórnia adiar por um ano, de 2003 para 2004, o banimento do produto no Estado.
Na esteira deste banimento cresce o número de países decididos a misturar álcool à gasolina, motivados pelo combate mundial ao efeito estufa, cujo ícone principal é o Protocolo de Kyoto, que vem sendo ratificado por um número cada vez maior de países e que consagra o incentivo às fontes renováveis de energia e desestimula o uso de fontes fósseis, geradoras de CO2.
Ao mesmo tempo surgem alternativas transitórias e que antecedem aos novos motores movidos a célula de combustível. Falo dos carros híbridos, movidos a álcool e/ou gasolina que já contam com uma frota de quase 2 milhões de veículos nos Estados Unidos, quase do tamanho da nossa frota total de veículos a álcool que hoje está em torno de 3 milhões de automóveis. Isto graças ao descaso verificado em relação ao carro a álcool nos últimos anos, uma vez que já chegamos a possuir uma frota de mais de 4,8 milhões destes veículos.
O carro híbrido, também chamado de flex fuel ou carro flexível deve estar chegando no próximo ano no Brasil.
Considero o flexible fuel como a redenção total do carro a álcool, uma vez que retira o principal argumento da indústria automobilística, baseado numa suposta (e irreal) insegurança quanto ao abastecimento do combustível. No entanto, enquanto a tecnologia não se firma definitivamente é fundamental a continuidade da produção de veículos a álcool, de comprovada qualidade, resistência e durabilidade.
De qualquer forma, tanto o carro híbrido como o carro flexível demonstram que o nosso combustível renovável, o álcool tem um grande futuro. Na célula de combustíveis, por exemplo, deverão ser abertos novos mercados para o álcool, não só no setor automotivo mas também no aeroespacial, marítimo, ferroviário e de geração de energia e calor.
Enganam-se, portanto, aqueles que pensam que o álcool é uma alternativa do passado. É cada vez mais a solução do futuro que o Brasil sabiamente antecipou quando criou o Programa Nacional do Álcool, em 1975, e passou a fabricar maciçamente automóveis a álcool a partir de 1979. (O autor, Arnaldo Jardim, é deputado estadual, engenheiro civil, foi secretário da Habitação - 1993 -, presidente estadual do PPS, coordenador da Frente Parlamentar pela Energia Limpa e Renovável - e-mail: arnaldojardim@uol.com.br)